Vozes d’outros

Vozes d’outros (35)

“Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.”

Rui Costa (1972-2012)
a nuvem prateada das pessoas graves

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Vozes d’outros (34)

“Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.”

Maria do Rosário Pedreira


Vozes d’outros (33)

“I YEARS had been from home,
And now, before the door,
I dared not open, lest a face
I never saw before

Stare vacant into mine
And ask my business there.
My business,—just a life I left,
Was such still dwelling there?

I fumbled at my nerve,
I scanned the windows near;
The silence like an ocean rolled,
And broke against my ear.

I laughed a wooden laugh
That I could fear a door,
Who danger and the dead had faced,
But never quaked before.

I fitted to the latch
My hand, with trembling care,
Lest back the awful door should spring,
And leave me standing there.

I moved my fingers off
As cautiously as glass,
And held my ears, and like a thief
Fled gasping from the house.”

Emily Dickinson (1830–86)


Vozes d’outros (32)

Há Palavras que Nos Beijam

“Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.”

Alexandre O’Neill (1924-1986)


Vozes d’outros (31)

Aprender com as palavras a substância mais nocturna

 

“Aprender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a própria sede
talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria.”

 

António Ramos Rosa in O livro da ignorância


Vozes d’outros (30)

Dá-me de beber …

 

“Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens… que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.”

 

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)


Vozes d’outros (29)

Subtileza

 

“quão subtil pode ser o espinho que sinto cravar-me os olhos,
a indelicadeza de uma não palavra no teu poema desesperado,
o pôr-do-sol derramado no longe a que te votas.
a subtileza é um gesto demorado,
como câmara lenta de uma imagem que nasce no centro das mãos,
estames que inspiram olfactos de terra,
ínfimas pétalas que se sobrepõem numa disputa da tua mirada.
mas não sou eu que me ofereço, são elas!
eu, serei subtil como o silêncio interior dos teus pensamentos
que te rondam nos segundos vagos
e te ocupam o desejo.”

 

Luísa Azevedo


Vozes d’outros (27)

Com cinco letras apenas

 

“entre doces
avelaneiras
sob os açafroados
cálices do fruto
um pequeno acanto
disposto
do fundo da alma
a tantos sacrifícios
como os do salmão
da sabedoria
que
engoliu as nove avelãs
mágicas
como dizem os entendidos
e se tornou o aliado
dos adivinhos
a sua vibração
tão aguda e eléctrica
que traz consigo
a mais criativas das inspirações
essa é a planta da sabedoria
e Leucípe
leva-a consigo
quando procurou o pai e a irmã
e os encontrou
segundo as instruções
do oráculo
ou seja
vestida de sacerdote
e assim
foi vista e amada
e daí nasceu a trama
o prodígio
para que mais uma vez
o mundo continuasse
igual a si mesmo
apenas
um pouco mais gasto e tonto
não canto.”

 

Alberto Pimenta in Prodigioso Acanto


Vozes d’outros (26)

Le Reflet de l’Optimisme

 

“Commencer au début de la fin
S’arrêter au milieu de la main
Attendre un sens singulier
Trouver l’ultime originalité

Rien n’est vrai pendant l’été
Tout est trop beau, trop coloré
Rien n’est clair et ça fait le tour
Tout n’est que réel lors de l’amour

Finir jour après jour après temps
Lire dans le vent un mot constant
Rêver d’un concept désordonné
Susciter la dernière agrammaticalité

Mais rien n’est frais ni éclatant
Tout est trop mat, trop attristant
Rien n’est pur et ça reste pareil
Tout n’est que vécu lors du sommeil”.

 

Isabel Jorge Catarino


Vozes d’outros (25)

 

“chove

para esconder
os pássaros

e recolher
as crianças”

 

Mariana Botelho


Vozes d’outros (24)

Café do Molhe

“Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.”

Manuel António Pina


Vozes d’outros (23)

Meu eu edipiano

 

“A luz que me inspira
é a mesma que
me embaça a visão.
O olhar edipiano
refletor,
encontra na cegueira
a luz interior

Única e verdadeira.
Quando os olhos não são a luz da alma
a alma ilumina a luz do opaco olhar.”

Mirze Sousa


Vozes d’outros (22)

 

V

“Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime – espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: – E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.”

Herberto Hélder – Poesia Toda

 


Vozes d’outros (21)

Invictus

“Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”

William Ernest Henley (1849 – 1902)


Vozes d’outros (20)

 

“esculpo a sede: nenhum desígnio será a falência de um astro.
a vertebrar uma rosa tardia sob o corpo
há a distância inconfidente
desde o princípio do espanto
ao arquejo final de uma ave no país das chuvas.
há quem me diga que nascemos fora dos sonhos
e toda a largura do corpo
é o vazio integral onde nenhuma estrela pousa.
digo-lhes que ao corpo de uma lua
reserva-se a projecção das árvores e a multiplicação da luz.
o tempo
é uma fronteira improvável para deter as águas.
haverá sempre uma seiva de maré inconsentida
a redimir a sede: uma fonte nascendo
na jugular do silêncio.”

Luísa Henriques


Vozes d’outros (19)

Génesis

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça … – Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade… Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena (1919-1978)


Vozes d’outros (18)

SOMBRAS DE SILÍCIO

 

“{comecemos por aqui}: a mesma sombra
esteve por baixo de muitos corpos, de suas
águas e urgências, algumas primitivas, que num
ápice atravessaram o subterrâneo
de todo o tempo. {e depois, porventura, alguém dirá}:
o mesmo sexo não produz o mesmo filho, bem
como a mesma frase não gera o mesmo amor.
e então talvez haja necessidade de falar por escrito,
dentre as sombras de carolinas a florir,
e escrever por exemplo isto:
não sei em que sombra te foste probabilizar. continuo
sentada sobre a memória náufraga e hirsuta
que ainda constrói
lugares distantes com aves de silício,
com corpos sem corpos que
afinal são arte, e sensações que partem
do seu epicentro
à procura de uma distância onde se possam medir.”

Sylvia Beirute


Vozes d’outros (17)

sem nexo

“dos ébrios diálogos sem nexo
farei matéria-prima
para que não se oprima a minha sintaxe
ao ferro frio do que é aceito nos salões da elite
nos requerimentos e decretos
nos livros acadêmicos

terei talvez que me livrar da biblioteca
investir o tempo nos botecos
nos mercados populares
nos bancos das praças
nos braços das putas
no psy trance, no funk, no rap hip hop

ôôôôôôôôôôô

neste ponto o poema se interrompe
não ainda para configurar a ruptura
mas para evitar um final insosso
tentemos, então, uma feijoada
ou algo de igual sustança e alento
tentemos um copo de cachaça
uma roda de samba no morro
mas o final interrompido volta à tona
tal bosta que não tolera o fundo da latrina:

se eu sumir, não der notícia,
não me procurem
terei encontrado
mais que a sintaxe das ruas
as balas perdidas da policia
uma maca infecta no corredor do pronto-socorro
um empolgante tiroteio entre milícias
um traficante transtornado vestido de rambo
um rabo-de-saia que me armou uma cilada

ôôôôôôôôôôôô

três nós de dedos na madeira
toc-toc-toc
isola

é melhor não correr riscos
conformar-me à minha sintaxe oprimida
pedir outra dose de uísque on-the-rocks
ouvir uma valsa vienense
vestir um fraque alugado
ir a paris afundar no crediário
hipotecar a casa o gato o futuro
emitir três talões de cheques sem fundos
comer salada de chuchu tomate e alface
nem um grama de gordura
abaixo a picanha, o torresmo, o miolo de alcatra
olhe o seu colesterol

ôôôôôôôôôôôô

três nós de dedos na madeira
toc-toc-toc
isola

a vida não tem nexo, meu chapa

este poema…
ôôôôôôôôôôôô
é melhor não correr riscos.”

Fred Matos


Vozes d’outros (16)

i carry your heart with me

“i carry your heart with me (i carry it in my heart)
i am never without it (anywhere i go you go, my dear;
and whatever is done by only me is your doing, my darling).

i fear no fate (for you are my fate, my sweet)
i want no world (for beautiful you are my world, my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you.

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart.

i carry your heart (i carry it in my heart).”

e.e. cummings


Vozes d’outros (15)

A CASA

“A minha irmã a trouxe: a foto da casa onde nasci,
como se fora uma gaivota de névoa.
Agora, a casa respira a meias com o longe
que nos separa da infância. As suas raízes
sobrevoam, tão cúmplices, tão subtis,
os nossos corações atordoados de menina.
Do fundo da tarde adivinhamos, sei lá,
o sótão pintado de pretéritas inocências,
a janelinha por onde as bolas de sabão
nos levavam, em estado de sonho,
por lugares que só o imaginário sabe.
Onde está o retrato do medo,
que sabíamos de cor, mesmo sem o olhar?
Onde está a outra menina
que connosco partilhava os frutos
de todas as estações e a quem,
também, chamávamos irmã?
Em vão, esperar a mais perfeita lágrima
para, em nome da sua ausência,
reconstruirmos a casa.”

GRAÇA PIRES


Vozes d’outros (14)

A CONCHA

 “A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.”

VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)


Vozes d’outros (13)

I HAVE SUCH A TEACHER

“Last night my teacher thaught me the lesson of poverty,
having nothing and wanting nothing.

I am a naked man standing inside a mine of rubies,
clothed in red silk.
I absorb the shining and now I see the ocean,
bilions of simultaneous motions
moving in me.
A circle of lovely, quiet people
becomes de ring on my finger.

Then the wind and thunder of rain on the way.
I have such a teacher.”

 

RUMI (1207-1273)


Vozes d’outros (12)

BEM AVENTURADOS

 “Honra, certeza, pureza…? tirem-me daqui os andores!
Navegar, neste oceano, ungida de falsas esperanças,
Só planta neste peito o pranto sangue dos horrores
De ser gente, e não enaltecer as humanas tranças.

De que vale andar sobre bolhas de santas andanças?
Secar suor da face ingênua em meio aos clamores?
Se o coração trota ausente das mudanças
Que tanto carece o vasto palco de amores [?].

Por isso, em verdade, vos digo: bem aventurados
Os que aliam o exterior ao interior, em busca da possibilidade
De ser alma e coração, sem o andor da santidade.

Os que procriam o horror à divina verdade, bem aventurados!
Os que dão largas braçadas ansiando a naturalidade
De ser alma e coração em busca d’ Almanidade?
Bem aventurados!

Esses farão, um Reino, da Terra.
Deles será o Reino das Terras.”

 Gauche


Vozes d’outros (11)

SIMULACRO

“Sinto-me inteiramente tua
(como poderia não sentir!?)

Sinto a lasciva que fulguras
Simulacro frágil de esculpir.

Sinto ensandecer-me: palavra tua!
Imensidão dèjá vu.

Sinto-me à tinta-mão fartura:

tinteiro
negro
cheio
cheiro

rosa, framboesa, carmim

jamais vu!…”

Hercília Fernandes


Vozes d’outros (10)

VAGABUNDO DE PALAVRAS

“quis ser
um paladino
de quimeras mas não
fui.

sou
um vagabundo de palavras
inscrito
na gargalhada do palhaço”

Gabriela Rocha Martins


Vozes d’outros (9)

SELF-PITY

“I never saw a wild thing
sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself.”

D.H. Lawrence


Vozes d’outros (8)

V

” e vamos entoando
o espaço das sílabas semeadas de lírios
em melodias suaves que se movem
intensas
soltas
no lugar onde os ulmos
fazem frondoso o vento
ao despontar do dia.”

De Mir


Vozes d’outros (7)

Epping Forest for Emuishere, originally uploaded by seanetnel1.

CERCAM-TE AS ÁGUAS DO SILÊNCIO

“cercam-te as águas do silêncio
na página branca da bruma
onde
sem que o saibas
és nada.

na espessa solidão das pedras
julgas reconhecer a música das esferas
e nada és . e nada muda.

vem um guardião trajar-te de infinito
adornar-te com algumas pérolas
para a grande cerimónia da voz.
não compreendes porque o faz. e
nasces a chorar.

tua mãe logo acende algumas horas
no caminho das formas
amamentando – te de luz
para que não venhas a cegar
de escuro

cantas então com as estrelas da noite
sobre um trono de relâmpagos
como uma alma assente em luminárias de fogo
acesas no altar do coração do mundo.

supôes-te o mais livre dos seres.

mais à frente em tuas vestes resplandecem
as primeiras letras de bronze
oriundas do antigo
jorrando em castiçais de ouro
os primeiros frutos.

julgas que não és humana
mas uma deusa no mundo.

– e faltam coisas tão eternas como a eterna mudança,
frágeis ânforas para o esplendor do lume –

é então que tremes . conheces a vastidão do nada
porque foste queimada pelo fogo
trespassada pela espada das dúvidas
lançada à dispersão e loucura.

difícil é agora quando retornam aos dias
os seus carvões escuros
e ocupas o lugar dos muros
ainda por arder

até que saibas onde o poema habita
cercam-te as palavras
os gestos
a voz

a vida inteira é tua”

De mariah in A Luz do Poema


Vozes d’outros (6)

SONNET N.º 100

“Where art thou, Muse, that thou forget´st so long
To speak of that which gives thee all thy might?
Spend´st thou thy fury on some worthless song,
Darkening thy power to lend base subjects light?
Return, forgetful Muse, and straight redeem
In gentle numbers time so idly spent;
Sing to the ear that doth thy lays esteem
And gives thy pen both skill and argument.
Rise, resty Muse, my love´s sweet face survey,
If Time have any wrinkle graven there,
If any, be a satire to decay
And make Time´s spoils despisèd everywhere.
                Give my love fame faster than Time wastes life;
                So thou prevent´st his scythe and cookèd knife.”

De William Shakespeare


Vozes d’outros (5)

SE EU SOUBESSE

“soubesse eu dos dias verdes
em que a música é tão distante
e o mar rebelado.

soubesse eu do que me esperava,
enquanto escrevia palavras,
com a boca a servir de paleta e pincel
nos desenhos perdidos
em ti;

soubesse eu do vendaval que havia de vir,
depois daquelas horas nas quais corremos livres
pela relva na felicidade sem palavras com palavras
de um amor desmedido;

soubesse eu de todas as coisas
que ainda desconheço,
e não fosse um rio a desaguar no oceano
e não tivesse olhos glaucos e crédulos
num corpo que navegava livremente;

soubesse eu que certas coisas tu não sabias
e no vasto porto mar a avistar-se de santa luzia;

teria dado os exatos mesmos passos,
entregues ao vermelho da paixão.”

De Silvia Chueire in por favor, um blues


Vozes d’outros (4)

O INFANTE

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

De Fernando Pessoa in Mensagem


Vozes d’outros (3)

EM CADA PALAVRA UM POUCO DE SANGUE

“Quem se julga dono da viagem
navega no vazio – nem a todos cabe
ter por amante a água, a sua têmpera
lunar. Nem o silêncio carnal
das raparigas. Nem o brilho fugaz
das palavras.”

De Casimiro de Brito in Arte de Bem Morrer


Vozes d’outros (2)

NESTA HORA

“Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
– Sob o ausente olhar silente de atenção –

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.”

De Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas


Vozes d’outros

TEMPO DE EXISTIR

“Todo o Passado
desviado
e o Presente
vivido,
independente
de qualquer Futuro
já sonhado,
não podem ser traição
a todos os projectos
que fizemos
de construir,
bem cedo,
a relação
entre as nossas vidas
calculadas
e as que haviam de ser.

No limiar de qualquer sonho
vem sempre uma aventura
que começa
tal como a desejámos.

Depois,
será difícil o acerto
e vence o hábito
em muitos dos momentos,
quando supomos ser nós próprios.

Assim nos passa o tempo.

Da ilusão de sermos
o que queremos,
de sermos o que temos,
cedo aceitamos o pouco que há-de vir
como razão somente de existir.”

De Gabriel de Mariz in Sonhos Breves

 

INEXISTÊNCIA

“Pretender um beijo
da água.

Surpreender o voo
da águia.

Água.
Águia.

Remover montanhas
e procurar-se.”

De Gabriel de Mariz in Capricho de Papel