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soubesse eu que eras ténue!

 

soubesse eu que eras ténue!
brisa dos cinco elementos.
formada no rompimento dos tecidos humanos
ou em desejos momentâneos.
já idos! em Março.

vislumbrei-te sem halo.
intacta!
como a lua despida ao Outono.
e aceitaste-me com um sorriso de estrelas.

foi no hausto do instante,
inebriado pela miríade dos sentires,
que me deixei,
despercebidamente, sucumbir.
o tempo foi-se, exausto.
e nem sequer, os teus lábios provei.

soubesse eu que eras ténue!
mas não soube.
e despojando-me das vestes artificiais,
fui pregar às areias do vento.

o voo das aves corria no fluir das lágrimas
ou na força vital que pulsa nas artérias,
e foi nas águas do deserto
que reencontrei a dupla hélice da vida.

a lembrança? deixou de estar corrompida.

falhei o teu breve partir.
mas sei-te ténue, sei-te minha.
no profundo das sequóias vermelhas.

  

in Diálogos, Epístolas Inertes

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Canto Único

 

 

talhada a cinzel,
uma lua laranja vela o horizonte.
em tal aura, refugia-se a essência desnuda
e pressente-se a indelével partitura do cosmos.

no silêncio transformado em paz,
onde palavras são fábulas de paixão,
o aroma revela a melodia do profundo
que enleva a água-marinha aos nenúfares
e insufla em ternura nuvens prateadas.

noites azuis,
pepitas de ouro.
como orquídeas suspensas em lagos,
estrelas pendem serenas.
nesses rastos brotam sonhos.
pelo voo do beija-flor
que solta as harpas do encanto
do jasmim insubmisso.

é em pleno desprendimento que recordo.
quando sou intermitência da consciência antiga.
e semeio-me, breve, no campo da noite,
às pétalas de marfim, às gotas de luz
do orvalho banhado em raios de água pura.
mimo da mãe terra.
porque as origens são cegas. somente atribuídas!

estremeço com o ritmo da tua frequência.
não por inânia, mas por rendição.
por retornar ao uno que fomos,
pelo resplendecer da íris exaltada,
pelo arquejar do corpo omnisciente
no resgate dos beijos de jade.

ah! os lábios de fogo anseiam pelo sabor
do teu travo de framboesa fresca,
que faz esse colar silvestre de esmeraldas
onde toda a lembrança se embala.
e vago, nos estilhaços das eras,
renascido em teu flamejar.

por fim, a alma do jardim da tranquilidade.
no casulo de seda que afaga as asas da luz,
em tempos do tempo sem tempo.
os tons de púrpura expandem-se
e a face límpida da liturgia cósmica emerge:
a densidade é o tecido do amor
o cântico a sua expressão.

encerro a tristeza em gomos de romã.
não para a esquecer, mas para a despojar.
pois as lágrimas de sangue são vida!
é por elas que a emoção é nutrida.
é por elas que suspiro na cripta sagrada do Ser.
pelas letras que fazem a poesia celeste,
nas névoas da água universal do reencontro.

descansarei,

verbo no Canto Único.

 

in Diálogos, Epístolas Inertes


Transfiguração

renova o todo que te faz.
sê o próprio furacão!

faz amor com as palavras,
funda a alma ao corpo
e beija com o coração em pureza.

é no turbilhão dos sentires
que todo o verbo se conjuga.

e o que é, ser-te-á retribuído

em amor e criação

 

in Comentários na face da Noite


Águas Nocturnas – 7º jogo das palavras

há coreografias na leveza da noite.
folhas soltas nas correntes livres,
amantes sem capitulação,
entregues ao abraço do vento morno.

sentimento rendido à Luz. antigo!
como sonhos enamorados
ou voos entrelaçados
ao fulgor do bailarino transparente.

há danças na orla do sorriso.
espirais no caos em liberdade
que resgatam as amendoeiras em esforço
e velam pela virtude dos malmequeres

há pirilampos na aura nocturna.
pulsares que preenchem amenos afagos
em mãos que aquecem gatos esquivos
na sintonia da breve escuridão.

há orquestras reunidas em homenagem.
sussurros no silêncio do tempo
tecidos no som das cordas aliviadas,
no uníssono das memórias dos entes desamparados.

mas até a harmonia do divino é falaz!

e depois há o orvalho das luas esverdeadas.
onde a essência se purifica.
perante o gesto do impulso desconhecido,

do homem, galanteio fugaz.


Todas as Noites

cristais em diferentes sabores.

lápis-lazúli.
ametistas.
algumas safiras.

no vale dos lençóis
corre o leito das águas.

todas as noites,
e também na razão,
há lágrimas para as utopias,

perfumes em baunilha azul.