HumanaR

Tender fall, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

a distância entre a porta ajusta-se ao momento do destino.
tal como as escadas rolantes são ilhas,
onde as pernas se imobilizam,
duplicando um movimento que não se perpetua.

só num local
– indefinível, porque obscuro,
algures, porque discreto –
as acções são duais.

mas a transposição implica
a queda num buraco octogonal de espelhos cansados.

o homem não pode conviver,
simultaneamente, com o passado e o futuro.
a queda requer faces vedadas aos segredos disponíveis,
deformados pela velocidade horizontal do salto na penumbra.

até que as correias electromagnéticas se façam sentir
a aceleração será uma constante e a fé será posta à prova
por um corpo abandonado ao seu próprio ónus,
ao sabor das gargantas profundas da gravidade.

não haverá pára-quedas.
são chuvas que libertam a torrente de memórias gastas.
em minúsculos pontos que brilham nas paredes do fosso
ocorrem explosões de astros
puxando os dedos na direcção da entrada,
como um instinto que procura sobreviver à redenção do momento.

nada inverte o passo dado!
nem a espuma dos cometas diurnos
ou o trilho das bolhas de sabão suspensas o consegue.
tudo depende do sangue da fé!
e esta depende dos neurónios do desejo,
entregues ao mais perfeito êxtase,
siderados pela inclinação do sigma constelado.

relata-se um sonho gerador de pensamentos.
alguns sumptuosos, outros nem tanto,
que fixam os orbes oculares no véu da lamentação.
o aviso ainda ressoa inteiro.
apesar de esgotados em tentação, os olhos permanecem cerrados.
a sinopse da escolha é inevitável!

no movimento imóvel iniciado está presente o término
porque as ilhas são pontos selados.
a certa altura os pés retomam o caminho,
na companhia prazenteira da paisagem,
bebendo em goles as cores congénitas da natureza.

estes ciclos ajudam a circulação da seiva encarnada,
criando ondas retemperadoras onde nada se vê.
a meio do percurso,
a amplitude do sentir transborda os limites do corpo
e a essência renovada acompanha os espelhos cansados
no entrelaçar à génese da raiz das árvores.

quando os movimentos encontram o ritmo do movimento
são necessárias fendas nos reflexos e feridas na epiderme:
pelo rasgar irrompe a beleza no uníssono.
e o peso do corpo torna-se avassalador.
na dor que é origem, os gritos são silenciosos.

as formas informes ocupam o buraco horizontal
e a ígnea chama que sempre existiu brilha no azul da alma.
o interior da natureza é índigo.
é aqui que o calor funde as existências
e o apelo ao abraço fresco do cosmos é recitado.

mas não haverá ventos estivais,
apenas um manancial em repouso
onde o impacto do corpo ressuscitará.
só no imo as preces de louvor são índole de carácter!
só a desfragmentação individual se unirá à unidade!

após a odisseia metamórfica no colectivo do coração
a distância entre a porta ajusta-se ao momento do destino.

é neste ínterim que a força do novo homem se transfigura.
regressado da dualidade, resgatado para a realidade.

em corpo presente!

 

15 responses

  1. Maravilhoso e profundo, Vicente!

    Esta dualidade: passado/futuro que trazemos no âmago, ligada à fé é certamente a força que transfigura o homem e o resgata para uma nova realidade.

    O nascer e o morrer, a distância entre esses dois únicos momentos, ao mesmo tempo que a “Não escolha do ser”, mas a sua existência como real, levará sempre à uma porta que se ajustará no momento oportuno.

    Transcendi!

    Belíssimo!

    Parabéns, Vicente!

    Beijos, amigo!

    Mirse

    Agosto 14, 2009 às 22:32

  2. roubaste todas as palavras?
    não! são tuas!
    fica um gesto na primeira pessoa, na capa, em público… em forma de abraço
    luísa

    Agosto 15, 2009 às 00:00

  3. TV

    “HumanaR” o humano.
    Palavras destas são raras.

    Decididamente, o VFS é um dos meus poetas contemporâneos preferidos.

    Teresa

    Agosto 15, 2009 às 22:39

  4. Mais um poema rico em metáforas e/ou metonímias pelas quais aborda aspectos existenciais.

    Outras dádiva em criação poética.
    Muito obrigado,
    Alberto

    Agosto 16, 2009 às 23:26

  5. ~pi

    em toda a palavra o

    convite à sombra

    o convite ao todo

    o convite à luz,

    beijo

    ~

    Agosto 18, 2009 às 10:09

  6. ICL

    “mas não haverá ventos estivais,
    apenas um manancial em repouso
    onde o impacto do corpo ressuscitará.”

    Este HumanaR é um renascer.

    Que belo poema!

    Isabel

    Agosto 19, 2009 às 22:44

  7. De corpo inteiro

    Agosto 20, 2009 às 01:38

  8. O destino. O passado. O futuro. São “saltos na penumbra”. Um belo poema que mais do que “odisseia metamórfica” é uma odisseia metafórica”. Li, reli, e gostei.
    Um beijo, Vicente.

    Agosto 20, 2009 às 10:58

  9. Os blocos. Degraus. Labirintos que formam o Ser.
    Gostei deste blog.
    Um gesto de Amizade,
    Sandra Ferreira

    Agosto 22, 2009 às 16:41

  10. Neste poema pulsam poderosas reflexões existenciais.

    Como já alguém comentou, transcende-se.

    Abraço

    Paulo

    Agosto 23, 2009 às 18:59

  11. “Não haverá pára-quedas”

    Achei a frase extremamente dolorosa, e no entanto, recuperei-me com o homem “resgatado”, em “corpo presente”.

    Ainda que demore, ainda que haja desvios, é o único fim possível.

    Abraço.

    PAZ e LUZ

    Agosto 24, 2009 às 04:24

  12. Élio Fidalgo

    “(…) tudo depende do sangue da fé!
    e esta depende dos neurónios do desejo,
    entregues ao mais perfeito êxtase,
    siderados pela inclinação do sigma constelado.”

    fé, neurónios e sigma.

    Quantos universos fundiu neste extraordinário poema?

    Abraço

    EF

    Agosto 29, 2009 às 23:25

  13. há poemas impossíveis de comentar – humanizam.se

    .
    um beijo

    Setembro 2, 2009 às 01:03

  14. Nossa..rs eu preciso de fôlego..rs creio que não vou sair deste teu espaço por um Éon! ao menos..rs

    Grata pelos posts, já falo em razão a todos que passei e aos que passarei. Fundamentais em minha reflexão de Vida Mística, Cosmos e essências que prezo.
    Então… obrigada por existir!

    Admirável espaço de luz
    Paz profunda!
    Vida.

    Setembro 20, 2009 às 06:59

  15. HumanaR canta o percurso da vida.

    Obrigado

    Susana

    Julho 24, 2010 às 23:11

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