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In Memoriam


VFS_0507b, originally uploaded by vfsphotos.

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aos olhos do Criador,
nada sou.

aos olhos de meu semelhante,
mais não sou.

são os filhos que nos fazem eternidade.
mas a existência é efémera.

o coração chora.
porém, nunca esquecerá.

*

Hoje fui acordado com a notícia duma morte. Um Pai comunica a morte do seu Filho.
Dediquei um dos meus livros à minha filha Ana, que considero ter sido o meu primeiro passo na eternidade. Já dei dois. É o meu maior receio: perder um filho.
Não consigo imaginar o que o meu amigo e colega Abílio estará a sentir. Espero apenas que o Criador lhe conceda serenidade.
O poema infra não é novo, mas foi adaptado para a memória dum filho que partiu.

Para o Abílio!

Recordação

Quantas vezes nisto falamos?
Quantas vezes o expressamos?
Quantas vezes o receamos?

Se tivesse que morrer por ti,
de bom grado o faria.
Porque em ti e por ti,
a minha luz jamais se extinguiria.

Mas assim alguém não quis!
E foste tu, não eu, quem partiu.

E eu? Eu sou aquele que vive no alento
do reencontro,
alimentado pela tua recordação.

Sou aquele que no silêncio fala contigo,
aquele que receia que todas as palavras que diz,
que todas as palavras que contigo divido,
não cheguem para expressar os sentimentos que me inspiras.

Sou aquele que tenta,
em vão,
retribuir tal avalanche de sensações.

Sou aquele que ainda te deseja.
Aquele que deseja que os seus medos se transformem
em ondas que te aconcheguem,
refrescando-te nas noites quentes do Verão,
protegendo-te nos dias de tempestade do Inverno.

Sou aquele que não se satisfaz com tais desejos.
Porque nem a possibilidade de essas ondas te presentearem
com um constante renovar de quadros,
pintados por estrelas na tela da noite, seria suficiente.

Sou aquele que canta o desencanto
porque nada me encanta sem o teu encanto,
sem o teu ser,
sem o teu viver.

Sou aquele que não é jardineiro
mas que cuida do teu canteiro,
de todos os teus canteiros.
Porque tu és o meu jardim,
és todos os meus jardins.

Sou aquele que suplica ao sol
por mais um momento de luar,
para nele rever o teu rosto,
para nele te recordar.

Sou aquele que aguarda o aguardar
porque aguardar reencontrar-te é o que me resta fazer.
Aguardar, esperando.
Aguardar, olhando o mar
e desejando o além abraçar.

Sou aquele que ainda é teu.
Aquele que já era teu quando não eras meu!
Aquele que foi teu quando foste meu!
Aquele que continua teu, porque ainda és meu!

Sou aquele que não desiste.
Aquele que aqui, a custo, persiste.
Porque dói a tua lembrança.
Por nela depositar a esperança.

Sou aquele que tem de continuar
sem pensar em morrer.
Aquele que aqui continua a viver
para a tua recordação honrar.

E também sou aquele que para ti voltará.
Aquele que contigo ficará,
por todo o espaço do tempo
e por todo o tempo do espaço.

in 30 Mensagens de Amor e Uma Recordação


Eusébio da Silva Ferreira


Eusébio da Silva Ferreira, originally uploaded by vfsphotos.
Direitos de autor da foto pertencem a: http://revistafutebolista.blogspot.pt

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No verde de linhas brancas,
brilhaste!

Foste força,
humildade,
arte e feitiçaria.

Mesmo contra as circunstâncias,
sempre acreditaste.
E quando não conseguiste,
choraste!

Pantera Negra,
negro o teu coração nunca foi.

Foi e é puro!

Eusébio,
Já não és só teu
– como cedo descobriste –
És nosso!
[E também és meu!]

Obrigado.

escrito a 25 de Janeiro de 1992 in Odes & Homenagens


Substância (para Jackson Pollock)

 

a face de Deus!
ou corpos que se enrolam no chamar.

leves jóias nos pincéis.
reimpressões dispersas em mel,
crinas amarelas nos corcéis.

desintegro-me na densidade do pleno.
qual breve instante consubstanciado,
no tempo atroz das dúvidas persistentes.

e contemplo a dança viva da cores
na magnitude da desordem criada.

sou submisso do prazer!
no encantamento das flautas douradas.

Shimmering Substance,
liberdade reunida em essência.

*** *** *** *** ***

the face of God!
or bodies that roll in summon.

concise jewels in the brushes.
dispersed reprintings in honey.
yellow locks in the steeds.

I disintegrate myself in the density of the whole.
as a brief consubstantiate instant,
in the atrocious time of the persistent doubts.

and I contemplate the living dance of the colors
in the magnitude of the created chaos.

I am a servant of pleasure!
in the charm of the golden flutes.

Shimmering Substance,
freedom congregated in essence.

 

in Odes & Homenagens


Chamas Transparentes (para Herberto Hélder)

Herberto helder

(1930-2015)

falas de mulheres. de faces rosadas.

de mães e de gotas de água. de

batentes em semblantes sem tempo.

de fios umbilicais e de amor.

somente! sem nada por dentro.

 

falas de naturezas intrínsecas e

de imagens que alimentam. o informe!

de coisas mais altas. de pálpebras que

levitam em escafandros interiores. de

poços de petróleo invasores.

 

falas de orvalhos em flechas.

de pêlos sedosos e de ervas abertas. de

morte em pétalas puras. extasiadas.

de espinhos em cantos frios.

distantes e sozinhos. ou mudos!

 

falas de lembrança. em tudo!

de carne feroz em cítaras descidas. de

folhas inspiradoras como páginas brancas.

em estios enormes. recuados. inteiros.

em superlativos antigos.

 

falas de ausências deslocadas. de

sumptuosos vestidos em bailes sonhados.

de danças sem partitura. de breves

infâncias e titânicas investiduras.

de limalhas em artérias. absortas!

 

falas de pedregulhos púrpura. de

trevas escorregadias em idades sufocadas.

de uns tantos vivos em léxico. desnudos!

ao largo da fronteira da inspiração oca

curta. em luz de estações fluviais.

 

falas de meteoros.

(são belos os espasmos da criação!)

e também de cometas.

(são arados! que tratam do campo de estrelas.

resquícios do caos primordial, onde

apenas se manifesta autêntica liberdade).

 

falas de actos absolutos. mas

não existe absoluto. só evolução!

 

e falas de teorias.

todas o são. sem dúvida!

 

porém, a verdade é esta:

o universo nasceu para sucumbir!

toda a energia se esgota.

toda a vida deixa de o ser.

o milagre é a multiplicação das formas.

enquanto é. ou for. pois outra das certezas é

que o tempo não é humano.

só aqui reside a dádiva dos desígnios. maiores!

 

e no cânone?

apenas chamas transparentes.

realmente, a faca não corta o fogo.

só a mão que a empunha o faz!

 

eu?

falo-te dum simples abraço.

in Odes & Homenagens


Não digo nada! (para Fernando Pessoa)

Não digo nada!
Sigo o teu conselho.

Ouso-me.
E deleito-me,
no aconchego das palavras [mudas],
num encantamento que me embala …
                                                                      … e preenche.

Que nos faz unos
– em tudo e nada –
aos momentos já vividos
e aos ainda não tidos.

Não disse nada

E se algo perdi,
que de todo desconheço,
                                                tudo senti.

Na fluidez do nada também fui.

E o som da jornada emudeço!

 

in Odes e Homenagens


Poetas do Silêncio

Sao Pedro 1137

 

Uns, são mudos.
Outros, não são ouvidos.
Alguns, duns, certamente o serão.
Outros, doutros, possivelmente não.

Há os que tudo falam e nada dizem
e há os que tudo dizem e nada falam.
Pelo menos, enquanto vivos.
Porque mortos, tudo falaram, tudo disseram.

Também sou Poeta!
Não Pessoa. Fernando!
Vivo, nem sequer sou esquecido
porque não sou conhecido.

Também sou Pessoa!
Não Fernando. Poeta!
Mas continuo desconhecido.

No entanto, eu escrevo.
porque nas minhas veias escorre o canto
que liberta as lágrimas da minha pena
e sufoca os soluços do meu coração.

Sou um dos poetas do silêncio!

E em sossego,
esmaeço no esquecimento
pleno de conhecimento

in Espelhos e Outras Faces


Anacreonte

[Pura genialidade!
Infelizmente incompleta.]

Não nos deixou um todo.
Apenas fragmentos.

– talvez influência de Eros –

Afinal,
o amor é um contínuo transitório.

in Deuses, Homens e o Universo


Causa (para Le Corbusier)

 

A origem deriva de cinco pontos,
todos eles
nascidos das liberdades
                                              [sensoriais].

A fusão com a paisagem é
o sentido da obra, a razão de fazer
existência.

Solo. Ser. Homem. Estrutura. Arquitectura.
Tudo é conjugável.
Tudo é [meio]
                          – ambiente.

Só os cinco são a autenticidade.

in Odes & Homenagens

 

Saint-Pierre, Firminy, originally uploaded by ben.busch.

Himbas

                Incontáveis instantes passaram
                na permanência dos de feição ocre,
que no inóspito persistem intactos,
                incólumes ao tempo e ao contacto.

Jamais houve sujeição!
                E são inarráveis as tentativas.

A coerência fá-los pertença
                do ambiente natural.

                Aí são unos.
                Aí serão incessantemente perpétuos.

                No universo tribal de Damaraland!


Concórdia (para Mir)

nas janelas da bruma das palavras
ecoa o amanhecer do poente.

nesse espaço reside o pulso.
no nada da presença
ou no tudo do ser,
harmonia.

e simples sopro
na vida

in Odes e Homenagens


Visores Profundos (para Modigliani)

À noite, só os gatos são pardos.

E,
nas telas com cores densas,
os olhos estão extintos.

Que expressam tais visores?
Desespero?
Fome?
Ou inexistência?

O legado ficou.
Nós também.

                                Mais sós!
                                Mais pós!

in Odes e Homenagens


Águas do Verbo (para mariah)

Párias algures ancorados
relembram dissonâncias acústicas
nos sons invocados pela memória
dos lugares onde outrora
                                 tenuemente pertenceram.

Desgarrados sem limites,
respiram amplitude.

Porque sussurram pelas amarras?

Já não habitam o verbo.
Nem a “Luz do poema”
ou o mar que nos atinge.

Choram!
Sabem agora onde o poema vive.

in Odes e Homenagens


Integral (para Silvia Chueire)

São toques de sensualidade,
acrescentados. Esvoaçam no
tempo do beija-flor.

Diferentes conjuntos do uno,
fragmentos do querer nos
lábios que se enrolam.

Se sou um contínuo, é
apenas nesses instantes que
me sinto absoluto.

Pode a eternidade alcançar
o infinito?

in Odes e Homenagens


Lugares Comuns (para João Luís Barreto Guimarães)

Soubesse Eu,
antes
ou mesmo depois,
que os versos
são ventos que sopram
para o Ser.

E nunca serão truísmos,
os lugares comuns.

in Odes e Homenagens


A Tua Luz Perdura (para Sophia de Mello Breyner Andresen)

Nascido na tua imaginação,
o valente cavaleiro
ainda preenche o meu coração.
Ó poetisa, o meu fiel companheiro
foi tua criação.

Com amor mo deste.
Com amor to liberto.
Apenas para voltar,
depois de te acompanhar
nesta ultima viagem.

Contigo irá, é teu pajem,
ao destino que desejares.
Talvez vás à Dinamarca?
Não importa. Vai em paz!
E não olhes para trás.

Porque entre nós, a luz perdura.
Os exemplos são aos milhares:
As palavras que formaste,
os versos plenos de magia,
as vidas que tocaste,
os contos vivos de fantasia,
e a liberdade que tanto prezaste.

Na lembrança, a tua luz perdura.
Em ti, a esperança é ternura.

Obrigado.

in Odes e Homenagens


Sabor a Mel (para Gabriel de Mariz)

As palavras tiveram outro sentido
depois dos “Sonhos Breves”.
Para elas fui atraído.
Foi onde tudo começou.

E o que aí se originou,
logo se reforçou.
Imediatamente fui preenchido
por um “Capricho de papel”.

A partir daí,
deixei-me ir.

Para
– quem sabe –
voar,
             evoluir
                              e criar.

Mas jamais esqueci,
onde foi que aprendi,
o sentir
das palavras
                             e o seu sabor a mel.

in Odes & Homenagens