Conto(s)

Diário de Viagem e do Regresso:
Verão de 2005
As Formigas do Monte Branco e as Bisontas da Lua.

Meus amigos,

Não sabem a sorte que tive este Verão. Mais uma vez, fui o melhor aluno da escola e, como prémio, voltei a acompanhar o Professor Sórt Alhúdo na sua exploração anual.

Egiptólogo de coração e explorador por acidente, o Professor é o homem que no mundo mais sabe sobre Bisontas da Lua. Sim, ouviram bem. Bisontas da Lua! E eu, que o acompanhei nesta aventura, também sou considerado um especialista no assunto. Ah! Quando penso que tudo se deve às formigas do Monte Branco.

Há quem ainda diga que as formigas do Monte Branco são como os Unicórnios do Jardim das Maças de Ouro. Que são fruto da imaginação! Mitológicas! Mas estão erradas. Eu sei que existem porque já as vi! E se vocês estão recordados da minha aventura do ano passado, ainda se devem lembrar do relato que vos fiz da exploração ao Monte Branco.

Se realmente ainda se lembram, então também se recordam que o Monte Branco é um Monte que é branco e muito alto. Tem 4810 metros de altura e como toda a formiga que se preza por viver num monte tão alto, as formigas do Monte Branco têm características especiais: andam de pé e gostam de calçar oito sapatilhas para dançar ao som dos Guns ’n’ Roses. Vai-se lá saber porquê, elas curtem o Axel! O seu aroma preferido é o SHOULÉS, que oferecem, gratuitamente, aos visitantes, pois sempre que descalçam os pés produzem uma quantidade industrial do perfume, o qual não é nada agradável. Mas a sua capacidade mais extraordinária é conseguir produzir oxigénio em qualquer ambiente.

Socialmente são completamente diferentes das formigas portuguesas, pois vivem na mais perfeita desorganização, segundo os critérios do trabalho exigido pelo sindicato do Ix, representante da OSFA (Organização Sindical das Formigas Assarapantadas) para o Monte Branco. O seu desporto favorito é escalar as avalanches que descem e só as que descem porque as que sobem não prestam. Como lhes sobra muito tempo, passam a vida a sonhar com a Lua. E, por incrível que pareça, gostam muito de ler e de aprender coisas novas.

Quando descobriram, num dos novos livros que liam, que também havia um Monte Branco na Lua, trataram logo de elaborar os mais complicados planos para lá chegar. O objectivo era estabelecer uma nova colónia. Uma colónia lunar! Assim podiam honrar a memória do General For Migante, o fundador da sua cidade. Segundo os arquivos da biblioteca formigal, o General For Migante era austero, justo e disciplinador. Também falava muito alto. Mas as formigas do Monte Branco já não se recordam disso. Faz muito tempo e apenas se lembram que foi ele quem fundou Formigável, a cidade onde vivem. Eu julgo que a estátua que ele tem na praça central também ajuda, mas isso não é importante. Ora, as formigas do Monte Branco também leram no livro que o Monte Branco da Lua é mais baixo do que o Monte Branco da Terra, pelo que a cidade teria que ser um pouco mais pequena. Mais pequena ou maior! Pfff … para elas, isso não interessava! O que queriam era fundar a colónia.

É espantoso o que as formigas do Monte Branco fazem quanto estão concentradas num projecto como este. Abandonam o sindicato do Ix, para grande pena deste, e começam a trabalhar disciplinada e ordeiramente nos preparativos. Elas não gostam que se diga isto, mas em boa verdade, acabaram por utilizar o plano mais simples e barato. Foram à pala, isto é, à borla nos foguetões que vão à Lua.

Por sua vez, as Bisontas da Lua são parecidas com as tartarugas. A diferença é que têm duas carapaças e seis patas. São telepáticas, ou seja, falam com o pensamento e a segunda carapaça, que é mais pequena, serve para lhes proteger a cabeça dos Kerzi.

Os Kerzi são seres de bazarânio – uma espécie de pedra mole – de forma redonda e têm três olhos para ver melhor na escuridão. São extremamente brincalhões e adoram pregar partidas. A sua brincadeira preferida é atingir a cabeça das Bisontas da Lua, na qual insistem em acertar sem avisar ninguém. É por isso que as Bisontas usam duas carapaças. Assim, evitam os galos na cabeça. Os Kerzi preferem viver no outro lado da Lua, onde há pouca luz e não acham piada aos humanos por não conseguirem ver-lhes a cabeça, pois estes estão sempre com os fatos espaciais vestidos. Por isso não brincam com eles, e até se escondem deles. Esta é a razão porque os astronautas nunca os viram ou mencionaram nos seus relatórios.

Ora, quando conhecemos as Bisontas da Lua, elas estavam em risco de extinção. Só havia um Bisão, que já era muito velho, e, quando o Neil Armstrong lá foi e disse “um passo gigantesco para a humanidade”, ele apanhou um valente susto e morreu. As Bisontas julgam que o Bisão pensou que a humanidade era uma criatura muito grande e que isso foi fatal para ele. Hoje, posso dizer-vos que as Bisontas vão sobreviver. Tudo graças às formigas do Monte Branco.

Perguntam o que há de comum entre as formigas do Monte Branco e as Bisontas da Lua? Não se preocupem, que eu vou contar-vos.

Por altura destes acontecimentos, o Professor Sórt Alhúdo tinha acabado de receber a aprovação para o seu projecto de exploração de artefactos do antigo egípcio lunar do Deus TOTH que, como é sabido, tinha a sua residência de Verão na Lua. Eu, como ajudante dele, empenhava-me arduamente nos treinos de habituação aos fatos espaciais, quando reparei que havia algumas formigas do Monte Branco nas instalações da base, carregadas com caixas e malas de viagem. Como elas não se escondiam de mim, pois recordavam-se da minha visita à Formigável, perguntei-lhes o que faziam por aqui. Contaram-me o que pretendiam e eu disse-lhes que tudo faria para as levar comigo, e assim fiz. Falei com o Professor e decidimos que elas podiam ir dentro das caixas que levavam o material necessário às explorações. Ficaram todas contentes. Primeiro, porque o lançamento do foguetão estava marcado para a próxima semana e segundo, porque tinham a certeza que iam para o destino pretendido. Por isso, não ficaram nada incomodadas por terem que fazer a viagem até à Lua no porão de carga.

Num dos nossos passeios lunares, aproximamo-nos do outro lado da Lua. Tal era necessário para chegar ao Monte Branco da Lua. Como trazíamos connosco as formigas do Monte Branco da Terra, elas começaram a produzir oxigénio assim que repararam que os visores dos nossos capacetes estavam a ficar embaciados. Aliviados, retiramos os capacetes, o que se revelou má ideia pois fomos logo atingidos, na cabeça, por cinco Kerzi. Tanto nós como as formigas ficámos espantadíssimos ao ver os Kerzi. Enquanto eu pensava na sorte que elas tinham por terem uma cabeça muito pequena, os Kerzi, para além de nos dizerem que nunca tinham visto tantos galos numa só cabeça, também nos disseram que as Bisontas viviam no Monte Branco da Lua.

O lar da Bisontas da Lua era realmente no Monte Branco da Lua. Assustadas, ao verem tantas formigas, pensaram que se tratava da gigantesca humanidade, a criatura que tinha provocado o susto de morte ao Bisão e que também conseguia multiplicar-se em pequenas partes. Imediatamente, começaram a construir defesas à volta do Monte Branco da Lua para defenderem as suas casas. Ao verem esta reacção e determinadas a fundarem a sua colónia lunar, as formigas do Monte Branco da Terra iniciaram os preparativos para a batalha.

Nem eu nem o Professor gostamos da guerra. Assim, falamos com as formigas, no sentido de mediar conversações entre ambas as partes e aproximamo-nos das Bisontas com a mesma proposta. Foi então que servimos de intermediários entre as duas delegações, a bisontina e a formigueira. Após os esclarecimentos sobre as intenções de cada uma das duas espécies, um acordo foi assinado: As formigas do Monte Branco da Terra podiam fundar uma colónia no Monte Branco da Lua, vivendo com as Bisontas e, em troca, produziriam oxigénio para permitir aumentar a produção de algens, alimento favorito das Bisontas. Apenas ficou em aberto, o dançar ao som dos Guns ‘n’ Roses. Tantas sapatilhas fazem muito pó e com isso os Kerzi podem fazer mais partidas.

Foi durante o jantar de celebração do acordo que as Bisontas da Lua nos contaram a sua desgraça e os problemas de sobrevivência que enfrentavam. Ao reflectir sobre a situação, o Professor coçou a careca. Má escolha, pois foi logo atingido por um Kerzi. Felizmente, até não foi mal de todo, pois com essa pancada, lembrou-se do Targarau, criação do seu colega de escola, o Professor Eske Mátiko, biólogo por instrução e mecânico por sorte.

O Targarau é uma evolução tartaruguenta que tem cinco patas – uma de pau – e duas carapaças, sendo que a carapaça da cabeça é de metal e apenas serve para proteger do sol. Para felicidade de todos, existem Targaraus machos e nem o facto de respirarem ar era problema, pois as formigas logo disseram que também produziriam todo o oxigénio necessário aos Targaraus.

Contarei, noutra altura, a história do Targarau. Por agora direi que fomos ao foguetão fazer um telefonema via satélite ao Professor Eske Mátiko. Depois de o informar sobre as nossas descobertas, o Professor Sórt Alhúdo pediu-lhe para nos enviar, via correio amarelo, quatro pares de Targaraus machos. Devido à urgência da situação, o nosso pedido foi rapidamente atendido e numa semana os Targaraus tinham chegado.

Mal recebemos o pacote com os oito Targaraus, corremos para o Monte Branco e apresentamos as Bisontas aos Targaraus. Disseram logo que os Targaraus eram muito mais bonitos do que elas esperavam e, cheias de alegria, começaram a chorar. Foi aí que descobrimos que, quando as Bisontas da Lua choram de felicidade, choram lágrimas de diamantes.

O tempo da viagem terminou e voltamos à Terra. Enquanto aguardávamos a chegada dos Targaraus, fomos explorando a Lua a ver se encontrávamos alguns vestígios da casa do Deus TOTH. Em vão! Nada encontramos. Se algum Deus egípcio esteve alguma vez na Lua, quando partiu, levou tudo com ele, até as pedras da casa. As Bisontas já nos tinham avisado. O Professor ficou um pouco triste, mas eu não fiquei nada chateado. Afinal, viajei até à Lua, fiz descobertas excepcionais e ajudei a salvar as Bisontas. Tudo com o auxílio das formigas do Monte Branco da Terra, seja claro.

Por fim, posso dizer-vos que, para melhor as distinguirmos, as formigas do Monte Branco da Lua são as alunadas e que, por sua vez, as formigas do Monte Branco da Terra são as aterradas. Continuam todas primas e o primo Ix também quer, a todo custo, sindicalizar as alunadas, mas eu não vejo jeitos. Não consigo dizer-vos qual é o nome da raça nascida entre as Bisontas e os Targaraus, mas posso garantir-vos que esta foi uma aventura inesquecível.

Mal posso esperar pelo próximo Verão, para mais uma aventura com o Professor. Estará sempre garantida, desde que seja um bom aluno.
Até breve.

13 responses

  1. Isabel C.

    Delicioso.

    Um registo que não te conhecia mas, ainda assim, muito bem conseguido.

    Fico a aguardar mais.

    Maio 14, 2008 às 17:45

  2. uma llinda história. Adorei

    Beijos

    Maio 17, 2008 às 19:14

  3. Ó “Dr. House” português, tu não paras de surpreender. Fantástico conto!

    Junho 6, 2008 às 19:49

  4. Lobi_zomem de Cedofeita

    Como vês, meu amigo, o teu conto de Verão não agradou só a mim. Mas atenção! Está à porta outro Solstício…

    Junho 11, 2008 às 11:36

  5. Maria

    Adorei

    Não fosse a forma arredondada, mole e gostarem de viver no escuro até que gostava de ser um Kerzi.. Claro está porque são brincalhões e gostam de pregar partidas.

    Adorei amiguinho. Simplesmente FABULOSO.

    Fico à espera da tua outra história. Agora que me habituaste quero mais e mais.

    Assim também vou enriquecendo e um dia mais tarde tenho histórias para contar aos netinhos. Sim porque a da carochinha e da gata borralheira já deu o que tinha a dar

    Beijocas e não pares. Forçaaaaaaaaaaa

    Setembro 10, 2008 às 16:13

  6. Desde os nomes dos intervenientes (as Bisontas, os Targaraus, os Kerzi, o Prof. Sórt Alhúdo) até às suas andanças, é tudo fantástico. Está genial!
    Que bom ter voltado. De novo podemos andar pelas suas histórias e viver a sua poesia.
    Maria

    Setembro 25, 2008 às 00:07

  7. Uma aventura realmente inesquecível!
    Um texto muito bem escrito, cheio de ritmo, em que o autor tem a capacidade de prender o leitor até ao final, com curiosidade e com prazer🙂
    Estás (mais uma vez) de parabéns!

    Beijo

    Janeiro 8, 2009 às 09:44

  8. Mariana

    Uma história encantadora. Simplesmente ADOREI!

    Beijos

    Março 30, 2009 às 00:51

  9. PS

    Que conto delicioso!

    Maio 21, 2010 às 23:34

  10. EME

    A leitura deste conto projectou em mim uma necessidade, quase visceral, de me meter num foguetão rumo ao Monte branco lunar.
    Sou uma formiga aterrada com vontade de me transformar em formiga alunada!
    Este conto deveria fazer parte do programa escolar.
    Vicente, permite-me uma sugestão:escreve um livro de contos para crianças mas para adultos lerem e refletirem.
    Bem haja
    EME

    Março 15, 2011 às 12:10

  11. Sylvia

    Good post. Simply want to let you know you’ve such an great page.

    Agosto 4, 2011 às 08:20

  12. Mary-Ann

    I have read a few of the articles on your blog now, and I really like your style of blogging.
    This children’s story is fantastic.
    I wish you all the luck with your writting.

    Agosto 10, 2011 às 03:03

  13. Joana Maria-Lobo

    Aparentemente simples e belo mas creio que se torna necessário ler muito nas entrelinhas e aí é qua a porca, perdão a bisonta lunar, torce a cauda.
    Parabéns Vicente, será um renascer em universo diferente?

    Março 22, 2012 às 14:47

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