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Nos Dias em que o Céu é Viúvo

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misty ocean 2 by lucieg stock

.

Nos dias em que o céu é viúvo chovem pedras nas nuvens
e os pedreiros esforçam-se por libertar as lágrimas dos túmulos.

A vereda da água é sinal de colheitas!

Caem os ídolos do tempo moderno e escrevem-se os éditos da fertilidade,
reforçando a tradição de outrora e a amplitude das matriarcas,
anunciando a vitalidade do futuro.
Porém, toda a metamorfose é uma dissonância.
Já a cognição é um fruto agridoce que se faz conjunto.

Nos dias em que o céu é viúvo chovem pedras nas nuvens
e as lápides são as cangas que os ombros levam para a eternidade,
num descanso que somente será suado.

apenas os tolos são abençoados!

 

in Espasmos


(re)Nascer

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É no sentir

das lágrimas

que desponta o amanhecer …


Vozes d’outros (35)

“Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.”

Rui Costa (1972-2012)
a nuvem prateada das pessoas graves


O Bosão do João

88 poemas

A minha poesia foi incluída na compilação organizada por Rui Malhó (que ainda não tenho o prazer de conhecer pessoalmente), O Bosão do João88 poemas com ciências.

Integralmente inesperada, é uma imensa honra ter sido selecionado para fazer parte duma obra que versa a transversalidade multidimensional da poesia nos multiversos da ciência e uma enorme responsabilidade por estar entre tão excelsa companhia.

Ao autor, o meu mais sincero agradecimento!

… Nada Ser
Do Quotidiano
Dia de Aniversário!
Revestimento
en_CRUZ_ilhadas
Membranas
Breve incerteza
Tapeçarias
Máscaras
Arbítrio
Rupturas


Hope / A esperança suaviza as lágrimas!

Georgia

Sei que não farás amor comigo,
mas deixa-me ter esperança

para suavizar as minhas lágrimas!

.

I know that you won’t make love with me,
but let me have hope

to smooth my tears!

 


às vezes, a única intenção é a curiosidade

How much I need the sun

.

às vezes, a única intenção é a curiosidade.

de vislumbrar o sonho
ou de levantar o véu da esperança

e sentir os cumes do corpo,
ou as curvas do mundo,
que fazem o pulsar do desejo.

às vezes, a única intenção é a curiosidade.

qualquer coração tenta
e se entrega curioso

!


In Memoriam


VFS_0507b, originally uploaded by vfsphotos.

.

aos olhos do Criador,
nada sou.

aos olhos de meu semelhante,
mais não sou.

são os filhos que nos fazem eternidade.
mas a existência é efémera.

o coração chora.
porém, nunca esquecerá.

*

Hoje fui acordado com a notícia duma morte. Um Pai comunica a morte do seu Filho.
Dediquei um dos meus livros à minha filha Ana, que considero ter sido o meu primeiro passo na eternidade. Já dei dois. É o meu maior receio: perder um filho.
Não consigo imaginar o que o meu amigo e colega Abílio estará a sentir. Espero apenas que o Criador lhe conceda serenidade.
O poema infra não é novo, mas foi adaptado para a memória dum filho que partiu.

Para o Abílio!

Recordação

Quantas vezes nisto falamos?
Quantas vezes o expressamos?
Quantas vezes o receamos?

Se tivesse que morrer por ti,
de bom grado o faria.
Porque em ti e por ti,
a minha luz jamais se extinguiria.

Mas assim alguém não quis!
E foste tu, não eu, quem partiu.

E eu? Eu sou aquele que vive no alento
do reencontro,
alimentado pela tua recordação.

Sou aquele que no silêncio fala contigo,
aquele que receia que todas as palavras que diz,
que todas as palavras que contigo divido,
não cheguem para expressar os sentimentos que me inspiras.

Sou aquele que tenta,
em vão,
retribuir tal avalanche de sensações.

Sou aquele que ainda te deseja.
Aquele que deseja que os seus medos se transformem
em ondas que te aconcheguem,
refrescando-te nas noites quentes do Verão,
protegendo-te nos dias de tempestade do Inverno.

Sou aquele que não se satisfaz com tais desejos.
Porque nem a possibilidade de essas ondas te presentearem
com um constante renovar de quadros,
pintados por estrelas na tela da noite, seria suficiente.

Sou aquele que canta o desencanto
porque nada me encanta sem o teu encanto,
sem o teu ser,
sem o teu viver.

Sou aquele que não é jardineiro
mas que cuida do teu canteiro,
de todos os teus canteiros.
Porque tu és o meu jardim,
és todos os meus jardins.

Sou aquele que suplica ao sol
por mais um momento de luar,
para nele rever o teu rosto,
para nele te recordar.

Sou aquele que aguarda o aguardar
porque aguardar reencontrar-te é o que me resta fazer.
Aguardar, esperando.
Aguardar, olhando o mar
e desejando o além abraçar.

Sou aquele que ainda é teu.
Aquele que já era teu quando não eras meu!
Aquele que foi teu quando foste meu!
Aquele que continua teu, porque ainda és meu!

Sou aquele que não desiste.
Aquele que aqui, a custo, persiste.
Porque dói a tua lembrança.
Por nela depositar a esperança.

Sou aquele que tem de continuar
sem pensar em morrer.
Aquele que aqui continua a viver
para a tua recordação honrar.

E também sou aquele que para ti voltará.
Aquele que contigo ficará,
por todo o espaço do tempo
e por todo o tempo do espaço.

in 30 Mensagens de Amor e Uma Recordação


Apenas um vislumbrar!


Nude Beauty, originally uploaded by Katherine Chivers.

.

apenas um vislumbrar.

e as lágrimas são um novo universo
na ternura do teu corpo.

soluços acontecem
na tristeza da recordação,
que pede nova entrega.

quero honrar o teu templo.
como lábios abertos em retribuição.

entre nós, nada acabou.
há fogo a consumir
e tempo para sucumbir.

queres?


Ser(es)


Untitled, originally uploaded by hoodkitty.

.

Tens ideia do desejo que sempre provocaste?

Rendi-me às tuas ondas imediatamente.
Mas, o tempo passou.
Contudo, jamais te esqueci
ou deixei de te desejar.

Ainda hoje ouço o teu mar.

Aceita-me.
Em ti. Dentro de ti!


Agradecimento

A todos os que estiveram no Serão da Bonjóia, dedicado à minha escrita.

Soltam-se as amarras das vozes.
Notas expressam-se. Distintas!
E a tempestade abraça as marés.

Abrem-se as janelas de outrora.
Respondem ao choro de Mozart.

As lágrimas contidas são as que mais sofrem.
Contudo, velam o silêncio.

São os olhos que saciam o coração
ou é a redenção do beijo que o faz?

Aquele que se rende também é divino,
vertendo-se ardor e compasso,
unindo os pulsares da sala.

Os braços são pequenos.
Mas o meu coração cresceu!


Sessão de poesia – Quinta da Bonjóia

bonjoia


Sabores


Shadow Body, originally uploaded by Jayfer24.
.

talvez devesse estranhar o estranho acontecer da dinâmica no contorno dos pensamentos. talvez? mas, na essência, apenas se está a manifestar a fluência da estrutura da mente, pois é da sua natureza sustentar a perspectiva hermética do universo. porém, simultaneamente, noutras pausas, fluem os espasmos sensoriais do corpo, num estranho alfabeto que se afirma singular e que nos entranha no sentimento do sentir. são outras forças que se revelam e que aquecem o ânimo da carne para o tempo do futuro. talvez a formatação seja dual. talvez? contudo, este fluir de fluxos distintos, esta fluência comunicativa ininterrupta é a ligação que nos identifica com as vibrações do diapasão cósmico, a ponte que nos faz pó da terra e pó de estrelas e que alimenta o horizonte da esperança.
será estranho estranhar que o ser humano possa ser uma pedra de roseta? talvez. contudo, se assim o for, ainda não foi totalmente decifrada. logo, antes de tudo, somos curvas que derivam em expressão.

in Livro dos Pensares e das Tormentas, 155, 7 de Julho de 1998


Vozes d’outros (34)

“Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.”

Maria do Rosário Pedreira


Escrevo

escrevo ampp

 

escrevo.
escrevo as linhas do silêncio.
mas os pulsos estão secos, ressequidos pelo desejo da pauta de outrora.
o amor caiu e só o corpo é confissão aberta, em relativa existência,
almejando o ardor da sombra que consome os resquícios da memória.

terrena?
terrena é a realidade dos braços, a fronteira que previne a tentação do preto,
repensando o vestir do hábito.
já terna é a orla das faúlhas, o percurso da chama na pele,
rastilho das ilusões.

escrevo.
escrevo o reconhecimento da melodia, os poros que rasgam as notas.
mas as bocas são horas infecundas de limites que vergam a ausência da esperança.
já ninguém semeia ou colhe as brisas vespertinas.

e eu escrevo.
escrevo o trilho do pó, as cinzas dos lábios.

in Antologia da Moderna Poética Portuguesa (página 281)


Cumes


VFS_4794b&w, originally uploaded by vfsphotos.

armo os olhos contra o destino,

consciente do impacto da transferência e da impotência do meu horizonte,
mero epígrafe pré-histórico,
que ousa o fragmento da lembrança.
as marés movem-se para oriente,
velando pelo ardor dos sentidos, silenciosos,
que se sonham ressuscitação.

porém, murchar é a condição da expressão.

ainda acontece o auge matinal?


Brevidade / Briefness

open arms, originally uploaded by xgray.

 

a metodologia profana é o desvendar dos dedos.
frágil meio que versa a comunhão do Ser
sem perceber que a coexistência
é um labirinto de vaidades rendilhadas,
albergando breves compassos
plenos de momentos individualizados.

vozes são erigidas diariamente para a subsistência das duas esculturas,
mas é semanalmente que se contraem os voos.

planicies são ilusão.
não há cornucópias na dobra do horizonte.
e, no regaço do declive, os estios serão sempre sazonais.

=====

the profane methodology is the unveiling of fingers.
frail medium about the fellowship of being
unaware that coexistence is a maze of laced vanities,
harboring brief compasses
filled with individual moments.

daily voices are raised to the livelihoods of the two sculptures,
but it’s weekly that flights are constricted.

plains are illusions.
there’re no cornucopias on the horizon bends.
and, in the slope’s lap, summers will always be seasonal.


Vozes d’outros (33)

“I YEARS had been from home,
And now, before the door,
I dared not open, lest a face
I never saw before

Stare vacant into mine
And ask my business there.
My business,—just a life I left,
Was such still dwelling there?

I fumbled at my nerve,
I scanned the windows near;
The silence like an ocean rolled,
And broke against my ear.

I laughed a wooden laugh
That I could fear a door,
Who danger and the dead had faced,
But never quaked before.

I fitted to the latch
My hand, with trembling care,
Lest back the awful door should spring,
And leave me standing there.

I moved my fingers off
As cautiously as glass,
And held my ears, and like a thief
Fled gasping from the house.”

Emily Dickinson (1830–86)


Dia da Mãe ( Mother’s Day)


VFS_2473, originally uploaded by vfsphotos.

Para todas as Mães,
passadas, presentes e futuras,
que nos fizeram nascer.

O Fruto do Amor é entre Vós.
Obrigado!

=====

For all Mothers,
past, present and future,
that gave us existence.

The Fruit of Love is within You.
Thank you!

 


Futuro(s)

VFS_1686, originally uploaded by vfsphotos.
 

no embalo das águas
renovam-se as memórias do tempo,
passado,
na contemplação
que se funde presente.

haja o sonho. haja!

e o futuro realizar-se-á.


Não mais

VFS_2117, originally uploaded by vfsphotos.

 

Se estivesses ao meu lado,
abraçar-te-ia.
Encostar-me-ia a ti,
para escutar o teu coração.

E,
nas praias desertas,
as ondas não mais seriam orfãs.

 

in Sentir


espelho


VIC_2104, originally uploaded by vfsphotos.

 

nasci velho.
toda a vida recordei.

ainda o faço.

mas jamais tive a ilusão do chão ser imóvel!

 


Vozes d’outros (32)

Há Palavras que Nos Beijam

“Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.”

Alexandre O’Neill (1924-1986)


Ómega

The Temple of Poseidon, originally uploaded by photogon.

 

 

penso no princípio.
na chave em voz. no quarto que origina a vontade.
penso no principio porque não sei se o escrevi.
tantas são as certezas como as loucuras.
e rio no quarto. sozinho. no embalo do eco
onde se desfralda a língua do silêncio.

mas há vozes audíveis!
rompidas pelos desertos em concepção
na alegoria do quarto já percorrido,
quase preenchido em vazio,
que por um acaso – triste, alguns dirão –
é ocupado pelo choro dum bebé recém-nascido,
no desfragmento do desejo.

talvez o tempo seja sustido por um suspiro. talvez?
no entanto, propago-me.
e acontecem incógnitas sensoriais nas equações espaciais,
vibrações que moldam deltas em fluxo ritmado,
numa sinfonia de sossegos compassados.

ah! trapezistas audazes.
que se abraçam no etéreo, solto,
na vigilância da harpa indomável.
também quero um desfragmento inteiro.
também quero voar num espaço sem rede.
talvez assim consiga recriar o instante.
ou sair pelo caminho mais curto.

mas as paredes continuam caladas
e a linguagem não exprime o sentir.
como queria retornar ao local do encontro!
mas o quarto não é um talvez,
nem esconde deliberadamente a fechadura.
sem escrita não há memória.
sem voz, que haverá?

e eu penso no princípio.
penso no princípio porque desejo o futuro!

 

in Diálogos, Epístolas Inertes


depois da pátria


Greece Naxos Apollon Temple, originally uploaded by j0rune.

 

depois da pátria é o futuro porque pátria foi o que concedemos
a terceiros que nos representam, esquecendo-se donde vieram.
mas até o futuro pode ser questionado
se os comportamentos não mudam.

e os rostos continuarão a perder a face da vergonha,
livremente, em plena vontade,
felizes pela ascensão às migalhas do domínio.

como se não houvesse subjugados,
reina a ilusão da permanência.
todos somos serventes,
ó companheiros do infortúnio.

é necessário abater os pedestais
para que o espanto não padeça mudo!

(13 de Maio de 2011)


Vozes d’outros (31)

Aprender com as palavras a substância mais nocturna

 

“Aprender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a própria sede
talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria.”

 

António Ramos Rosa in O livro da ignorância


Poetas

 

os poetas são dragões azuis que
enchem as auroras dos sonhos,

estrelas que tombam em repouso,

Fénix que renascem em mãos despojadas
na entrega ao amor das guardiãs,

em desejo do futuro.

 


Suicidam-se as aves?


DSC_2528, originally uploaded by vfsphotos.

 

suicidam-se as aves?

ou procuram a navegação no passado?

algumas entregam-se ao despojo das cinzas,
num mitológico retrato do futuro,
que eleva o exemplo ao inalcançável.

mas, suicidam-se as aves?

 

porque não voamos?


Reflexos

 

espelhos de água,
almas antigas.

veios tubulares suspensos
aguardam o ascender das lágrimas tombadas.
sonhos que regressam ao céu,
pelos cachos em profundo azul.

retornam os cruzamentos passados
como coroas em silêncio resplendoroso,
ou rubis incrustados em imagens
na escultura que procura o coração.

mãos despojadas sucumbem!
ao ardor da visão desejada,
lamentando o desnudar do esquecimento.
e o sangue é origem.
é o sangue que dá vida!

no mármore arrefecido,
em todos os instantes da criação,
ainda brilha a auréola primordial.
faces renovam-se.
hipóteses multiplicam-se
só a espécie permanece indiferente!

água em espelhos,
almas perdidas.

 

in Diálogos, Epistolas Inertes


Vozes d’outros (30)

Dá-me de beber …

 

“Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens… que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.”

 

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)


verbo azul

Manuela Salema – Livro plantado – 2007

 

uma pena solta.
um ramo suspenso.
uma página aberta ao futuro.

Deusa do jardim das safiras,
levitas no lago etéreo do desejo,
na amalgama das eras,
entre as encostas do meu peito
e mares em índigos sonhados.

floresce uma rosa, qual semente no coração.

marcas do tempo subsistem,

mas o Verbo da criação
é o livro azul da origem,

onde somos In-finito!


Ó Moral

 

Ó moral,
que as amarras à ética
no correr dos tempos perdeste,
foste tu que te corrompeste
ou o criador quem te corrompeu?

E a lição que sempre prometeste?
Será que chegou a ser o que pretendeste
ou foste prática que, desde o inicio, em vão prometeu?

in Homens, Deuses e o Universo


Amapolas


Amapolas, originally uploaded by ·GeorG·.
 
 

a inevitabilidade da crença deve conduzir ao rasgar da fé.
nada é perfeito, nada fica incólume após o toque humano.
e sente-se a raiz do choro,
cujo advento faz a proclamação do trilho terreno,
que alimenta a condição mortal.

nos momentos em que os halos vermelhos se erguem
para a redenção,
existência acontece pelo verter das lágrimas
que sucumbem às echarpes em luz solar.

talvez a ilusão seja uma necessidade?
mas, apenas o sonho é seguido,
apenas o sonho propícia a expiação.

ser ou dever ser,
é a constante do diálogo.

que produz as cores do horizonte.

 


Dia da Mãe / Mother’s Day


IMG_4104, originally uploaded by vfswa.

 

Num segundo,
um som,
uma anunciação:
choras!
e existes para o mundo.

Ao ver-te,
com ternura, recebe-te
e no silêncio duma prece,
[a Deus] agradece.

Mãe!
Num momento de dor
gera
a vida com amor.

Mãe!
Haverá alguma sensação
que ofereça maior protecção?

 

In a second,
one sound,
an announcement:
one cry!
life borns into the world.

Seeing you,
with tenderness, welcomes you
and in a silent prayer,
[God] thanks.

Mother!
in a moment of pain
generates
life with love.

Mother!
Is there some sensation
that offers greater protection?


Rebanhos


Sheep may safely graze, originally uploaded by Photoma’s World.

 

ventos escorrem suaves.
mas, ao largo, nada se comove.

nem os agrados macilentos!

talvez haja improbabilidade nas dinâmicas?
ou mera pertença esquiva?

as interpretações mais solitárias
são vociferadas pelo conjunto.

há porta-vozes mordazes!
airosamente plantados sem escrutínio.
livres de escrúpulos e dos tempos idos,
plenos na sobrevivência instintiva.

não há resistência quando as perguntas ficam inertes.

no dialogo suspenso, o ciclo é desmembrado.
tudo é réplica interrompida.
mesmo aqueles que não o julgam, são marionetas.

quantas ovelhas são realmente livres?

 

in Sons Urbanos


Vozes d’outros (29)

Subtileza

 

“quão subtil pode ser o espinho que sinto cravar-me os olhos,
a indelicadeza de uma não palavra no teu poema desesperado,
o pôr-do-sol derramado no longe a que te votas.
a subtileza é um gesto demorado,
como câmara lenta de uma imagem que nasce no centro das mãos,
estames que inspiram olfactos de terra,
ínfimas pétalas que se sobrepõem numa disputa da tua mirada.
mas não sou eu que me ofereço, são elas!
eu, serei subtil como o silêncio interior dos teus pensamentos
que te rondam nos segundos vagos
e te ocupam o desejo.”

 

Luísa Azevedo


Estrela-do-mar

 

só os corpos sofridos atingem a redenção das águas.

vida sem dor é existência ser ardor
e os rasgos fazem pulsar o coração

onde gotas vermelhas contam o tempo
que mede o horizonte da iris.

a oscilação do desejo depende
do sussurro que chora pelo azul.

todavia, a palpitação dos grãos é real!

 

 


Dia do Pai / Father’s Day


Father& Son, originally uploaded by Christolakis.

 

Não sei
porque me é difícil
mostrar
o quanto és
para mim,
no meu coração.

Não sei
porque é tão difícil
construir,
as pontes que permitam
reforçar,
a nossa união.

Pensei
que as divergências
fossem
simples de ultrapassar,
apenas,
próprias
do conflito da geração.

Só sei
que
sem ti nada seria,
contigo,
tudo sou.

I don’t know
why it’s so hard,
show
how much you’re
in my heart.

I don’t know
why is so difficult,
build,
bridges that allow
the strengthening
of our union.

I thought
that the divergences
were
simple to overcome,
mainly,
due
to the conflit of generations.

I just know
that
without you I’m nothing.
With you,
I’m everything.

 


Estética


Sunflowers, originally uploaded by Eric E Haas.

 

“A beleza é a expressão do infinito no finito” – Schelling

Arte,
ciência e religião
são grandezas numa dimensão superior.
Manifestações individualizadas pelo colectivo particular.

O valor da pureza inteligível,
o estádio supremo da estética,
os limites a atingir,
são o Bem e a Verdade.

Eis onde o individual se funde no contínuo!
Eis onde o todo é compreendido!

in Metafísica [Poética]

 


Vozes d’outros (28)

If

“If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
…Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream–and not make dreams your master,
If you can think–and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings–nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And–which is more–you’ll be a Man, my son!”

Rudyard Kipling – 1865-1936


Agradecimentos – 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação – Porto

Na tarde de hoje, 12 de Fevereiro de 2011, apresentei o meu quinto livro de poesia – 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação – na presença de famíliares e amigos, todos apreciadores de poesia. Melhor não seria possível!

Agradeço a todos os presentes, fisicamente e em espírito, e reitero a minha gratidão ao meu editor, Jorge Castelo Branco, que acredita nas minhas palavras, à prefaciadora, Maria Luísa Malato, à posfaciadora, Hercília Fernandes, poetisa brasileira, e à Luísa Azevedo, que gentilmente deu voz aos meus poemas.

Numa ténue tentativa de retribuição, reproduzo algumas das palavras que me dedicaram.
Muito obrigado!

Estamos aqui reunidos para o lançamento deste livro, já prometido, aquando do lançamento em Outubro do ano passado de “Diálogos, Epístolas Inertes”. Oportuno dizer que seria este o livro que o autor mais vontade tinha de ver editado, na altura, mas subjugado foi por motivos menos românticos e mais materiais: Fevereiro e o Dia dos Namorados.
Como tal, achamos oportuno trazer a público, nesta data consagrada ao amor, um poemário que, no nosso entender, nos reconcilia com a poesia amorosa, empenhada que está, ultimamente, ela e os seus autores, em abordagens piegas, sensaboronas e insípidas, por um lado, ou dramaticamente pungentes, perpassadas de dores tais que fará o mais desprevenido dos leitores desejar-se beato a salvo de tão horriveis flagelações.
Oportuno dizer que escrever poemas de amor é tarefa difícil à qual nunca me atreveria; acabaria desde logo com a minha racionalidade. Depois, pela responsabilidade da tarefa: todos bem sabemos que o amor não pode ser empiricamente comprovado nem tão pouco demonstrado, apenas sentido. Ora, o efeito de um livro de poemas de amor, por consequência, será, idealmente, a capacidade do poeta em projectar por palavras e imagens poéticas algo em que o leitor comum se reveja, solidária e apaionadamente. Assim, estes 31 poemas, que o poeta escreve a destinatária certa, poderão proporcionar mês inteiro de felicidade a outro alguém.
Muito obrigado
Jorge Castelo Branco

Para uma Poética do Enamoramento
Por Maria Luísa Malato

Para falar de amor é preciso procurar as nossas origens, ir até ao mais fundo, ao mais remoto de nós. Os nossos primeiros gestos, todos desajeitados, as nossas primeiras palavras, todas novas. As primeiras lembranças que temos de ter pedido alguma coisa qualquer coisa que sabíamos fazer-nos falta. É aí que vamos encontrar o que dará origem à poesia e ao amor, é aí que vamos poder fundar a poética do enamoramento. Os académicos do século XVIII preocuparam-se muitas vezes com estas minudências: que língua falavam os homens quando começaram a falar?, que sons lhes saíram da boca que não fossem gritos vissem senão cadelas e velhas, uma palavra aramaica, francesa ou alemã lhes sairia dos lábios, demonstrando a antiguidade da religião judaico-cristã ou o primeiro testemunho da existência da nação. A maior parte das crianças morria antes de atingir sequer a idade da fala, por falta de condições ou por falta de atenção, sabendo-se hoje que levam ambas a morte quase certa. Nas raras que sobreviviam, os solícitos cientistas invariavelmente encontravam o que procuravam, uma palavra que reconheciam, quase sempre com “mm” e “aa”, que afinal bem podia ser a imitação dos animais com que as crianças conviviam. Mas talvez a explicação mais fácil se encontre no corpo. O som “a” é a vogal mais fácil de pronunciar pelo aparelho fonador: a boca aberta, a língua baixa, o ar sai passando intacto pelas cordas vocais. O “a” sai de nós com a mesma naturalidade do espanto, da gargalhada ou do grito: aaahhh. O som “m” é a consoante que mais se lhe assemelha, mas o ar ai, com os lábios levemente cerrados, bilabiais, sem que haja necessidade sequer de premir os lábios, mas fazendo vibrar as cordas vocais, soltas: é como se fosse um longo gemido, de prazer ou de queixa: mmm. Juntos, levemente nasalada a vogal, saem com o véu palatino descontraído, mal fechando as fossas nasais. As mães fizeram certamente batota quando reservaram para si estes sons na maior parte das línguas do mundo: quase todas com “m” e “a”, “m” e “e” central e médio, ainda ou sobretudo nos diminutivos carinhosos: mãe, mamã, madre, mummy, mother, muther, moether, moder, umame, umme, man, mat, mam, me…
Para dizermos “pai”, ou ainda “papá”, o bebé aprimora a cavidade bocal. Já sabe jogar com os sons, já fez bolinhas com a saliva, divertiu-se a acumular o ar junto aos lábios cerrados com força e a de repente soltá-los como balão que se pica: pppp, bilabial como o mmmm, mas agora oclusiva e sem a vibração das cordas. Os sons que designam o pai são já sinal dessa força que é preciso ter para representar a “virilidade” muscular. À naturalidade com que pode sair-nos da boca a palavra “mãe” corresponde a igualmente necessária disciplina com que nos sai a palavra “pai”. Talvez não seja por acaso que muitas línguas opõem a naturalidade silenciosa da palavra “amor” à disciplina violenta da “paixão”. Nascemos do pai e da mãe. Como a poesia nasce da união do amor com a paixão, um doce, outra violenta, curiosamente trocados os artigos, como se o “o” do amor fosse a ponta negra do yang, diurno, e o “a” da paixão a ponta branca do yin, nocturno, alertando-nos para o quão falíveis são as divisões entre o masculinno e o feminino. Nos poemas de Vicente Ferreira da Silva, é também evidente essa mesma tensão: “Acontece poesia em ti/ sempre que olhas/ afirmando uma vida pulsante (…) Acontece poesia em ti/ sempre que ris/ criando umas curvas no rosto (…) Assim/ quando/ eternamente te penso (…) acontece também/ poesia em mim” (p. 13).
Para falar de amor é preciso sabermos que não nos bastamos. Toda a nossa identidade, construída laboriosamente á volta do “eu” e do “tu”, como se duas coisas autónomas fossem no universo, se desejam agora fundir num estranho “nós”, um singular-plural em que o “eu” e o “tu” se perdem ou se não conseguem bem encontrar: “Eu sou eu/ por tu seres./ Sou!/ Sou tu e eu/ sou nós./ Serei/ por ti/ nunca mais eu” (p. 25). O não nos bastarmos, porém, tem os seus perigos. Os perigos do amor, que são os mesmos que a guerra tem e por isso se dirá sem dúvida que no amor e na guerra vale tudo. Há no amor um dissimulado colonizador do “tu” que deseja tomar posse do seu território, o território do “eu”, filho dilecto dos deuses. Posse, bandeira, padrão, “pertença”: “Explorar – respondi./ (…) Quero o universo do teu ser,/ conhecer/ Para assim/ com uma pequena parte de mim/ o preencher” (p. 39). E por isso o“nós” está sempre por fazer ou refazer, exigindo “Viagens”, “Transformações”, “União”, “Dádiva”: “Procuro-te/ incessantemente./ Desejando/ que sim” (p. 45).
Para falar de amor é preciso enfrentar a desordem do discurso. O amor é um querer incompleto, por fazer, e por isso ao amoroso incomoda a frase feita, a sintaxe ordenada e fechada, como se o mundo estivesse todo feito. O amoroso sabe do seu estado fragmentado e nada mais lhe saem da boca, nada senão fragmentos, como ele estilhaços. Frases nominais, sem sujeito ou predicado, repetições, tentativas sempre imperfeitas. Busca-se em vão o adjectivo exacto, o termo rigoroso para o caos: “novos,/ opulentos,/ partilhados,/ queridos,/ responsáveis,/ sinceros,/ tentadores,/ únicos,/ variados,/ Xpto’s/ zodiacais./ És uma sucessão…” (p. 41). As palavras são peças de um puzzle, ainda sem um sítio certo: “A paz que me dás./ O amor que me tens./ O bem que me fazes” (p. 67). O amador demora-se nas hipérboles, só elas lhe parecem verosímeis, porque toda a atenção amorosa se centra em pormenores, peças soltas desmedidamente ampliadas: “Eu me ouso” (p. 61).
Para falar de amor é preciso amar, ainda que mal. Mesmo se para amar não seja preciso falar de amor e ele somente o peça como o código pede a formulação da lei, uma lei performativa, que seja real porque diz que é real: “Mas nunca pensei que as minhas palavras pudessem ser razão./ É por isso que me desprendo da mudez./ Porque amo o verbo” (p. 76). O amor ilude-se com as “declarações de amor”, as “promessas de amor”, as palavras. E por isso busca um estatuto literário, de estranhamento instituído: entre a declaração de amor, “Amo-te!” e o reconhecimento de “Ser amado” se instale um “Âmago” de discussão, âmago oco porque não resolvido pelo discurso: “Tu perguntas? Eu penso!/ Não sei porque […]/ Não sei porque […]/Não sei porque […]Não sei porque […]/ Tu perguntas? Eu respondo./ Não sei explicar […]”. Como também por vezes se basta com a mais comum das declarações: “Amo-te/ em todos os momentos./ Amo-te/ mesmo nos momentos/ que não são momentos/ nem pausas, porque até nas pausas te amo” (p. 65).
Para falar de amor é preciso desafiar o nosso manifesto interesse em ser amado. É aceitar afinal não ser amado e amar desmedidamente sem retorno, sem paixão e sem jogo, amor coxo, é certo, órfão de pai, mas fiel a um contrato injusto. Ainda assim naturalmente doce e fluido. Significativamente “30 mensagens de amor e uma recordação” são 31 dias de um monólogo que busca constantemente o diálogo, interpelando o outro, suplicando, recordando, prometendo, afeito a um “amo-te” que se transforma em “amei” ou “amar-te-ei”. Dádiva em todo o caso: “E seremos criadores do tempo. Nunca mais sozinhos ou transviados, mas entregues ao bater do coração, no embalo do sentimento que nos faz e preenche” (p. 82).
Para falar de amor é preciso falar do caminho que vamos abrindo ao caminhar. Caminho nunca feito, sempre a repetir, até o trigo e o joio desistirem de tapar o âmago de onde todos nascemos. Os nossos primeiros gestos, todos desajeitados, as nossas primeiras palavras, todas novas. As primeiras lembranças que temos de ter pedido alguma coisa, qualquer coisa que sabemos fazer-nos falta.

E, por fim, reproduzo uma carta que a Hercília Fernandes escreveu como resposta às 4 cartas que são oferecidas no livro, todas elas começando por: Minha Querida.

Caro Vicente,

sinto as tuas palavras como ondas eletromagnéticas, tamanhas as forças a nos atrair os sentidos, os pensamentos, convidando-nos à vida, à beleza, ao multiverso.
Imensos e ínfimos são os teus sentires. Assim como as laudas que, ora unidas, separam-nos os Oceanos…
Falas-me: “Cada um de nós cria os seus mecanismos para lidar com os sentimentos”. E metaforizas: “a geografia é uma esquina escondida”.
Bem sinto a tua ‘emoçãofísica’… A tua metáfora alçada na simplicidade da expressão, simultaneamente lapidada no complexo festim dos conceitos quânticos.
O sentimento, afetuoso amigo, sopra-nos contínuas e descontínuas proximidades, mas as distâncias consumem-nos as ânsias quando edificadas sob abismos.
Pois há areias em nossos olhos. Mudez em nossas línguas. Surdez em nossos ouvidos…
Há, ainda, rudeza em nossas mãos que não dispõem perspectivas às infinitudes do toque, mostrando-nos incapazes de ultrapassar fronteiras, os imediatismos das sensações, os dedos…
Dizes, meu querido, tens pensado a palavra sentida…
É essa palavra que procuro expandir-te. Somente assim poder-me-ia alcançar-te, unir-me a ti nesse sonho tardio, móvel, acordado…
Pois essa palavra interessa-nos à poesia. É essa palavra, como bem disseste, origem do pensamento sentido; guia-nos aos sonhos e confere unicidade ao instante poético, por isso mesmo ressoa e repercute nos sentidos, sentimentos e conceitos dos que a lêem, transformando-os.
Posto ser ancestralidade e infinitude. Élan entre memória e imaginação: devaneio.
E é no devaneio [poético] que nos tornamos Uno. Abrimos (des)caminhos à múltiplas potencialidades, vivências estéticas, experiências cósmicas, capazes de nos restituir a plenitude de nossa primeira constituição.
Falar-nos-ia um filósofo sonhador que o poeta não recua diante um gesto cósmico. Em sua ardente memória, o poeta sabe sê-lo um gesto da infância: como duvidar de um amante que por amor a sua amada ambiciona “apanhar a lua ”?…
Não temas em atrever-te, meu querido. As tuas palavras são melodias emergidas da solidão do poeta, do silêncio inaugural em que ressoam as “cordas da Harpa do Cosmos”. Por isso há – como pretendera a engenhosidade do Físico -, de apanhar-te a Lua, oferecê-la à tua Amada, unificando os corpos que, celestemente, habitam-nos os sonhos.
És um sonhador. Custa-te a longevidade do tempo e o curto espaço de separação… Tua alma clama poesia, daí a natureza de tua ‘emoçãofísica’, de tua ardente recordação, de tua saudade. Porém, tu sabes: “a lua, esse grande pássaro louro, tem seu ninho nalguma parte da floresta ”.
E, nessa parte ínfima, há realidades (im)possivelmente críveis…

Com a sinceridade dos afetos,
Sua Querida


30 Mensagens de Amor e 1 Recordação

Convido-vos para o lançamento do meu mais recente livro,

 

 

Sábado, 12 de Fevereiro, 16:30, na Reitoria da Universidade do Porto

Apresentação pela Maria Luísa Malato
Declamação por Luísa Azevedo


Acontece Poesia


Beyond The Sea, originally uploaded by Bill Adams.

 

Acontece poesia em ti
sempre que olhas,
afirmando uma vida pulsante,
magnífica,
como
o cintilar das Estrelas no céu,
o resplendor brilhante do Sol
nos teus doces
e meigos olhos.

Acontece poesia em ti
sempre que ris,
criando umas curvas no rosto,
sensuais,
como
os campos de searas ao vento,
as ondas nas águas de um lago
ao sabor da quente
e harmoniosa aragem do Verão.
 
Acontece poesia em ti
sempre que andas,
alimentando o nascer de sentimentos,
sinceros,
como
o delicado desabrochar de uma flor,
o despontar do amanhecer da vida
no enternecido ser
do meu coração.

Assim,
quando
eternamente te penso,
te sinto,
te vivo,
por fim
acontece também
poesia em mim.

in 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação


Vozes d’outros (27)

Com cinco letras apenas

 

“entre doces
avelaneiras
sob os açafroados
cálices do fruto
um pequeno acanto
disposto
do fundo da alma
a tantos sacrifícios
como os do salmão
da sabedoria
que
engoliu as nove avelãs
mágicas
como dizem os entendidos
e se tornou o aliado
dos adivinhos
a sua vibração
tão aguda e eléctrica
que traz consigo
a mais criativas das inspirações
essa é a planta da sabedoria
e Leucípe
leva-a consigo
quando procurou o pai e a irmã
e os encontrou
segundo as instruções
do oráculo
ou seja
vestida de sacerdote
e assim
foi vista e amada
e daí nasceu a trama
o prodígio
para que mais uma vez
o mundo continuasse
igual a si mesmo
apenas
um pouco mais gasto e tonto
não canto.”

 

Alberto Pimenta in Prodigioso Acanto


Lambe-Botas

corpos descalçados anunciam os sexos.

confessadamente!

e não há reconhecimento
…ou qualquer pudor em disfarce.

são as línguas que perfazem as faces,
desvirtuando o colo da sociedade,
onde a languidez errante da adulação,
nutrida em baba ressequida,
expressa sons sem tons.

nem o olhar tem voz!

porém,
quando as botas são mimadas,
em lambidelas ferozes e bafos sôfregos,
não existe realidade amarga.

há melhor do que uma língua sem boca?

in Sons Urbanos


Atitude

. 
Mirror Image, originally uploaded by siskokid 

 

“… Raramente sabemos do que somos capazes até nos depararmos com as situações …”
VIRGÍLIO, poeta latino (70-19 a. C.)

Na altura de enfrentar a situação
oxalá me seja permitido ver,
uma cabeça erguida
na face lisa do espelho
                                             reflectida.

E que a postura vista
não seja ao orgulho devida.

 

in Espelhos e Outras Faces

 


Sina


The Low Road, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

todo o percurso é um rascunho
que se executa na sensação do decorrer,
uma tentativa em exultação.

é normal o acontecer das camadas,
o renovar da tez,
no desperdício dos instantes.

só a mão cria o vazio do além,
num suspiro transpirado
que cede à sede do apelo:
irás descansar!

mas caminhamos a desejar o inverso do sentido,
num sentido que se versa aos pés.

e o véu lúgubre não é ilusão.
é a promessa do renascer.

eis porque o sonambulismo inflama a chama do que se fez!
eis porque se aguarda o paraíso!

 


Vozes d’outros (26)

Le Reflet de l’Optimisme

 

“Commencer au début de la fin
S’arrêter au milieu de la main
Attendre un sens singulier
Trouver l’ultime originalité

Rien n’est vrai pendant l’été
Tout est trop beau, trop coloré
Rien n’est clair et ça fait le tour
Tout n’est que réel lors de l’amour

Finir jour après jour après temps
Lire dans le vent un mot constant
Rêver d’un concept désordonné
Susciter la dernière agrammaticalité

Mais rien n’est frais ni éclatant
Tout est trop mat, trop attristant
Rien n’est pur et ça reste pareil
Tout n’est que vécu lors du sommeil”.

 

Isabel Jorge Catarino


Lar da Espécie


The gate of all nations, originally uploaded by Shapour_3.

Nações! Raças!

Palavras vãs e fracos credos.
Fúteis criações do homem,
promotoras de divisões,
ameaças e medos.

Brancos, amarelos,
vermelhos ou pretos,
não importa nem interessa.
Somos da mesma espécie!

E não somos daqui ou dali,
deste ou daquele.
Somos filhos da Terra
e vivemos no mesmo lar.

Antes de ser branco, amarelo, vermelho ou preto,
o homem é espécie!
Antes de ser cidadão,
o homem é homem!

E não pode ser homem ou cidadão
se continuar a desrespeitar a terra.
Porque o lar da espécie é o mundo!
Que morre, lentamente,
entre as disputas das nações e das raças.

Nations! Races!

Vain words and weak faiths.
Man’s futile creations,
promoting divisions,
threats and fears.

White, yellow,
red or black,
neither is worth or matters.
We are of the same species!

And we are not from here or there,
from this or that.
We are children of the earth
living in the same home.

Prior to being white, yellow, red or black,
Man is species!
Prior to being a citizen,
Man is man!

And he can not be a man or citizen
if it continues to disrespecting the earth.
Because the world is home of the species!

Which dies, slowly,
between disputes of nations and races.

in Letras, Palavras e Linhas: Gestos pela diferença (2005)


Agradecimentos – Diálogos, Epístolas Inertes – Lisboa

No passado domingo, apesar das circunstâncias originadas pela Cimeira da NATO, apresentei o meu último livro de poesia em Lisboa, num ambiente intimista, rodeado de amigos, meus e da poesia. Não podia pedir mais. Nem peço!
Agradeço a todos os presentes e reitero a minha gratidão ao meu editor, à Maria Azenha, cuja voz deu e dá vida aos poemas, e à Maria do Sameiro Barroso, que verdadeiramente me surpreendeu nas palavras que dedicou, a mim e ao meu livro, e que aqui, ainda emocionado, reproduzo.

Muito obrigado!

 

“DIÁLOGOS, EPÍSTOLAS INERTES”

Vicente Ferreira da Silva

PALAVRA, (DES)ENCANTO (IN)FINITO

Neste livro de poesia, o quarto de Vicente Ferreira da Silva, a palavra constitui-se a partir do próprio movimento da criação, suspensa entre cânones, símbolos, imersos na vastidão da sua génese. Respiração original, fonte e redenção fundam as suas linhas na ôntica espiral que liga o ser e o cosmo. O universo abre-se, subitamente, para celebrar o amor, o orvalho, a harmonia, a fugacidade dos seres. Entre fingimento e verdade, a procura mais íntima apreende o uno, o múltiplo, o vazio, o plural, a partir do sonho e da metáfora onde a realidade se desagrega e a matéria poética se transforma.
Os “mitos”, os “ritos”, as “mesas de café” convivem lado a lado. Topázios de luz percorrem esta escrita, balizando o eu e o infinito num quotidiano talhado entre o ser e o nada. Harmonizam-se descontinuidades, opostos. Cada civilização cria os seus deuses. Na sua ligação com o transcendente, o homem confronta-se com a esperança e com o logro. À criação dos deuses, soma-se a existência dos ídolos e dos deuses menores. É com eles que “as criaturas” devem partilhar os “pés de barro” (p. 38).
Portadora de uma mensagem lúcida e desenganada, esta poesia verte, no entanto, em si, “sangue iluminado/cantos nocturnos” (p. 39) no espaço da identidade consubstanciada no “lugar-casa” (p. 39), habitação que o amor potencia a tudo se sobrepondo na sua totalidade. Os poemas nascem de novas ondas que sempre se renovam e a infância acorre:

“A nossa infância foi aqui!
aí criamos estrelas” (p. 47).

A tradição, retomada no segundo poema do livro, remonta aos alvores das civilizações, à beira do primordial, abarcando “hieróglifos”, impressos nas “enseadas” onde:

“as nuvens são hieróglifos magnéticos
suspensos do tempo azul” (p. 15).

O diálogo não é apenas o movimento autor para o leitor, mas uma leitura entre outros tempos: “inconstante é o diálogo/entre as eras” (p. 49). Conhecer o passado? Conhecer o presente? Entender o presente, conhecendo o passado? Este é o movimento que urge porque “permanente é o desejo de criação” (p. 49). É nele que o caos, amálgama informe, cria novas harmonias, como se pode ler no poema “Vida”:

Dançam os tons das eras nos espasmos da criação.
instantes únicos,
fazem o colectivo do tempo.

nem os receios da génese se afastam.

quanta beleza há no caos?(p. 18).

No espaço do texto, o universo dita a medida das palavras, que o quotidiano estreita e onde o desencanto se afunda. Algo como o próprio tema da “morte da arte” ( Umberto Eco, A definição da Arte (La definizione dell’Arte, U. Mursia & C.,1968, 1972), tradução de José Mendes Ferreira, Edições 70, Lisboa, 2008, p. 123) parece pairar, nos paradigmas da modernidade, dos quais emergem as novas poéticas. É neste caudal, que Vicente Ferreira da Silva inscreve a sua inquietação ontológica, reinventando formas, conteúdos e normas, seguro que, tal como expressou Umberto Eco:

«Não pensamos através do corpo, mas com o corpo. A Beleza não é um pálido reflexo de um universo celeste que entevemos com esforço e realizamos imperfeitamente nas nossas obras: a Beleza é esse quê de organização formal que sabemos extrair das realidades que nos tocam dia a dia.» (Umberto Eco, A definição da Arte, p. 201).

Nesta poética, em que “todo o silêncio nos faz tempo supremo” (p. 50), a coerência institui-se no diálogo com a beleza, reconstituindo o mundo intacto e primordial dos afectos e dos seres. Tal como definiu Jean Cohen:

“O mundo poético é o mundo humano e a poesia é o mundo que o descreve na sua verdade.” [Jean Cohen, A Plenitude da linguagem (Teoria da poeticidade) (le Haut Langage: theorie de la Poeticite) Coimbra, Almedina, 1987, p. 157].

Na inquietação que Vicente Ferreira da Silva revela na sua poesia:

“as cartas escrevem-se em letras transparentes
e reescrevem-se permanentemente” (p. 52).

O processo criativo é formulado com toda a dor e angústia que subjaz aos processos naturais de crescimento, patente no poema “palavras-lágrima” (p. 57). Na realidade:

“ninguém sabe por que se medem as distâncias da separação
ou porque choram os diamantes pelo tempo de carvão” (p. 66).

Consciente dos limites do homem, mas desperto também para outros níveis da realidade que a poesia desperta, no que Paul Valéry caracterizou como o estado poético (Paul Valéry, Discurso sobre a Estética, Poesia e Pensamento Abstracto, tradução Pedro Schachtt Pereira, Lisboa: Vega, 1995. p. 63), com os quais a escrita se estabelece como uma ponte ou uma continuidade:

“a morte é um ciclo que se desenrola em simultâneo vigor.
apenas o som é diferente do fulgor da vida. (p. 75).

Segundo Emmanuel Lévinas: “O tempo não é a limitação do ser, mas a sua relação com o infinito. A morte não é aniquilação, mas questão necessária para que esta relação com o infinito se produza.” (Emmanuel Lévinas, Deus, a Morte e o Tempo (Dieu, la Morte t le Temps), tradução e nota de apresentação Fernanda Bernardo, advertência e posfácio Jacques Rolland, Coimbra: Almedina, p. 45.).
Por isso, às “cinzas. cinzas sem Fénix” do poema que abre o livro “Cânones”(p. 13) que remetem para o desencanto da realidade do quotidiano, vão-se sobrepondo:

“estrelas que tombam,
rasgam a noite
como Fénix prometidas.” (p. 47).

Pela mediação poética, segundo Paul Valéry: “O poema não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer das cinzas e para infinitamente se tornar naquilo que sempre terá sido.” (Paul Valéry, Discurso sobre a Estética, Poesia e Pensamento Abstracto, p. 79).
Nas suas potencialidades, a poesia transfigura e transforma, tal como expressa Vicente Ferreira da Silva, enunciando o eixo sobre o qual se desenrola toda a criação:

“toda a pedra se abre!
dela irrompe a metamorfose do ouro (p. 61).

Na formulação de espaços sucessivos, o poema transcende o endo-espaço do eu poético, dilatando-se numa sucessão infinita. Ao poema “Morte” (p. 79), segue-se o último poema do livro “Peregrinação” (p. 80).
Para Emmanuel Lévinas: “A morte não é então o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta.” (Emmanuel Lévinas, Deus, a Morte e o Tempo, p. 70)
E Vicente Ferreira da Silva interroga: “É verdade que o arpão das trevas é complacente?” (p. 79).

Maria do Sameiro Barroso

Vicente Ferreira da Silva
“Diálogos, Epístolas Inertes”
Edium Editores, 83 páginas.


Diálogos, Epístolas Inertes (Lisboa)

 

Convido-vos para a apresentação do meu novo livro

 

 

Domingo, 21 de Novembro, 15:00, no Hotel Real Palácio (Rua Tomás Ribeiro, 115)

Apresentação pela Maria do Sameiro Barroso
Declamação por Maria Azenha