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depois da pátria


Greece Naxos Apollon Temple, originally uploaded by j0rune.

 

depois da pátria é o futuro porque pátria foi o que concedemos
a terceiros que nos representam, esquecendo-se donde vieram.
mas até o futuro pode ser questionado
se os comportamentos não mudam.

e os rostos continuarão a perder a face da vergonha,
livremente, em plena vontade,
felizes pela ascensão às migalhas do domínio.

como se não houvesse subjugados,
reina a ilusão da permanência.
todos somos serventes,
ó companheiros do infortúnio.

é necessário abater os pedestais
para que o espanto não padeça mudo!

(13 de Maio de 2011)

Vozes d’outros (31)

Aprender com as palavras a substância mais nocturna

 

“Aprender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a própria sede
talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria.”

 

António Ramos Rosa in O livro da ignorância

Fluência


Big Bang Fractal, originally uploaded by James Willmott.

 

o grito é um quadro mudo, uma boca acesa ao espanto
entregue à agudeza do declive esmagador,
onde brotam as palas orais do deserto.
quando acontece o convívio do silêncio extenua-se
a linha do monólogo pensante, num multiplicar inomeável
que reforça os membros do tempo.

o espectro não é linear nem obedece aos sons do destino.

desenrola-se.
como um desvelo de prazer egoísta,
omnipresente e justo.

assim se atinge o óbvio.
sem possibilidade de arbítrio,
mas na possibilidade do abraço
aos humores da rotação.

o trilho é uma ruptura vadia.
nada sangra. apenas cessa o verbo!

in Sons Urbanos

Reflexos

 

espelhos de água,
almas antigas.

veios tubulares suspensos
aguardam o ascender das lágrimas tombadas.
sonhos que regressam ao céu,
pelos cachos em profundo azul.

retornam os cruzamentos passados
como coroas em silêncio resplendoroso,
ou rubis incrustados em imagens
na escultura que procura o coração.

mãos despojadas sucumbem!
ao ardor da visão desejada,
lamentando o desnudar do esquecimento.
e o sangue é origem.
é o sangue que dá vida!

no mármore arrefecido,
em todos os instantes da criação,
ainda brilha a auréola primordial.
faces renovam-se.
hipóteses multiplicam-se
só a espécie permanece indiferente!

água em espelhos,
almas perdidas.

 

in Diálogos, Epistolas Inertes

Anomalias?

"Mutações Genéticas" pintura em acrílico de Luiz Morgadinho

 

queres pintar hereditariedade?

sabes que nenhum lado é individual no horizonte da aura?
sabes que a ilusão é uma cerca sensorial?

então,
liberta os dedos do pensamento
nas espirais onde florescem os troncos,
crava as garras nos cumes anões,
faz dos peixes invertebrados alados.

os jardins ascenderão aos nimbos pela mutação das guelras
e as bocas ectotérmicas nascerão nos quadrúpedes desterrados.

o sonho em fartura rende-se ao apelo dos sons em unissono
e no silêncio do vento, funde-se metamorfose.

queres pintar genética?

abre os olhos!

 

in Sons Urbanos

Vozes d’outros (30)

Dá-me de beber …

 

“Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens… que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.”

 

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

verbo azul

Manuela Salema – Livro plantado – 2007

 

uma pena solta.
um ramo suspenso.
uma página aberta ao futuro.

Deusa do jardim das safiras,
levitas no lago etéreo do desejo,
na amalgama das eras,
entre as encostas do meu peito
e mares em índigos sonhados.

floresce uma rosa, qual semente no coração.

marcas do tempo subsistem,

mas o Verbo da criação
é o livro azul da origem,

onde somos In-finito!

outro momento


the time machine., originally uploaded by shaman..

 

e se te disser que a terra é curva?
que o planeta é plano?

rasgarás os dias?
desfolharás o calendário?

só os números se sucedem sucedâneos,
entregues a uma contagem condicionada,
onde,
solto da gravidade,
se sente o fio da existência.

havendo medidas,
terá sempre que se desfraldar um recomeço.

nas espirais do tempo rege a ilusão das metas, mas nada deixa de fluir.

um passo termina,
outro momento acontece.

e festeja-se!

Para o meu filho Vasco


Iris_Nebula, originally uploaded by Lua Samsara.

 

Meu filho, sou um sonhador!

Sou alguém que acredita em valores, na família, na amizade, alguém que agradece os ensinamentos transmitidos, a começar pela dádiva da existência, recebida dos teus avós e, finalmente, sou alguém que pensa e questiona o que me rodeia.

Nota que o que nos rodeia não é fácil. Ainda bem. Porque a vida não é fácil. Exige esforço e dedicação, no respeito pelo pluralismo das circunstâncias humanas.

Mas viver será muito mais difícil se não sonhares. Por isso, meu filho, sonha e muito! Não deixes que os sonhos se tornem ilusões, nem nunca deixes de viver os sonhos.

E que os teus sonhos te façam generoso, te façam explorar o multiverso que existe para além do horizonte, te acompanhem durante a vida, te iluminem o coração e te permitam questionar o cosmos, para cresceres em comunhão com os teus semelhantes e em concordância com o todo.

Meu filho, hoje, por ti, dei o segundo passo na eternidade. Sou pleno no todo!

Só tenho mais esta esperança:
Que os teus sonhos aconteçam porque tu excedeste todos os meus!

O teu Pai,
25 de Maio de 2011

Ó Moral

 

Ó moral,
que as amarras à ética
no correr dos tempos perdeste,
foste tu que te corrompeste
ou o criador quem te corrompeu?

E a lição que sempre prometeste?
Será que chegou a ser o que pretendeste
ou foste prática que, desde o inicio, em vão prometeu?

in Homens, Deuses e o Universo

Amapolas


Amapolas, originally uploaded by ·GeorG·.
 
 

a inevitabilidade da crença deve conduzir ao rasgar da fé.
nada é perfeito, nada fica incólume após o toque humano.
e sente-se a raiz do choro,
cujo advento faz a proclamação do trilho terreno,
que alimenta a condição mortal.

nos momentos em que os halos vermelhos se erguem
para a redenção,
existência acontece pelo verter das lágrimas
que sucumbem às echarpes em luz solar.

talvez a ilusão seja uma necessidade?
mas, apenas o sonho é seguido,
apenas o sonho propícia a expiação.

ser ou dever ser,
é a constante do diálogo.

que produz as cores do horizonte.

 

Dia da Mãe / Mother’s Day


IMG_4104, originally uploaded by vfswa.

 

Num segundo,
um som,
uma anunciação:
choras!
e existes para o mundo.

Ao ver-te,
com ternura, recebe-te
e no silêncio duma prece,
[a Deus] agradece.

Mãe!
Num momento de dor
gera
a vida com amor.

Mãe!
Haverá alguma sensação
que ofereça maior protecção?

 

In a second,
one sound,
an announcement:
one cry!
life borns into the world.

Seeing you,
with tenderness, welcomes you
and in a silent prayer,
[God] thanks.

Mother!
in a moment of pain
generates
life with love.

Mother!
Is there some sensation
that offers greater protection?

Rebanhos


Sheep may safely graze, originally uploaded by Photoma’s World.

 

ventos escorrem suaves.
mas, ao largo, nada se comove.

nem os agrados macilentos!

talvez haja improbabilidade nas dinâmicas?
ou mera pertença esquiva?

as interpretações mais solitárias
são vociferadas pelo conjunto.

há porta-vozes mordazes!
airosamente plantados sem escrutínio.
livres de escrúpulos e dos tempos idos,
plenos na sobrevivência instintiva.

não há resistência quando as perguntas ficam inertes.

no dialogo suspenso, o ciclo é desmembrado.
tudo é réplica interrompida.
mesmo aqueles que não o julgam, são marionetas.

quantas ovelhas são realmente livres?

 

in Sons Urbanos

Vozes d’outros (29)

Subtileza

 

“quão subtil pode ser o espinho que sinto cravar-me os olhos,
a indelicadeza de uma não palavra no teu poema desesperado,
o pôr-do-sol derramado no longe a que te votas.
a subtileza é um gesto demorado,
como câmara lenta de uma imagem que nasce no centro das mãos,
estames que inspiram olfactos de terra,
ínfimas pétalas que se sobrepõem numa disputa da tua mirada.
mas não sou eu que me ofereço, são elas!
eu, serei subtil como o silêncio interior dos teus pensamentos
que te rondam nos segundos vagos
e te ocupam o desejo.”

 

Luísa Azevedo

Estrela-do-mar

 

só os corpos sofridos atingem a redenção das águas.

vida sem dor é existência ser ardor
e os rasgos fazem pulsar o coração

onde gotas vermelhas contam o tempo
que mede o horizonte da iris.

a oscilação do desejo depende
do sussurro que chora pelo azul.

todavia, a palpitação dos grãos é real!

 

 

Dia do Pai / Father’s Day


Father& Son, originally uploaded by Christolakis.

 

Não sei
porque me é difícil
mostrar
o quanto és
para mim,
no meu coração.

Não sei
porque é tão difícil
construir,
as pontes que permitam
reforçar,
a nossa união.

Pensei
que as divergências
fossem
simples de ultrapassar,
apenas,
próprias
do conflito da geração.

Só sei
que
sem ti nada seria,
contigo,
tudo sou.

I don’t know
why it’s so hard,
show
how much you’re
in my heart.

I don’t know
why is so difficult,
build,
bridges that allow
the strengthening
of our union.

I thought
that the divergences
were
simple to overcome,
mainly,
due
to the conflit of generations.

I just know
that
without you I’m nothing.
With you,
I’m everything.

 

Revestimento


music, originally uploaded by re:nay.

 

no retiro das semibreves,
sou banhado pelos raios de luz
que serpenteiam as savanas roxas.

onde o verbo inexprimível
é visão concretizada
no palpável das espirais da aura.

tudo conflui na melodia
dos sentidos cardeais
e dos interstícios das partituras vazias.

a coesão das partículas estremece
e a rapidez dos electrões adormece.

fractais e outras ondas
constituem-se renovadas.

e expurgam-se as falências humanas,
essas pequenas imanências
que estruturam o âmbito celeste.

 

in Interlúdios da Certeza

Estética


Sunflowers, originally uploaded by Eric E Haas.

 

“A beleza é a expressão do infinito no finito” – Schelling

Arte,
ciência e religião
são grandezas numa dimensão superior.
Manifestações individualizadas pelo colectivo particular.

O valor da pureza inteligível,
o estádio supremo da estética,
os limites a atingir,
são o Bem e a Verdade.

Eis onde o individual se funde no contínuo!
Eis onde o todo é compreendido!

in Metafísica [Poética]

 

Vozes d’outros (28)

If

“If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
…Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream–and not make dreams your master,
If you can think–and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings–nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And–which is more–you’ll be a Man, my son!”

Rudyard Kipling – 1865-1936

queres?


desire, originally uploaded by bcfp.

 

somos?
somos o improvável da manhã e a nuance nas árvores caducas.
somos o crepúsculo das flores e a luz que vela a noite.

somos?
somos a tristeza da separação ou a incerteza da espera.

mas o fogo acontece
e somos flama desprendida,
desejo imortal, ondas em perdição

toda a carne se quer, toda a alma se entrega
à intensidade do momento que gera o suspiro do corpo.

algures, o tempo permitirá o alento.

e o beijo fecundará o Verbo,
e a entrega acontecerá serena,
nos braços da paixão.

somos!
somos o inevitável!

queres?

Agradecimentos – 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação – Porto

Na tarde de hoje, 12 de Fevereiro de 2011, apresentei o meu quinto livro de poesia – 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação – na presença de famíliares e amigos, todos apreciadores de poesia. Melhor não seria possível!

Agradeço a todos os presentes, fisicamente e em espírito, e reitero a minha gratidão ao meu editor, Jorge Castelo Branco, que acredita nas minhas palavras, à prefaciadora, Maria Luísa Malato, à posfaciadora, Hercília Fernandes, poetisa brasileira, e à Luísa Azevedo, que gentilmente deu voz aos meus poemas.

Numa ténue tentativa de retribuição, reproduzo algumas das palavras que me dedicaram.
Muito obrigado!

Estamos aqui reunidos para o lançamento deste livro, já prometido, aquando do lançamento em Outubro do ano passado de “Diálogos, Epístolas Inertes”. Oportuno dizer que seria este o livro que o autor mais vontade tinha de ver editado, na altura, mas subjugado foi por motivos menos românticos e mais materiais: Fevereiro e o Dia dos Namorados.
Como tal, achamos oportuno trazer a público, nesta data consagrada ao amor, um poemário que, no nosso entender, nos reconcilia com a poesia amorosa, empenhada que está, ultimamente, ela e os seus autores, em abordagens piegas, sensaboronas e insípidas, por um lado, ou dramaticamente pungentes, perpassadas de dores tais que fará o mais desprevenido dos leitores desejar-se beato a salvo de tão horriveis flagelações.
Oportuno dizer que escrever poemas de amor é tarefa difícil à qual nunca me atreveria; acabaria desde logo com a minha racionalidade. Depois, pela responsabilidade da tarefa: todos bem sabemos que o amor não pode ser empiricamente comprovado nem tão pouco demonstrado, apenas sentido. Ora, o efeito de um livro de poemas de amor, por consequência, será, idealmente, a capacidade do poeta em projectar por palavras e imagens poéticas algo em que o leitor comum se reveja, solidária e apaionadamente. Assim, estes 31 poemas, que o poeta escreve a destinatária certa, poderão proporcionar mês inteiro de felicidade a outro alguém.
Muito obrigado
Jorge Castelo Branco

Para uma Poética do Enamoramento
Por Maria Luísa Malato

Para falar de amor é preciso procurar as nossas origens, ir até ao mais fundo, ao mais remoto de nós. Os nossos primeiros gestos, todos desajeitados, as nossas primeiras palavras, todas novas. As primeiras lembranças que temos de ter pedido alguma coisa qualquer coisa que sabíamos fazer-nos falta. É aí que vamos encontrar o que dará origem à poesia e ao amor, é aí que vamos poder fundar a poética do enamoramento. Os académicos do século XVIII preocuparam-se muitas vezes com estas minudências: que língua falavam os homens quando começaram a falar?, que sons lhes saíram da boca que não fossem gritos vissem senão cadelas e velhas, uma palavra aramaica, francesa ou alemã lhes sairia dos lábios, demonstrando a antiguidade da religião judaico-cristã ou o primeiro testemunho da existência da nação. A maior parte das crianças morria antes de atingir sequer a idade da fala, por falta de condições ou por falta de atenção, sabendo-se hoje que levam ambas a morte quase certa. Nas raras que sobreviviam, os solícitos cientistas invariavelmente encontravam o que procuravam, uma palavra que reconheciam, quase sempre com “mm” e “aa”, que afinal bem podia ser a imitação dos animais com que as crianças conviviam. Mas talvez a explicação mais fácil se encontre no corpo. O som “a” é a vogal mais fácil de pronunciar pelo aparelho fonador: a boca aberta, a língua baixa, o ar sai passando intacto pelas cordas vocais. O “a” sai de nós com a mesma naturalidade do espanto, da gargalhada ou do grito: aaahhh. O som “m” é a consoante que mais se lhe assemelha, mas o ar ai, com os lábios levemente cerrados, bilabiais, sem que haja necessidade sequer de premir os lábios, mas fazendo vibrar as cordas vocais, soltas: é como se fosse um longo gemido, de prazer ou de queixa: mmm. Juntos, levemente nasalada a vogal, saem com o véu palatino descontraído, mal fechando as fossas nasais. As mães fizeram certamente batota quando reservaram para si estes sons na maior parte das línguas do mundo: quase todas com “m” e “a”, “m” e “e” central e médio, ainda ou sobretudo nos diminutivos carinhosos: mãe, mamã, madre, mummy, mother, muther, moether, moder, umame, umme, man, mat, mam, me…
Para dizermos “pai”, ou ainda “papá”, o bebé aprimora a cavidade bocal. Já sabe jogar com os sons, já fez bolinhas com a saliva, divertiu-se a acumular o ar junto aos lábios cerrados com força e a de repente soltá-los como balão que se pica: pppp, bilabial como o mmmm, mas agora oclusiva e sem a vibração das cordas. Os sons que designam o pai são já sinal dessa força que é preciso ter para representar a “virilidade” muscular. À naturalidade com que pode sair-nos da boca a palavra “mãe” corresponde a igualmente necessária disciplina com que nos sai a palavra “pai”. Talvez não seja por acaso que muitas línguas opõem a naturalidade silenciosa da palavra “amor” à disciplina violenta da “paixão”. Nascemos do pai e da mãe. Como a poesia nasce da união do amor com a paixão, um doce, outra violenta, curiosamente trocados os artigos, como se o “o” do amor fosse a ponta negra do yang, diurno, e o “a” da paixão a ponta branca do yin, nocturno, alertando-nos para o quão falíveis são as divisões entre o masculinno e o feminino. Nos poemas de Vicente Ferreira da Silva, é também evidente essa mesma tensão: “Acontece poesia em ti/ sempre que olhas/ afirmando uma vida pulsante (…) Acontece poesia em ti/ sempre que ris/ criando umas curvas no rosto (…) Assim/ quando/ eternamente te penso (…) acontece também/ poesia em mim” (p. 13).
Para falar de amor é preciso sabermos que não nos bastamos. Toda a nossa identidade, construída laboriosamente á volta do “eu” e do “tu”, como se duas coisas autónomas fossem no universo, se desejam agora fundir num estranho “nós”, um singular-plural em que o “eu” e o “tu” se perdem ou se não conseguem bem encontrar: “Eu sou eu/ por tu seres./ Sou!/ Sou tu e eu/ sou nós./ Serei/ por ti/ nunca mais eu” (p. 25). O não nos bastarmos, porém, tem os seus perigos. Os perigos do amor, que são os mesmos que a guerra tem e por isso se dirá sem dúvida que no amor e na guerra vale tudo. Há no amor um dissimulado colonizador do “tu” que deseja tomar posse do seu território, o território do “eu”, filho dilecto dos deuses. Posse, bandeira, padrão, “pertença”: “Explorar – respondi./ (…) Quero o universo do teu ser,/ conhecer/ Para assim/ com uma pequena parte de mim/ o preencher” (p. 39). E por isso o“nós” está sempre por fazer ou refazer, exigindo “Viagens”, “Transformações”, “União”, “Dádiva”: “Procuro-te/ incessantemente./ Desejando/ que sim” (p. 45).
Para falar de amor é preciso enfrentar a desordem do discurso. O amor é um querer incompleto, por fazer, e por isso ao amoroso incomoda a frase feita, a sintaxe ordenada e fechada, como se o mundo estivesse todo feito. O amoroso sabe do seu estado fragmentado e nada mais lhe saem da boca, nada senão fragmentos, como ele estilhaços. Frases nominais, sem sujeito ou predicado, repetições, tentativas sempre imperfeitas. Busca-se em vão o adjectivo exacto, o termo rigoroso para o caos: “novos,/ opulentos,/ partilhados,/ queridos,/ responsáveis,/ sinceros,/ tentadores,/ únicos,/ variados,/ Xpto’s/ zodiacais./ És uma sucessão…” (p. 41). As palavras são peças de um puzzle, ainda sem um sítio certo: “A paz que me dás./ O amor que me tens./ O bem que me fazes” (p. 67). O amador demora-se nas hipérboles, só elas lhe parecem verosímeis, porque toda a atenção amorosa se centra em pormenores, peças soltas desmedidamente ampliadas: “Eu me ouso” (p. 61).
Para falar de amor é preciso amar, ainda que mal. Mesmo se para amar não seja preciso falar de amor e ele somente o peça como o código pede a formulação da lei, uma lei performativa, que seja real porque diz que é real: “Mas nunca pensei que as minhas palavras pudessem ser razão./ É por isso que me desprendo da mudez./ Porque amo o verbo” (p. 76). O amor ilude-se com as “declarações de amor”, as “promessas de amor”, as palavras. E por isso busca um estatuto literário, de estranhamento instituído: entre a declaração de amor, “Amo-te!” e o reconhecimento de “Ser amado” se instale um “Âmago” de discussão, âmago oco porque não resolvido pelo discurso: “Tu perguntas? Eu penso!/ Não sei porque […]/ Não sei porque […]/Não sei porque […]Não sei porque […]/ Tu perguntas? Eu respondo./ Não sei explicar […]”. Como também por vezes se basta com a mais comum das declarações: “Amo-te/ em todos os momentos./ Amo-te/ mesmo nos momentos/ que não são momentos/ nem pausas, porque até nas pausas te amo” (p. 65).
Para falar de amor é preciso desafiar o nosso manifesto interesse em ser amado. É aceitar afinal não ser amado e amar desmedidamente sem retorno, sem paixão e sem jogo, amor coxo, é certo, órfão de pai, mas fiel a um contrato injusto. Ainda assim naturalmente doce e fluido. Significativamente “30 mensagens de amor e uma recordação” são 31 dias de um monólogo que busca constantemente o diálogo, interpelando o outro, suplicando, recordando, prometendo, afeito a um “amo-te” que se transforma em “amei” ou “amar-te-ei”. Dádiva em todo o caso: “E seremos criadores do tempo. Nunca mais sozinhos ou transviados, mas entregues ao bater do coração, no embalo do sentimento que nos faz e preenche” (p. 82).
Para falar de amor é preciso falar do caminho que vamos abrindo ao caminhar. Caminho nunca feito, sempre a repetir, até o trigo e o joio desistirem de tapar o âmago de onde todos nascemos. Os nossos primeiros gestos, todos desajeitados, as nossas primeiras palavras, todas novas. As primeiras lembranças que temos de ter pedido alguma coisa, qualquer coisa que sabemos fazer-nos falta.

E, por fim, reproduzo uma carta que a Hercília Fernandes escreveu como resposta às 4 cartas que são oferecidas no livro, todas elas começando por: Minha Querida.

Caro Vicente,

sinto as tuas palavras como ondas eletromagnéticas, tamanhas as forças a nos atrair os sentidos, os pensamentos, convidando-nos à vida, à beleza, ao multiverso.
Imensos e ínfimos são os teus sentires. Assim como as laudas que, ora unidas, separam-nos os Oceanos…
Falas-me: “Cada um de nós cria os seus mecanismos para lidar com os sentimentos”. E metaforizas: “a geografia é uma esquina escondida”.
Bem sinto a tua ‘emoçãofísica’… A tua metáfora alçada na simplicidade da expressão, simultaneamente lapidada no complexo festim dos conceitos quânticos.
O sentimento, afetuoso amigo, sopra-nos contínuas e descontínuas proximidades, mas as distâncias consumem-nos as ânsias quando edificadas sob abismos.
Pois há areias em nossos olhos. Mudez em nossas línguas. Surdez em nossos ouvidos…
Há, ainda, rudeza em nossas mãos que não dispõem perspectivas às infinitudes do toque, mostrando-nos incapazes de ultrapassar fronteiras, os imediatismos das sensações, os dedos…
Dizes, meu querido, tens pensado a palavra sentida…
É essa palavra que procuro expandir-te. Somente assim poder-me-ia alcançar-te, unir-me a ti nesse sonho tardio, móvel, acordado…
Pois essa palavra interessa-nos à poesia. É essa palavra, como bem disseste, origem do pensamento sentido; guia-nos aos sonhos e confere unicidade ao instante poético, por isso mesmo ressoa e repercute nos sentidos, sentimentos e conceitos dos que a lêem, transformando-os.
Posto ser ancestralidade e infinitude. Élan entre memória e imaginação: devaneio.
E é no devaneio [poético] que nos tornamos Uno. Abrimos (des)caminhos à múltiplas potencialidades, vivências estéticas, experiências cósmicas, capazes de nos restituir a plenitude de nossa primeira constituição.
Falar-nos-ia um filósofo sonhador que o poeta não recua diante um gesto cósmico. Em sua ardente memória, o poeta sabe sê-lo um gesto da infância: como duvidar de um amante que por amor a sua amada ambiciona “apanhar a lua ”?…
Não temas em atrever-te, meu querido. As tuas palavras são melodias emergidas da solidão do poeta, do silêncio inaugural em que ressoam as “cordas da Harpa do Cosmos”. Por isso há – como pretendera a engenhosidade do Físico -, de apanhar-te a Lua, oferecê-la à tua Amada, unificando os corpos que, celestemente, habitam-nos os sonhos.
És um sonhador. Custa-te a longevidade do tempo e o curto espaço de separação… Tua alma clama poesia, daí a natureza de tua ‘emoçãofísica’, de tua ardente recordação, de tua saudade. Porém, tu sabes: “a lua, esse grande pássaro louro, tem seu ninho nalguma parte da floresta ”.
E, nessa parte ínfima, há realidades (im)possivelmente críveis…

Com a sinceridade dos afetos,
Sua Querida

Acontece Poesia


Beyond The Sea, originally uploaded by Bill Adams.

 

Acontece poesia em ti
sempre que olhas,
afirmando uma vida pulsante,
magnífica,
como
o cintilar das Estrelas no céu,
o resplendor brilhante do Sol
nos teus doces
e meigos olhos.

Acontece poesia em ti
sempre que ris,
criando umas curvas no rosto,
sensuais,
como
os campos de searas ao vento,
as ondas nas águas de um lago
ao sabor da quente
e harmoniosa aragem do Verão.
 
Acontece poesia em ti
sempre que andas,
alimentando o nascer de sentimentos,
sinceros,
como
o delicado desabrochar de uma flor,
o despontar do amanhecer da vida
no enternecido ser
do meu coração.

Assim,
quando
eternamente te penso,
te sinto,
te vivo,
por fim
acontece também
poesia em mim.

in 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação

Vozes d’outros (27)

Com cinco letras apenas

 

“entre doces
avelaneiras
sob os açafroados
cálices do fruto
um pequeno acanto
disposto
do fundo da alma
a tantos sacrifícios
como os do salmão
da sabedoria
que
engoliu as nove avelãs
mágicas
como dizem os entendidos
e se tornou o aliado
dos adivinhos
a sua vibração
tão aguda e eléctrica
que traz consigo
a mais criativas das inspirações
essa é a planta da sabedoria
e Leucípe
leva-a consigo
quando procurou o pai e a irmã
e os encontrou
segundo as instruções
do oráculo
ou seja
vestida de sacerdote
e assim
foi vista e amada
e daí nasceu a trama
o prodígio
para que mais uma vez
o mundo continuasse
igual a si mesmo
apenas
um pouco mais gasto e tonto
não canto.”

 

Alberto Pimenta in Prodigioso Acanto

Lambe-Botas

corpos descalçados anunciam os sexos.

confessadamente!

e não há reconhecimento
…ou qualquer pudor em disfarce.

são as línguas que perfazem as faces,
desvirtuando o colo da sociedade,
onde a languidez errante da adulação,
nutrida em baba ressequida,
expressa sons sem tons.

nem o olhar tem voz!

porém,
quando as botas são mimadas,
em lambidelas ferozes e bafos sôfregos,
não existe realidade amarga.

há melhor do que uma língua sem boca?

in Sons Urbanos

Atitude

. 
Mirror Image, originally uploaded by siskokid 

 

“… Raramente sabemos do que somos capazes até nos depararmos com as situações …”
VIRGÍLIO, poeta latino (70-19 a. C.)

Na altura de enfrentar a situação
oxalá me seja permitido ver,
uma cabeça erguida
na face lisa do espelho
                                             reflectida.

E que a postura vista
não seja ao orgulho devida.

 

in Espelhos e Outras Faces

 

Sina


The Low Road, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

todo o percurso é um rascunho
que se executa na sensação do decorrer,
uma tentativa em exultação.

é normal o acontecer das camadas,
o renovar da tez,
no desperdício dos instantes.

só a mão cria o vazio do além,
num suspiro transpirado
que cede à sede do apelo:
irás descansar!

mas caminhamos a desejar o inverso do sentido,
num sentido que se versa aos pés.

e o véu lúgubre não é ilusão.
é a promessa do renascer.

eis porque o sonambulismo inflama a chama do que se fez!
eis porque se aguarda o paraíso!

 

JANUS (Happy New Year)

 
JANUS PATER by Yuri Firsanov, originally uploaded by mfirsanov.

 

As faces vigiam.
Tudo vêem.
Nada é desconhecido.

O conselho é proibido!
Só o acesso ao labirinto é permitido.
E o caminho?
Apenas por quem escolhe é percorrido.

Não há avisos!
Há portas que abrem,
vias que terminam
e destinos que começam.

As faces vigiam.
Tudo vêem.

Suspiram!
Depois do rumo ser conhecido.

in Deuses, Homens e o Universo

Faces watch.
Seeing all.
Nothing is unknown

Advice is forbidden!
Merely access to the maze is allowed.
And the path?
Just for those who choose.

There are no warnings!
Only doors opening,
roads ending
and fates that begin.

Faces watch.
Seeing all.

They sigh!
After the way is known.

in Gods, Men and the Universe

 

Sydney 2009 New Year Firework

Sydney 2009 New Year Firework by yury

 

Feliz Ano Novo! Happy New Year!

Vozes d’outros (26)

Le Reflet de l’Optimisme

 

“Commencer au début de la fin
S’arrêter au milieu de la main
Attendre un sens singulier
Trouver l’ultime originalité

Rien n’est vrai pendant l’été
Tout est trop beau, trop coloré
Rien n’est clair et ça fait le tour
Tout n’est que réel lors de l’amour

Finir jour après jour après temps
Lire dans le vent un mot constant
Rêver d’un concept désordonné
Susciter la dernière agrammaticalité

Mais rien n’est frais ni éclatant
Tout est trop mat, trop attristant
Rien n’est pur et ça reste pareil
Tout n’est que vécu lors du sommeil”.

 

Isabel Jorge Catarino

Passages


blue door, originally uploaded by Zé Eduardo….

 

new doors are born every day.
quiet, awaiting the fingertips grasp.

but inside us, blood is old.
only wind has permission to rejuvenate it.

the way to the darkness core is changing!
wind is time between doors
and doors must be shut.

that’s the essence of rebirth!

existence is an opening movement
that lingers in relativity.

back?
none will return.

in Substance(S)

 

Lar da Espécie


The gate of all nations, originally uploaded by Shapour_3.

Nações! Raças!

Palavras vãs e fracos credos.
Fúteis criações do homem,
promotoras de divisões,
ameaças e medos.

Brancos, amarelos,
vermelhos ou pretos,
não importa nem interessa.
Somos da mesma espécie!

E não somos daqui ou dali,
deste ou daquele.
Somos filhos da Terra
e vivemos no mesmo lar.

Antes de ser branco, amarelo, vermelho ou preto,
o homem é espécie!
Antes de ser cidadão,
o homem é homem!

E não pode ser homem ou cidadão
se continuar a desrespeitar a terra.
Porque o lar da espécie é o mundo!
Que morre, lentamente,
entre as disputas das nações e das raças.

Nations! Races!

Vain words and weak faiths.
Man’s futile creations,
promoting divisions,
threats and fears.

White, yellow,
red or black,
neither is worth or matters.
We are of the same species!

And we are not from here or there,
from this or that.
We are children of the earth
living in the same home.

Prior to being white, yellow, red or black,
Man is species!
Prior to being a citizen,
Man is man!

And he can not be a man or citizen
if it continues to disrespecting the earth.
Because the world is home of the species!

Which dies, slowly,
between disputes of nations and races.

in Letras, Palavras e Linhas: Gestos pela diferença (2005)

Agradecimentos – Diálogos, Epístolas Inertes – Lisboa

No passado domingo, apesar das circunstâncias originadas pela Cimeira da NATO, apresentei o meu último livro de poesia em Lisboa, num ambiente intimista, rodeado de amigos, meus e da poesia. Não podia pedir mais. Nem peço!
Agradeço a todos os presentes e reitero a minha gratidão ao meu editor, à Maria Azenha, cuja voz deu e dá vida aos poemas, e à Maria do Sameiro Barroso, que verdadeiramente me surpreendeu nas palavras que dedicou, a mim e ao meu livro, e que aqui, ainda emocionado, reproduzo.

Muito obrigado!

 

“DIÁLOGOS, EPÍSTOLAS INERTES”

Vicente Ferreira da Silva

PALAVRA, (DES)ENCANTO (IN)FINITO

Neste livro de poesia, o quarto de Vicente Ferreira da Silva, a palavra constitui-se a partir do próprio movimento da criação, suspensa entre cânones, símbolos, imersos na vastidão da sua génese. Respiração original, fonte e redenção fundam as suas linhas na ôntica espiral que liga o ser e o cosmo. O universo abre-se, subitamente, para celebrar o amor, o orvalho, a harmonia, a fugacidade dos seres. Entre fingimento e verdade, a procura mais íntima apreende o uno, o múltiplo, o vazio, o plural, a partir do sonho e da metáfora onde a realidade se desagrega e a matéria poética se transforma.
Os “mitos”, os “ritos”, as “mesas de café” convivem lado a lado. Topázios de luz percorrem esta escrita, balizando o eu e o infinito num quotidiano talhado entre o ser e o nada. Harmonizam-se descontinuidades, opostos. Cada civilização cria os seus deuses. Na sua ligação com o transcendente, o homem confronta-se com a esperança e com o logro. À criação dos deuses, soma-se a existência dos ídolos e dos deuses menores. É com eles que “as criaturas” devem partilhar os “pés de barro” (p. 38).
Portadora de uma mensagem lúcida e desenganada, esta poesia verte, no entanto, em si, “sangue iluminado/cantos nocturnos” (p. 39) no espaço da identidade consubstanciada no “lugar-casa” (p. 39), habitação que o amor potencia a tudo se sobrepondo na sua totalidade. Os poemas nascem de novas ondas que sempre se renovam e a infância acorre:

“A nossa infância foi aqui!
aí criamos estrelas” (p. 47).

A tradição, retomada no segundo poema do livro, remonta aos alvores das civilizações, à beira do primordial, abarcando “hieróglifos”, impressos nas “enseadas” onde:

“as nuvens são hieróglifos magnéticos
suspensos do tempo azul” (p. 15).

O diálogo não é apenas o movimento autor para o leitor, mas uma leitura entre outros tempos: “inconstante é o diálogo/entre as eras” (p. 49). Conhecer o passado? Conhecer o presente? Entender o presente, conhecendo o passado? Este é o movimento que urge porque “permanente é o desejo de criação” (p. 49). É nele que o caos, amálgama informe, cria novas harmonias, como se pode ler no poema “Vida”:

Dançam os tons das eras nos espasmos da criação.
instantes únicos,
fazem o colectivo do tempo.

nem os receios da génese se afastam.

quanta beleza há no caos?(p. 18).

No espaço do texto, o universo dita a medida das palavras, que o quotidiano estreita e onde o desencanto se afunda. Algo como o próprio tema da “morte da arte” ( Umberto Eco, A definição da Arte (La definizione dell’Arte, U. Mursia & C.,1968, 1972), tradução de José Mendes Ferreira, Edições 70, Lisboa, 2008, p. 123) parece pairar, nos paradigmas da modernidade, dos quais emergem as novas poéticas. É neste caudal, que Vicente Ferreira da Silva inscreve a sua inquietação ontológica, reinventando formas, conteúdos e normas, seguro que, tal como expressou Umberto Eco:

«Não pensamos através do corpo, mas com o corpo. A Beleza não é um pálido reflexo de um universo celeste que entevemos com esforço e realizamos imperfeitamente nas nossas obras: a Beleza é esse quê de organização formal que sabemos extrair das realidades que nos tocam dia a dia.» (Umberto Eco, A definição da Arte, p. 201).

Nesta poética, em que “todo o silêncio nos faz tempo supremo” (p. 50), a coerência institui-se no diálogo com a beleza, reconstituindo o mundo intacto e primordial dos afectos e dos seres. Tal como definiu Jean Cohen:

“O mundo poético é o mundo humano e a poesia é o mundo que o descreve na sua verdade.” [Jean Cohen, A Plenitude da linguagem (Teoria da poeticidade) (le Haut Langage: theorie de la Poeticite) Coimbra, Almedina, 1987, p. 157].

Na inquietação que Vicente Ferreira da Silva revela na sua poesia:

“as cartas escrevem-se em letras transparentes
e reescrevem-se permanentemente” (p. 52).

O processo criativo é formulado com toda a dor e angústia que subjaz aos processos naturais de crescimento, patente no poema “palavras-lágrima” (p. 57). Na realidade:

“ninguém sabe por que se medem as distâncias da separação
ou porque choram os diamantes pelo tempo de carvão” (p. 66).

Consciente dos limites do homem, mas desperto também para outros níveis da realidade que a poesia desperta, no que Paul Valéry caracterizou como o estado poético (Paul Valéry, Discurso sobre a Estética, Poesia e Pensamento Abstracto, tradução Pedro Schachtt Pereira, Lisboa: Vega, 1995. p. 63), com os quais a escrita se estabelece como uma ponte ou uma continuidade:

“a morte é um ciclo que se desenrola em simultâneo vigor.
apenas o som é diferente do fulgor da vida. (p. 75).

Segundo Emmanuel Lévinas: “O tempo não é a limitação do ser, mas a sua relação com o infinito. A morte não é aniquilação, mas questão necessária para que esta relação com o infinito se produza.” (Emmanuel Lévinas, Deus, a Morte e o Tempo (Dieu, la Morte t le Temps), tradução e nota de apresentação Fernanda Bernardo, advertência e posfácio Jacques Rolland, Coimbra: Almedina, p. 45.).
Por isso, às “cinzas. cinzas sem Fénix” do poema que abre o livro “Cânones”(p. 13) que remetem para o desencanto da realidade do quotidiano, vão-se sobrepondo:

“estrelas que tombam,
rasgam a noite
como Fénix prometidas.” (p. 47).

Pela mediação poética, segundo Paul Valéry: “O poema não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer das cinzas e para infinitamente se tornar naquilo que sempre terá sido.” (Paul Valéry, Discurso sobre a Estética, Poesia e Pensamento Abstracto, p. 79).
Nas suas potencialidades, a poesia transfigura e transforma, tal como expressa Vicente Ferreira da Silva, enunciando o eixo sobre o qual se desenrola toda a criação:

“toda a pedra se abre!
dela irrompe a metamorfose do ouro (p. 61).

Na formulação de espaços sucessivos, o poema transcende o endo-espaço do eu poético, dilatando-se numa sucessão infinita. Ao poema “Morte” (p. 79), segue-se o último poema do livro “Peregrinação” (p. 80).
Para Emmanuel Lévinas: “A morte não é então o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta.” (Emmanuel Lévinas, Deus, a Morte e o Tempo, p. 70)
E Vicente Ferreira da Silva interroga: “É verdade que o arpão das trevas é complacente?” (p. 79).

Maria do Sameiro Barroso

Vicente Ferreira da Silva
“Diálogos, Epístolas Inertes”
Edium Editores, 83 páginas.

Pensamentos


Shower of stars…, originally uploaded by smile-ik.

 

Aqui escrevo
e os pensamentos liberto.

Em vão!
No papel branco
não resistem.

Persistem,
nesta imensidão,
frágeis e difusos.

Sem nenhum rumo,
orientam-se.
Sem qualquer prumo,
sustentam-se.

Subsistem,
porque originados na mente.
Transpostos,
permanecem incorpóreos
no rasto das utopias.

Tudo é incerto.
E eles são,
no vazio,
fátuos.

No entanto,
transmitem
uma sensação de beleza.
Ágeis,
mistificam-nos!
Confusos,
identificam-nos!

Assim …

Traços!
Soltos!
Na mais plena incerteza.

 

in Espelhos e outras Faces

Membranas

Membrane

metamorfoses inconstantes evoluem nas (r)evoluções
das maçãs. pobre Newton! no caminho do ínfimo, a
mecânica produziu incerteza. nenhuma esfera de vidro
resistiu! só há inércia nos estilhaços de rubis translúcidos.

o retorno apenas é possível pela alquimia dos sentidos,
pela busca do elo dos multi-Versos interiores. quais
cascatas verdes? sustenta-te nas terras das águas azuis.
não te esqueças que as estrelas são corpetes de jóias lilases.

animal político? por isso não existe lei sem paixão! já
tentaste Estagira? fazes bem! de qualquer maneira não
é inteiramente redutor. pensa na alternativa, a Cidade
do Sol, e reparte-te no espírito da entidade cósmica.

qual a velocidade para se viajar entre galáxias? simples.
terá que ser geometricamente proporcional à distancia a
percorrer. no entanto, nada se afasta. é o espaço que se
expande! e aí chegarás ao pensamento do coração branco.

vês agora porque sigo golfinhos às quintas e as nebulosas
laranjas pela manhã? são a chave para a vibração pulsante
nos perfumes dos oceanos astrais. ou física em poeiras! no
acelerador de probabilidades internas dum orbe carecido.

que hei-de fazer? gosto de gatos siameses! principalmente,
em buracos de par nove. são mais resistentes. e meigos.

mas nunca abandonarei o imaginário vivo dos teus verbos.

 

in Interlúdios da Certeza

Subtilezas


Imagine…, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

formações incompletas
e outras maravilhas,
subtilezas pequeníssimas,
entregam-se ao soalheiro do vento desconhecido.
unem-se para viajar ao uno!

só o impuro será puro!
em ervas altas e savanas douradas.
depois do amadurecer prateado,
em luas suspensas ou em fios purificados,
pela peregrinação no florescer da vida.

há entidades soltas,
auto-criadas em si
e constantes na omnipresença.
há veias inspiradoras,
simples elos que fazem o verde.
só assim se multiplicam os camaleões da natureza.
e são tantos! distintos.
com cores em tempos diferentes.

na neve a brancura é imaculada.
nada a invade. até o calor é devolvido,
depois de arrefecido em névoas intactas,
num beijo rejuvenescido,
profundamente sentido,
numa etapa que se refaz em amor,
pois tudo tem um papel determinado.

manifestações traduzidas em plural,
as subtilezas pequeníssimas são imensas!
todo o conjunto é singular.
e conjugável!
em si e entre si,
para que a diversidade se suceda.
assim,
não há mundo. há mundos!
não há vidas. há vida!

e o inverso também se verifica.
o todo é um ciclo evolutivo.
de vida e morte. de continua existência.
a que qualquer entidade se submete e se renova.
e acontecem minutos para a morte
como já anteriormente os houve em ser.

as lembranças permanecem o condão.
aguardando o reencontro com o espírito
no confronto da pressão e do tempo.
vislumbra-se aí o quão profunda é a eternidade.
e nada está fechado,
pois quando o corpo sucumbir abrir-se-á ao pleno
e será subtil e pequeno.
como deve ser! para ser em luz, em beleza, em pureza

por isso,
as ondas vibratórias na harmonia do cosmos
são subtilezas pequeníssimas.
permanentes demonstrações de louvor.
percebe-se que o princípio criador do todo é a desigualdade.
nenhuma vida é igual!
logo, qualquer uma é especial.

e o amor é o elo vital que nos une
no respeito por outras vidas.
e o amor que temos por algumas é superior.

sem vida não há amor e sem amor não há respeito à vida.

ser! amor! vida!
pela expressão de pequenas subtilezas.

 

in Diálogos, Epístolas Inertes

Vozes d’outros (24)

Café do Molhe

“Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.”

Manuel António Pina

Renascimento – 13º Jogo das palavras


Deep blue, originally uploaded by futhark.

 

tudo o que desejamos é COMUNGAR no IMENSO,

sentir o vento AVASSALADOR do querer,
impedir que alguma vez a alma seja AMORTECIDA.

ah! mas o suceder é um caminho imperioso.

na vida há sempre um FAROL ERODIDO,
um DISTANCIAMENTO do sonho,
uma TEMPESTADE de incertezas.

todavia, o horizonte deve ser alcançado.

entrega-te ao MAR e ao CÉU!
sê na FUSÃO do AZUL,

e serás no campo de estrelas cadentes do Ser.

 

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