Posts tagged “existência

Para o meu filho Vasco


Iris_Nebula, originally uploaded by Lua Samsara.

 

Meu filho, sou um sonhador!

Sou alguém que acredita em valores, na família, na amizade, alguém que agradece os ensinamentos transmitidos, a começar pela dádiva da existência, recebida dos teus avós e, finalmente, sou alguém que pensa e questiona o que me rodeia.

Nota que o que nos rodeia não é fácil. Ainda bem. Porque a vida não é fácil. Exige esforço e dedicação, no respeito pelo pluralismo das circunstâncias humanas.

Mas viver será muito mais difícil se não sonhares. Por isso, meu filho, sonha e muito! Não deixes que os sonhos se tornem ilusões, nem nunca deixes de viver os sonhos.

E que os teus sonhos te façam generoso, te façam explorar o multiverso que existe para além do horizonte, te acompanhem durante a vida, te iluminem o coração e te permitam questionar o cosmos, para cresceres em comunhão com os teus semelhantes e em concordância com o todo.

Meu filho, hoje, por ti, dei o segundo passo na eternidade. Sou pleno no todo!

Só tenho mais esta esperança:
Que os teus sonhos aconteçam porque tu excedeste todos os meus!

O teu Pai,
25 de Maio de 2011

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Subtilezas


Imagine…, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

formações incompletas
e outras maravilhas,
subtilezas pequeníssimas,
entregam-se ao soalheiro do vento desconhecido.
unem-se para viajar ao uno!

só o impuro será puro!
em ervas altas e savanas douradas.
depois do amadurecer prateado,
em luas suspensas ou em fios purificados,
pela peregrinação no florescer da vida.

há entidades soltas,
auto-criadas em si
e constantes na omnipresença.
há veias inspiradoras,
simples elos que fazem o verde.
só assim se multiplicam os camaleões da natureza.
e são tantos! distintos.
com cores em tempos diferentes.

na neve a brancura é imaculada.
nada a invade. até o calor é devolvido,
depois de arrefecido em névoas intactas,
num beijo rejuvenescido,
profundamente sentido,
numa etapa que se refaz em amor,
pois tudo tem um papel determinado.

manifestações traduzidas em plural,
as subtilezas pequeníssimas são imensas!
todo o conjunto é singular.
e conjugável!
em si e entre si,
para que a diversidade se suceda.
assim,
não há mundo. há mundos!
não há vidas. há vida!

e o inverso também se verifica.
o todo é um ciclo evolutivo.
de vida e morte. de continua existência.
a que qualquer entidade se submete e se renova.
e acontecem minutos para a morte
como já anteriormente os houve em ser.

as lembranças permanecem o condão.
aguardando o reencontro com o espírito
no confronto da pressão e do tempo.
vislumbra-se aí o quão profunda é a eternidade.
e nada está fechado,
pois quando o corpo sucumbir abrir-se-á ao pleno
e será subtil e pequeno.
como deve ser! para ser em luz, em beleza, em pureza

por isso,
as ondas vibratórias na harmonia do cosmos
são subtilezas pequeníssimas.
permanentes demonstrações de louvor.
percebe-se que o princípio criador do todo é a desigualdade.
nenhuma vida é igual!
logo, qualquer uma é especial.

e o amor é o elo vital que nos une
no respeito por outras vidas.
e o amor que temos por algumas é superior.

sem vida não há amor e sem amor não há respeito à vida.

ser! amor! vida!
pela expressão de pequenas subtilezas.

 

in Diálogos, Epístolas Inertes


Primordial


Wish You Were Here, originally uploaded by Stuck in Customs.

 

deuses sorriem ao longe enquanto
vida acontece.

mas nós
a vivemos.
nós
somos essência

no lago da humanidade.

 


No Corpo de Gaia

circled, originally uploaded by hkvam.

 

desejos latentes no etéreo
abrem-se paradoxalmente ao templo que se encerra.
as pálpebras das estrelas permitem brilho
às fendas escuras do horizonte,
sinalizando o trilho para o destino das almas.

há algo triste na tarde que se entrega,
mas toda a energia é panorâmica
e deixa um leque de sangue nas vestes amarelas.
nem o vento que arrefece as savanas
afronta essa dádiva onde pulsa carne divina.

espíritos animam os seios de Gaia
podando as auréolas dos cumes sagrados.
e chamas são erigidas nos altares,
louvando o corpo que soçobra em choque.

no limite da exaustão,
as danças produzem melancolias piroclásticas
que envolvem os membros despidos,
invocam sete palmos de água descendente,
refrescando os fragmentos ígneos da raiz da terra.

o movimento da miriápode celebração
igualmente avoca a presença dos druidas.
diversas fracturas são infligidas no Ânima.
e a ara fixa-se no pulmão da sutura,
velando pelo oxigenar das sementes de fogo:
quando o novo amanhecer acontecer,
aqui reflorirá o cântico do equinócio.

tenro é o período das ondas de renovação
mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser.
e o corpo desenterra-se da erosão imemorial do tempo,
anunciando o aligeirar do afélio interior.
vagarosamente, a trindade cêntrica estremece
despertando o poder da potencialidade absurda:
Energia, Espírito e Alma vibram para a plenitude.

ocorrem avisos anamórficos da auto-regulação
cuja amplitude devia chegar aos inquilinos desrespeitadores.
mas a atitude hodierna prevalece intocável
e não há consideração pelo que nos foi oferecido.

num provir isócrono que se gera por si só,
reavivados sussurros soltam o teleológico antigo
demonstrando a existência da ecosfera primária.

soam as horas atrozes do crepúsculo púrpura!
o tronco materno ruge sereno:
as águas sobem e os ventos ventam estranhamente,
desfraldando as abas do éter interior da cosmogonia holística.

o ente imenso recria-se para sobreviver ao impacto humano
e convulsões orgânicas surgem abruptamente desta cisão.
mas a semente da luz aguarda no ventre da Mãe terra.
uma nova dignidade emergirá e novas mãos a seguirão

nova era de esperança no respeito da lembrança.
em união omnisciente, no corpo de Gaia.


Ocaso

 

 

o propósito da locomoção não é linear.

apenas o caminho é certeza para os pés,
autenticas bases movíveis que descrevem caprichos ondulares.

depois vem a dinâmica do equilíbrio,
onde, no entoar de diferentes ecos, os passos são a voz da idade.

é pelos pedais que se atingem as espirais paralelas das utopias etéreas,
os círculos constantes da rotação sagrada
                que perfaz o sustento profano da máquina.

e pedala-se a vida no semear das cruzes sombrias da tecnologia,
perpetuando o slogan alegremente subvertido:
a morte é uma bicicleta transfigurada.

mas nenhum pé se atreve a parar.

o propósito da locomoção não é linear.
é alucinação desprotegida!


Meditação sobre a liberdade (IV)

Liberdade

 

A liberdade é uma dádiva que revela uma singularidade dual.

 

Dádiva,

porque é algo que emerge da relação com o Outro.

 

Singularidade dual,

porque,

para além de ser uma aspiração intrínseca,

é algo que deve ser diariamente conquistado.