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Vozes d’outros (35)

“Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.”

Rui Costa (1972-2012)
a nuvem prateada das pessoas graves

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Sensualidade

MMiana1

Podeis falar-me de deusas.
Mas, somente recordarei a beleza Humana!

You may tell me of goddesses.
But, I’ll only remember Human beauty!

 

 


Dobrei a esquina – em dia de aniversário


VFS_6809b&w, originally uploaded by vfsphotos.

.

Dobrei a esquina.
Apesar de consciente da etapa, uma inconsciência serena fez-me durante o dia,
onde o tempo não decorreu. Sentiu-se!
E os afetos perfumaram as horas, criando uma poderosa espiral de carinho.

Dobrei a esquina.
A falsidade foi-se, deixando a sombra da recordação.
Não há que questionar. A diferença é fundamental ao esclarecimento.

Dobrei a esquina,
grato pelo desconhecimento do futuro.
Se sei o que é o amor?
Não!
O Amor não se sabe.
Presente-se, sente-se ou vive-se.
Só assim o fragmento é elo do todo e qualquer rasgar dá lágrimas.

E as lágrimas são o néctar do presente,
intemporal.

Dobrei a esquina.
E encontrei-te!


Vozes d’outros (34)

“Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.”

Maria do Rosário Pedreira


Escrevo

escrevo ampp

 

escrevo.
escrevo as linhas do silêncio.
mas os pulsos estão secos, ressequidos pelo desejo da pauta de outrora.
o amor caiu e só o corpo é confissão aberta, em relativa existência,
almejando o ardor da sombra que consome os resquícios da memória.

terrena?
terrena é a realidade dos braços, a fronteira que previne a tentação do preto,
repensando o vestir do hábito.
já terna é a orla das faúlhas, o percurso da chama na pele,
rastilho das ilusões.

escrevo.
escrevo o reconhecimento da melodia, os poros que rasgam as notas.
mas as bocas são horas infecundas de limites que vergam a ausência da esperança.
já ninguém semeia ou colhe as brisas vespertinas.

e eu escrevo.
escrevo o trilho do pó, as cinzas dos lábios.

in Antologia da Moderna Poética Portuguesa (página 281)


E Eu Sonho!


LOVE IS….., originally uploaded by jade2k.

 

nem sendo rasgada a impossibilidade esmaece.
apesar da ilusão da condição humana,
sonhar é um imperativo.

e eu sonho!
sonho porque já vivi,
já senti,
já beijei um sonho.

não importam as esquinas
nem as montanhas do céu.
jamais serás uma brisa
jamais serás esquecimento.

quanto a mim?
entrego-me às vagas do poente.
sim, do poente!
para retornar às raizes do tempo,
para obter a clemência do coração.

haverá, porém, caminhos sem obstáculos?
ou algo que ninguém observa?
existe um quarto sem janelas onde impera a tentação da fantasia.
mas não desejo universos contidos.
aceito a liberdade da existência.

repito. sonhar é um imperativo!

é assim que no sentir da esperança
ouso uma frágil prece

e persisto no Teu sonho.

 

in √81 = IX ?


Cumes


VFS_4794b&w, originally uploaded by vfsphotos.

armo os olhos contra o destino,

consciente do impacto da transferência e da impotência do meu horizonte,
mero epígrafe pré-histórico,
que ousa o fragmento da lembrança.
as marés movem-se para oriente,
velando pelo ardor dos sentidos, silenciosos,
que se sonham ressuscitação.

porém, murchar é a condição da expressão.

ainda acontece o auge matinal?


Arestas

Véu da Noiva, originally uploaded by Waldyr Neto.
.

enquanto os pilares da vigilia libertam as amarras do véu
precipita-se a morte em leito rosa
sinalizando os naufragos do amor recusado,
remetido para o confinar interior que alimenta as chamas densas da noite

esporos transfiguram-se agulhas metálicas
aquecendo as migalhas da ilusão como um veludo jamais sentido,
mas perversamente possuído nos artificios mentais do desejo.

na mente executa-se a raiz da agressividade
que as côdeas secas da tentação vestem como vitamina da cútis descamada
e no coração opta-se pela decisão.

eis a exposição visual do âmago
– comunhão parcialmente partilhada –
nos vestidos que desnudam os seios:
é na parte invisível das auréolas
que se fixam os máximos do olhar moribundo.

arestas impossíveis de laminar?
efectivamente acontecem!

in Dias nocturnos


Vozes d’outros (33)

“I YEARS had been from home,
And now, before the door,
I dared not open, lest a face
I never saw before

Stare vacant into mine
And ask my business there.
My business,—just a life I left,
Was such still dwelling there?

I fumbled at my nerve,
I scanned the windows near;
The silence like an ocean rolled,
And broke against my ear.

I laughed a wooden laugh
That I could fear a door,
Who danger and the dead had faced,
But never quaked before.

I fitted to the latch
My hand, with trembling care,
Lest back the awful door should spring,
And leave me standing there.

I moved my fingers off
As cautiously as glass,
And held my ears, and like a thief
Fled gasping from the house.”

Emily Dickinson (1830–86)


espelho


VIC_2104, originally uploaded by vfsphotos.

 

nasci velho.
toda a vida recordei.

ainda o faço.

mas jamais tive a ilusão do chão ser imóvel!

 


Vozes d’outros (32)

Há Palavras que Nos Beijam

“Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.”

Alexandre O’Neill (1924-1986)


Vozes d’outros (31)

Aprender com as palavras a substância mais nocturna

 

“Aprender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a própria sede
talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria.”

 

António Ramos Rosa in O livro da ignorância


Suicidam-se as aves?


DSC_2528, originally uploaded by vfsphotos.

 

suicidam-se as aves?

ou procuram a navegação no passado?

algumas entregam-se ao despojo das cinzas,
num mitológico retrato do futuro,
que eleva o exemplo ao inalcançável.

mas, suicidam-se as aves?

 

porque não voamos?


Vozes d’outros (30)

Dá-me de beber …

 

“Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens… que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.”

 

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)


verbo azul

Manuela Salema – Livro plantado – 2007

 

uma pena solta.
um ramo suspenso.
uma página aberta ao futuro.

Deusa do jardim das safiras,
levitas no lago etéreo do desejo,
na amalgama das eras,
entre as encostas do meu peito
e mares em índigos sonhados.

floresce uma rosa, qual semente no coração.

marcas do tempo subsistem,

mas o Verbo da criação
é o livro azul da origem,

onde somos In-finito!


Dia da Mãe / Mother’s Day


IMG_4104, originally uploaded by vfswa.

 

Num segundo,
um som,
uma anunciação:
choras!
e existes para o mundo.

Ao ver-te,
com ternura, recebe-te
e no silêncio duma prece,
[a Deus] agradece.

Mãe!
Num momento de dor
gera
a vida com amor.

Mãe!
Haverá alguma sensação
que ofereça maior protecção?

 

In a second,
one sound,
an announcement:
one cry!
life borns into the world.

Seeing you,
with tenderness, welcomes you
and in a silent prayer,
[God] thanks.

Mother!
in a moment of pain
generates
life with love.

Mother!
Is there some sensation
that offers greater protection?


Vozes d’outros (29)

Subtileza

 

“quão subtil pode ser o espinho que sinto cravar-me os olhos,
a indelicadeza de uma não palavra no teu poema desesperado,
o pôr-do-sol derramado no longe a que te votas.
a subtileza é um gesto demorado,
como câmara lenta de uma imagem que nasce no centro das mãos,
estames que inspiram olfactos de terra,
ínfimas pétalas que se sobrepõem numa disputa da tua mirada.
mas não sou eu que me ofereço, são elas!
eu, serei subtil como o silêncio interior dos teus pensamentos
que te rondam nos segundos vagos
e te ocupam o desejo.”

 

Luísa Azevedo


Dia do Pai / Father’s Day


Father& Son, originally uploaded by Christolakis.

 

Não sei
porque me é difícil
mostrar
o quanto és
para mim,
no meu coração.

Não sei
porque é tão difícil
construir,
as pontes que permitam
reforçar,
a nossa união.

Pensei
que as divergências
fossem
simples de ultrapassar,
apenas,
próprias
do conflito da geração.

Só sei
que
sem ti nada seria,
contigo,
tudo sou.

I don’t know
why it’s so hard,
show
how much you’re
in my heart.

I don’t know
why is so difficult,
build,
bridges that allow
the strengthening
of our union.

I thought
that the divergences
were
simple to overcome,
mainly,
due
to the conflit of generations.

I just know
that
without you I’m nothing.
With you,
I’m everything.

 


Revestimento


music, originally uploaded by re:nay.

 

no retiro das semibreves,
sou banhado pelos raios de luz
que serpenteiam as savanas roxas.

onde o verbo inexprimível
é visão concretizada
no palpável das espirais da aura.

tudo conflui na melodia
dos sentidos cardeais
e dos interstícios das partituras vazias.

a coesão das partículas estremece
e a rapidez dos electrões adormece.

fractais e outras ondas
constituem-se renovadas.

e expurgam-se as falências humanas,
essas pequenas imanências
que estruturam o âmbito celeste.

 

in Interlúdios da Certeza


Vozes d’outros (28)

If

“If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
…Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream–and not make dreams your master,
If you can think–and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings–nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And–which is more–you’ll be a Man, my son!”

Rudyard Kipling – 1865-1936


Vozes d’outros (27)

Com cinco letras apenas

 

“entre doces
avelaneiras
sob os açafroados
cálices do fruto
um pequeno acanto
disposto
do fundo da alma
a tantos sacrifícios
como os do salmão
da sabedoria
que
engoliu as nove avelãs
mágicas
como dizem os entendidos
e se tornou o aliado
dos adivinhos
a sua vibração
tão aguda e eléctrica
que traz consigo
a mais criativas das inspirações
essa é a planta da sabedoria
e Leucípe
leva-a consigo
quando procurou o pai e a irmã
e os encontrou
segundo as instruções
do oráculo
ou seja
vestida de sacerdote
e assim
foi vista e amada
e daí nasceu a trama
o prodígio
para que mais uma vez
o mundo continuasse
igual a si mesmo
apenas
um pouco mais gasto e tonto
não canto.”

 

Alberto Pimenta in Prodigioso Acanto


Vozes d’outros (26)

Le Reflet de l’Optimisme

 

“Commencer au début de la fin
S’arrêter au milieu de la main
Attendre un sens singulier
Trouver l’ultime originalité

Rien n’est vrai pendant l’été
Tout est trop beau, trop coloré
Rien n’est clair et ça fait le tour
Tout n’est que réel lors de l’amour

Finir jour après jour après temps
Lire dans le vent un mot constant
Rêver d’un concept désordonné
Susciter la dernière agrammaticalité

Mais rien n’est frais ni éclatant
Tout est trop mat, trop attristant
Rien n’est pur et ça reste pareil
Tout n’est que vécu lors du sommeil”.

 

Isabel Jorge Catarino


Vozes d’outros (25)

 

“chove

para esconder
os pássaros

e recolher
as crianças”

 

Mariana Botelho


Vozes d’outros (24)

Café do Molhe

“Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.”

Manuel António Pina


Vozes d’outros (23)

Meu eu edipiano

 

“A luz que me inspira
é a mesma que
me embaça a visão.
O olhar edipiano
refletor,
encontra na cegueira
a luz interior

Única e verdadeira.
Quando os olhos não são a luz da alma
a alma ilumina a luz do opaco olhar.”

Mirze Sousa


Parque Samburu, Quénia

Samburu, Quénia 2001, originally uploaded by vfswa.

 

Num misto dourado, púrpura e lilás,
as estepes são!
E as savanas,
nuas e cruas,
são os portões da natureza.
Onde o alcance permitido,
vastíssimo,
preenche o universo dum coração desprevenido
pela súbita comunhão com a própria vida,
no regresso ao berço da existência.

Num misto dourado, púrpura e lilás,
as cores e os odores
inflamam a paixão do querer
e a vontade de ser uno,
na origem do tempo e da criação.

Num misto dourado, púrpura e lilás,
despercebidos,
os horizontes entrelaçam-se.

E neles somos submergidos,
num misto dourado, púrpura e lilás.

 

in Geografia e outras Circunstâncias

 


Vozes d’outros (22)

 

V

“Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime – espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: – E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.”

Herberto Hélder – Poesia Toda

 


Dia de Aniversário!

 
shower of light, originally uploaded by Dan65.

.

Hoje é ponto de passagem,
entre o vir e ir que se sucede.
É dia de festejar!

Relembro o passado.
E neste escrito presente
ouso pensar no futuro.
Será que alguém saberá?
Será que algum dia importará?

Para o caso do acaso ocorrer,
aqui vai o que vai acontecer:

Estou consciente que serei
quando já não for.
Breves momentos terei.
Meros instantes de torpor.

A escrita deu som ao meu grito
neste mundo de paredes
que, persistentemente, não escutaram.

Desbravei paisagens na tinta
derramada inconscientemente.
Tristeza? Nenhuma. Nem pinta!

Avivar folhas era o meu rito.
Era como um tecer redes.
Infelizmente, pouco alcançaram!

No entanto, este verbo não foi ilusão.
Era tudo. Plena concretização!
Foi o descrever das visões
deste universo de sensações.

Fica por aqui esta mensagem.
Hoje é dia de aniversário.
Assinalado no calendário!

Os chuveiros de luz aguardam.
Balançam serenamente entre os espaços
que fazem as folhas e os ramos.

Vou tomar banho!
É assim que quero celebrar.

in Interlúdios da Certeza


No Corpo de Gaia

circled, originally uploaded by hkvam.

 

desejos latentes no etéreo
abrem-se paradoxalmente ao templo que se encerra.
as pálpebras das estrelas permitem brilho
às fendas escuras do horizonte,
sinalizando o trilho para o destino das almas.

há algo triste na tarde que se entrega,
mas toda a energia é panorâmica
e deixa um leque de sangue nas vestes amarelas.
nem o vento que arrefece as savanas
afronta essa dádiva onde pulsa carne divina.

espíritos animam os seios de Gaia
podando as auréolas dos cumes sagrados.
e chamas são erigidas nos altares,
louvando o corpo que soçobra em choque.

no limite da exaustão,
as danças produzem melancolias piroclásticas
que envolvem os membros despidos,
invocam sete palmos de água descendente,
refrescando os fragmentos ígneos da raiz da terra.

o movimento da miriápode celebração
igualmente avoca a presença dos druidas.
diversas fracturas são infligidas no Ânima.
e a ara fixa-se no pulmão da sutura,
velando pelo oxigenar das sementes de fogo:
quando o novo amanhecer acontecer,
aqui reflorirá o cântico do equinócio.

tenro é o período das ondas de renovação
mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser.
e o corpo desenterra-se da erosão imemorial do tempo,
anunciando o aligeirar do afélio interior.
vagarosamente, a trindade cêntrica estremece
despertando o poder da potencialidade absurda:
Energia, Espírito e Alma vibram para a plenitude.

ocorrem avisos anamórficos da auto-regulação
cuja amplitude devia chegar aos inquilinos desrespeitadores.
mas a atitude hodierna prevalece intocável
e não há consideração pelo que nos foi oferecido.

num provir isócrono que se gera por si só,
reavivados sussurros soltam o teleológico antigo
demonstrando a existência da ecosfera primária.

soam as horas atrozes do crepúsculo púrpura!
o tronco materno ruge sereno:
as águas sobem e os ventos ventam estranhamente,
desfraldando as abas do éter interior da cosmogonia holística.

o ente imenso recria-se para sobreviver ao impacto humano
e convulsões orgânicas surgem abruptamente desta cisão.
mas a semente da luz aguarda no ventre da Mãe terra.
uma nova dignidade emergirá e novas mãos a seguirão

nova era de esperança no respeito da lembrança.
em união omnisciente, no corpo de Gaia.


Cadências


Under a Pink Sky, originally uploaded by idashum (away).

 

o crepúsculo liberta as almas selvagens
como se o leito das amazonas sobrevivesse sem magnólias leves
ou se a recordação das lavadeiras da aldeia branca
dependesse dos sonhos das mulheres modernas.

o som dos lenços desdobrados faz as crinas densas do entardecer.
nesse manto despontam estrelas novas,
abertas ao momento do firmamento.

o céu que se eleva no horizonte
é o berço das águas sagradas em desfolhar.
e os dias são amplos membros em origem
que abrem os véus do tempo ao sangue das valquírias.

com as faces protegidas em armaduras,
as almas alimentam os estandartes escarlates
que afogam a expressão dos rostos.
e ninguém percebe as lágrimas da saudade,
fonte dos verões estivais e dos buracos negros
onde se projectam os símbolos do futuro.

o mutismo dos sinais propicia enredos em discórdia.
genuinamente, faz-se o sangramento das palavras
dificultando os sons das velhas alianças.
as bocas estão secas ao reconhecimento
quando o clamor dos corpos abafa os moderados.

eis que a logística do confronto torna as palavras incompletas
desunindo o amor pela natureza oposta,
sufocando os lábios dos sorrisos no ardor ao cumprimento entre iguais.

letras são fragmentos, parcelas das conversas
que outrora preencheram o convívio nas lajes da aldeia.
agora, outras deusas vigoram!
ufano, o sacerdote preenche o púlpito em júbilo:
– preparai as engrenagens das mecanizações hostis.

o culto da flebotomia inflamou os espíritos à loucura
e a exaustão da cegueira foi integral,
alastrando às investidas gretas na terra,
derramando o pulsar interior no vão da desumanidade.

assim adveio a época do rio de púrpura,
pleno de linfa viscosa,
onde naus são carruagens e as margens coral petrificado:
jaz aí a tolerância e a harmonia do paraíso.

mas o totem da energia primordial tem raízes no tempo.

ciente dos espasmos destrutivos,
o sábio plantou palavras em terra tenra,
num ângulo obliquamente pronunciado,
para que as magnólias surgissem num leque de lágrimas rejuvenescidas.

o tempo decorre na companhia da acção humana.

a redenção é uma semente escondida numa flor de música.
tal como é ténue a cadência da aragem,
a harmonia é uma brisa esquecida.

que permanece no raiar do jardim da esperança!


Vozes d’outros (21)

Invictus

“Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”

William Ernest Henley (1849 – 1902)


Vozes d’outros (20)

 

“esculpo a sede: nenhum desígnio será a falência de um astro.
a vertebrar uma rosa tardia sob o corpo
há a distância inconfidente
desde o princípio do espanto
ao arquejo final de uma ave no país das chuvas.
há quem me diga que nascemos fora dos sonhos
e toda a largura do corpo
é o vazio integral onde nenhuma estrela pousa.
digo-lhes que ao corpo de uma lua
reserva-se a projecção das árvores e a multiplicação da luz.
o tempo
é uma fronteira improvável para deter as águas.
haverá sempre uma seiva de maré inconsentida
a redimir a sede: uma fonte nascendo
na jugular do silêncio.”

Luísa Henriques


Vozes d’outros (19)

Génesis

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça … – Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade… Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena (1919-1978)


Vozes d’outros (18)

SOMBRAS DE SILÍCIO

 

“{comecemos por aqui}: a mesma sombra
esteve por baixo de muitos corpos, de suas
águas e urgências, algumas primitivas, que num
ápice atravessaram o subterrâneo
de todo o tempo. {e depois, porventura, alguém dirá}:
o mesmo sexo não produz o mesmo filho, bem
como a mesma frase não gera o mesmo amor.
e então talvez haja necessidade de falar por escrito,
dentre as sombras de carolinas a florir,
e escrever por exemplo isto:
não sei em que sombra te foste probabilizar. continuo
sentada sobre a memória náufraga e hirsuta
que ainda constrói
lugares distantes com aves de silício,
com corpos sem corpos que
afinal são arte, e sensações que partem
do seu epicentro
à procura de uma distância onde se possam medir.”

Sylvia Beirute


Vozes d’outros (17)

sem nexo

“dos ébrios diálogos sem nexo
farei matéria-prima
para que não se oprima a minha sintaxe
ao ferro frio do que é aceito nos salões da elite
nos requerimentos e decretos
nos livros acadêmicos

terei talvez que me livrar da biblioteca
investir o tempo nos botecos
nos mercados populares
nos bancos das praças
nos braços das putas
no psy trance, no funk, no rap hip hop

ôôôôôôôôôôô

neste ponto o poema se interrompe
não ainda para configurar a ruptura
mas para evitar um final insosso
tentemos, então, uma feijoada
ou algo de igual sustança e alento
tentemos um copo de cachaça
uma roda de samba no morro
mas o final interrompido volta à tona
tal bosta que não tolera o fundo da latrina:

se eu sumir, não der notícia,
não me procurem
terei encontrado
mais que a sintaxe das ruas
as balas perdidas da policia
uma maca infecta no corredor do pronto-socorro
um empolgante tiroteio entre milícias
um traficante transtornado vestido de rambo
um rabo-de-saia que me armou uma cilada

ôôôôôôôôôôôô

três nós de dedos na madeira
toc-toc-toc
isola

é melhor não correr riscos
conformar-me à minha sintaxe oprimida
pedir outra dose de uísque on-the-rocks
ouvir uma valsa vienense
vestir um fraque alugado
ir a paris afundar no crediário
hipotecar a casa o gato o futuro
emitir três talões de cheques sem fundos
comer salada de chuchu tomate e alface
nem um grama de gordura
abaixo a picanha, o torresmo, o miolo de alcatra
olhe o seu colesterol

ôôôôôôôôôôôô

três nós de dedos na madeira
toc-toc-toc
isola

a vida não tem nexo, meu chapa

este poema…
ôôôôôôôôôôôô
é melhor não correr riscos.”

Fred Matos


Vozes d’outros (16)

i carry your heart with me

“i carry your heart with me (i carry it in my heart)
i am never without it (anywhere i go you go, my dear;
and whatever is done by only me is your doing, my darling).

i fear no fate (for you are my fate, my sweet)
i want no world (for beautiful you are my world, my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you.

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart.

i carry your heart (i carry it in my heart).”

e.e. cummings


Substância (para Jackson Pollock)

 

a face de Deus!
ou corpos que se enrolam no chamar.

leves jóias nos pincéis.
reimpressões dispersas em mel,
crinas amarelas nos corcéis.

desintegro-me na densidade do pleno.
qual breve instante consubstanciado,
no tempo atroz das dúvidas persistentes.

e contemplo a dança viva da cores
na magnitude da desordem criada.

sou submisso do prazer!
no encantamento das flautas douradas.

Shimmering Substance,
liberdade reunida em essência.

*** *** *** *** ***

the face of God!
or bodies that roll in summon.

concise jewels in the brushes.
dispersed reprintings in honey.
yellow locks in the steeds.

I disintegrate myself in the density of the whole.
as a brief consubstantiate instant,
in the atrocious time of the persistent doubts.

and I contemplate the living dance of the colors
in the magnitude of the created chaos.

I am a servant of pleasure!
in the charm of the golden flutes.

Shimmering Substance,
freedom congregated in essence.

 

in Odes & Homenagens


Vozes d’outros (14)

A CONCHA

 “A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.”

VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)


Chamas Transparentes (para Herberto Hélder)

Herberto helder

(1930-2015)

falas de mulheres. de faces rosadas.

de mães e de gotas de água. de

batentes em semblantes sem tempo.

de fios umbilicais e de amor.

somente! sem nada por dentro.

 

falas de naturezas intrínsecas e

de imagens que alimentam. o informe!

de coisas mais altas. de pálpebras que

levitam em escafandros interiores. de

poços de petróleo invasores.

 

falas de orvalhos em flechas.

de pêlos sedosos e de ervas abertas. de

morte em pétalas puras. extasiadas.

de espinhos em cantos frios.

distantes e sozinhos. ou mudos!

 

falas de lembrança. em tudo!

de carne feroz em cítaras descidas. de

folhas inspiradoras como páginas brancas.

em estios enormes. recuados. inteiros.

em superlativos antigos.

 

falas de ausências deslocadas. de

sumptuosos vestidos em bailes sonhados.

de danças sem partitura. de breves

infâncias e titânicas investiduras.

de limalhas em artérias. absortas!

 

falas de pedregulhos púrpura. de

trevas escorregadias em idades sufocadas.

de uns tantos vivos em léxico. desnudos!

ao largo da fronteira da inspiração oca

curta. em luz de estações fluviais.

 

falas de meteoros.

(são belos os espasmos da criação!)

e também de cometas.

(são arados! que tratam do campo de estrelas.

resquícios do caos primordial, onde

apenas se manifesta autêntica liberdade).

 

falas de actos absolutos. mas

não existe absoluto. só evolução!

 

e falas de teorias.

todas o são. sem dúvida!

 

porém, a verdade é esta:

o universo nasceu para sucumbir!

toda a energia se esgota.

toda a vida deixa de o ser.

o milagre é a multiplicação das formas.

enquanto é. ou for. pois outra das certezas é

que o tempo não é humano.

só aqui reside a dádiva dos desígnios. maiores!

 

e no cânone?

apenas chamas transparentes.

realmente, a faca não corta o fogo.

só a mão que a empunha o faz!

 

eu?

falo-te dum simples abraço.

in Odes & Homenagens


Razão de Ser

 

As palavras aparecem
por si e em si.

Inatas!
Desprendidas!
Intactas!

Por elas, sei
o que a minha alma quer,
o que a minha alma me diz.

Sou!
Sim, eu sou.

Nas palavras!

 

in Espelhos e Outras Faces


Não digo nada! (para Fernando Pessoa)

Não digo nada!
Sigo o teu conselho.

Ouso-me.
E deleito-me,
no aconchego das palavras [mudas],
num encantamento que me embala …
                                                                      … e preenche.

Que nos faz unos
– em tudo e nada –
aos momentos já vividos
e aos ainda não tidos.

Não disse nada

E se algo perdi,
que de todo desconheço,
                                                tudo senti.

Na fluidez do nada também fui.

E o som da jornada emudeço!

 

in Odes e Homenagens


Desafio

Foi-me pedido para seleccionar a quinta frase completa do livro que estivesse a ler.

“Mao used the party press in July to lambaste the American ambassador and thereby to awaken sympathetic Americans to the danger of Patrick Hurley’s reactionary line and to arrest any shift in American policy toward strong support of Chiang Kai-shek.”

The Genesis of Chinese Comunist Foreign Policy – Michael H. Hume

Este é o livro que estou actualmente a ler. Como não é «literário» (obrigações do doutoramento), acrescento uma segunda frase, esta já dentro da área que nos une.

“(…) Each day I begged them to talk with me, since I had come such a long way.”

Selected Poems – Rumi

Passo o desafio a todos aqueles que gostam de partilhar as leituras que fazem.


Vozes d’outros (13)

I HAVE SUCH A TEACHER

“Last night my teacher thaught me the lesson of poverty,
having nothing and wanting nothing.

I am a naked man standing inside a mine of rubies,
clothed in red silk.
I absorb the shining and now I see the ocean,
bilions of simultaneous motions
moving in me.
A circle of lovely, quiet people
becomes de ring on my finger.

Then the wind and thunder of rain on the way.
I have such a teacher.”

 

RUMI (1207-1273)


Fontes

Cascades, originally uploaded by vfswa.

 

Estados diferentes,
conjuntamente.

Gotas desejadas,
origens ressurgidas,
futuro presente.

A distinção faz-nos indivisos …

Formas improváveis.
Multiplicidades.

Organismos.

… Fontes.


Vozes d’outros (12)

BEM AVENTURADOS

 “Honra, certeza, pureza…? tirem-me daqui os andores!
Navegar, neste oceano, ungida de falsas esperanças,
Só planta neste peito o pranto sangue dos horrores
De ser gente, e não enaltecer as humanas tranças.

De que vale andar sobre bolhas de santas andanças?
Secar suor da face ingênua em meio aos clamores?
Se o coração trota ausente das mudanças
Que tanto carece o vasto palco de amores [?].

Por isso, em verdade, vos digo: bem aventurados
Os que aliam o exterior ao interior, em busca da possibilidade
De ser alma e coração, sem o andor da santidade.

Os que procriam o horror à divina verdade, bem aventurados!
Os que dão largas braçadas ansiando a naturalidade
De ser alma e coração em busca d’ Almanidade?
Bem aventurados!

Esses farão, um Reino, da Terra.
Deles será o Reino das Terras.”

 Gauche


Vozes d’outros (11)

SIMULACRO

“Sinto-me inteiramente tua
(como poderia não sentir!?)

Sinto a lasciva que fulguras
Simulacro frágil de esculpir.

Sinto ensandecer-me: palavra tua!
Imensidão dèjá vu.

Sinto-me à tinta-mão fartura:

tinteiro
negro
cheio
cheiro

rosa, framboesa, carmim

jamais vu!…”

Hercília Fernandes


Poetas do Silêncio

Sao Pedro 1137

 

Uns, são mudos.
Outros, não são ouvidos.
Alguns, duns, certamente o serão.
Outros, doutros, possivelmente não.

Há os que tudo falam e nada dizem
e há os que tudo dizem e nada falam.
Pelo menos, enquanto vivos.
Porque mortos, tudo falaram, tudo disseram.

Também sou Poeta!
Não Pessoa. Fernando!
Vivo, nem sequer sou esquecido
porque não sou conhecido.

Também sou Pessoa!
Não Fernando. Poeta!
Mas continuo desconhecido.

No entanto, eu escrevo.
porque nas minhas veias escorre o canto
que liberta as lágrimas da minha pena
e sufoca os soluços do meu coração.

Sou um dos poetas do silêncio!

E em sossego,
esmaeço no esquecimento
pleno de conhecimento

in Espelhos e Outras Faces


Ciclos

Há alturas
em que me sinto
perfeitamente
rendido,
inteiramente
submetido,
à sorte do sabor provocado
pelo constante ondular
das folhas soltas das árvores.

Que se encontram vivas,
livres,
nos ventos do presente Outono, a flutuar.

Folhas,
que se descobrem renascidas,
exultadas,
e outra vez desprendidas,
na Primavera
de futuras brisas.

in Geografia e Outras Circunstâncias

 

Spring leaves, originally uploaded by Stas Porter.

Anacreonte

[Pura genialidade!
Infelizmente incompleta.]

Não nos deixou um todo.
Apenas fragmentos.

– talvez influência de Eros –

Afinal,
o amor é um contínuo transitório.

in Deuses, Homens e o Universo


Entrega

Ao sabor do vento deixo-me ir.

Sem destino.
Sem saber.

Ao sabor!

Para o aroma do mundo descobrir.

in Geografia e outras Circunstâncias