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Nos Dias em que o Céu é Viúvo

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misty ocean 2 by lucieg stock

.

Nos dias em que o céu é viúvo chovem pedras nas nuvens
e os pedreiros esforçam-se por libertar as lágrimas dos túmulos.

A vereda da água é sinal de colheitas!

Caem os ídolos do tempo moderno e escrevem-se os éditos da fertilidade,
reforçando a tradição de outrora e a amplitude das matriarcas,
anunciando a vitalidade do futuro.
Porém, toda a metamorfose é uma dissonância.
Já a cognição é um fruto agridoce que se faz conjunto.

Nos dias em que o céu é viúvo chovem pedras nas nuvens
e as lápides são as cangas que os ombros levam para a eternidade,
num descanso que somente será suado.

apenas os tolos são abençoados!


Círculos de fada

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Foto: Namíbia (autor desconhecido)

.

bocas ornamentam planícies laranja,
manifestando agradecimento
pelo manto refrescante que se anuncia.

mas o tempo é presença real
que se expressa na sombra verde.

e ao longe, em contemplação pura,
centauros observam o tronco que persiste.

é no deserto que a vida mais se afirma!

nenhuma vénia será suficiente.

todavia, todo o suspiro é aceite,
toda a lágrima é recolhida,
para que o silêncio seja a expressão
que completa o pulsar de Gaia!

 

in Espasmos


(re)Nascer

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É no sentir

das lágrimas

que desponta o amanhecer …


(Re)EncontroS

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(https://www.flickr.com/photos/47932340@N06)

.

Quando em matiz encarnada,
as palavras relevam-se fúrias
onde bamboleiam os orvalhos da entrega
e se eleva a súplica da contrição terrena.

Não há arrependimento!
Há calor. Humano. Desprendido. Selvagem.

Aos corpos que antecipam o toque
Acontecem os desmaios tectónicos do pensamento.
E na fragilidade do esboço chopiniano
exaltam-se os véus da miríade dos desejos.

Não há renúncia.
Há reconhecimento. Pleno. Singular. Ansiado.

E a saudade carnal cessa o choro
nos braços que se estendem.
Na capitulação ao acto,
o amor será consagração
e o passado será expiado no clamor do grito
que fará do futuro possibilidade.

A solidão é o primeiro passo do reencontro.
Sim. Do reencontro!
Porque o encontro foi a sua origem.

 

in Espasmos

 


Entrega

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(https://pt.pinterest.com/pin/530087818625330800/)

.

Pensei que era no horizonte.

Julguei ser sombra nas vestes do tempo
ou a luz que destapa os cumes.

Julguei ser. Mas sabia-me exíguo.

Hoje?
Sucumbo à plenitude das tuas curvas
na ténue esperança

                                         de me perder!

Thought I was on the horizon.

Thought I was a shadow in the vestments of time.
Or the light that discloses the summits.

Thought I was. But, I knew me exiguous.

Today?
I succumb to your’s curves fullness
in the faint hope

                                                               of losing myself in you!

in Espasmos


Redenção / Redemption

VFS_3205bw.jpg

.

Podes dar-me a mão,
deixar-me chorar,
abraçar-me em silêncio.

Mas, sem revelar as minhas fraquezas,
morrerei em desgraça.

 

 

You may give me your hand,
let me cry,
embrace me in silence.

But, without revealing my weaknesses,
I’ll die in disgrace.

in Espasmos


Destino(s)

Do you believe in destiny ?

Há linhas destinadas a reencontrarem-se.

O que está por escrever,
é a decisão do momento.

=====

There are lines destined for reencounter.

What is unwritten,
is the decision of the moment.

in Livro dos Pensares e das Tormentas, 153, 5 de Julho de 1998


Em dia de aniversário

sequoia-1 https://www.flickr.com/photos/51652977@N00/3855301362/in/faves-25631517@N08/

!

os dias que se sucederam são ténues poeiras,
que fazem o desenrolar do continuum.

todo o pirilampo é breve na antecipação da aurora.

sente-se o estremecer do tempo cósmico.
renascimentos acontecem no silêncio dos sorrisos.

hoje, em mim, houve futuro.

e, fiz-me, tempo,
antigo,

em comunhão quântica.

 

days that succeeded are pale dust,
doing the course of the continuum.

all firefly is brief at dawn’s anticipation.

one feels the shiver of cosmic time.
renaissances occur in the silence of smiles.

Today, in me, there was future.

and I became, time,
ancient,

in quantum communion.

!

 


(e)Namorados


Deep Forest Studies #4, originally uploaded by -: Al Bell :-.

.

.

!

raizes acontecem com fervor
no florir das buganvílias em saudade,
janelas abertas ao canto desejado.

e sente-se o manto lavanda do amor
que nutre as árvores do coração.


In Memoriam


VFS_0507b, originally uploaded by vfsphotos.

.

aos olhos do Criador,
nada sou.

aos olhos de meu semelhante,
mais não sou.

são os filhos que nos fazem eternidade.
mas a existência é efémera.

o coração chora.
porém, nunca esquecerá.

*

Hoje fui acordado com a notícia duma morte. Um Pai comunica a morte do seu Filho.
Dediquei um dos meus livros à minha filha Ana, que considero ter sido o meu primeiro passo na eternidade. Já dei dois. É o meu maior receio: perder um filho.
Não consigo imaginar o que o meu amigo e colega Abílio estará a sentir. Espero apenas que o Criador lhe conceda serenidade.
O poema infra não é novo, mas foi adaptado para a memória dum filho que partiu.

Para o Abílio!

Recordação

Quantas vezes nisto falamos?
Quantas vezes o expressamos?
Quantas vezes o receamos?

Se tivesse que morrer por ti,
de bom grado o faria.
Porque em ti e por ti,
a minha luz jamais se extinguiria.

Mas assim alguém não quis!
E foste tu, não eu, quem partiu.

E eu? Eu sou aquele que vive no alento
do reencontro,
alimentado pela tua recordação.

Sou aquele que no silêncio fala contigo,
aquele que receia que todas as palavras que diz,
que todas as palavras que contigo divido,
não cheguem para expressar os sentimentos que me inspiras.

Sou aquele que tenta,
em vão,
retribuir tal avalanche de sensações.

Sou aquele que ainda te deseja.
Aquele que deseja que os seus medos se transformem
em ondas que te aconcheguem,
refrescando-te nas noites quentes do Verão,
protegendo-te nos dias de tempestade do Inverno.

Sou aquele que não se satisfaz com tais desejos.
Porque nem a possibilidade de essas ondas te presentearem
com um constante renovar de quadros,
pintados por estrelas na tela da noite, seria suficiente.

Sou aquele que canta o desencanto
porque nada me encanta sem o teu encanto,
sem o teu ser,
sem o teu viver.

Sou aquele que não é jardineiro
mas que cuida do teu canteiro,
de todos os teus canteiros.
Porque tu és o meu jardim,
és todos os meus jardins.

Sou aquele que suplica ao sol
por mais um momento de luar,
para nele rever o teu rosto,
para nele te recordar.

Sou aquele que aguarda o aguardar
porque aguardar reencontrar-te é o que me resta fazer.
Aguardar, esperando.
Aguardar, olhando o mar
e desejando o além abraçar.

Sou aquele que ainda é teu.
Aquele que já era teu quando não eras meu!
Aquele que foi teu quando foste meu!
Aquele que continua teu, porque ainda és meu!

Sou aquele que não desiste.
Aquele que aqui, a custo, persiste.
Porque dói a tua lembrança.
Por nela depositar a esperança.

Sou aquele que tem de continuar
sem pensar em morrer.
Aquele que aqui continua a viver
para a tua recordação honrar.

E também sou aquele que para ti voltará.
Aquele que contigo ficará,
por todo o espaço do tempo
e por todo o tempo do espaço.

in 30 Mensagens de Amor e Uma Recordação


Eusébio da Silva Ferreira


Eusébio da Silva Ferreira, originally uploaded by vfsphotos.
Direitos de autor da foto pertencem a: http://revistafutebolista.blogspot.pt

.

No verde de linhas brancas,
brilhaste!

Foste força,
humildade,
arte e feitiçaria.

Mesmo contra as circunstâncias,
sempre acreditaste.
E quando não conseguiste,
choraste!

Pantera Negra,
negro o teu coração nunca foi.

Foi e é puro!

Eusébio,
Já não és só teu
– como cedo descobriste –
És nosso!
[E também és meu!]

Obrigado.

escrito a 25 de Janeiro de 1992 in Odes & Homenagens


Apenas um vislumbrar!


Nude Beauty, originally uploaded by Katherine Chivers.

.

apenas um vislumbrar.

e as lágrimas são um novo universo
na ternura do teu corpo.

soluços acontecem
na tristeza da recordação,
que pede nova entrega.

quero honrar o teu templo.
como lábios abertos em retribuição.

entre nós, nada acabou.
há fogo a consumir
e tempo para sucumbir.

queres?


Ser(es)


Untitled, originally uploaded by hoodkitty.

.

Tens ideia do desejo que sempre provocaste?

Rendi-me às tuas ondas imediatamente.
Mas, o tempo passou.
Contudo, jamais te esqueci
ou deixei de te desejar.

Ainda hoje ouço o teu mar.

Aceita-me.
Em ti. Dentro de ti!


Dobrei a esquina – em dia de aniversário


VFS_6809b&w, originally uploaded by vfsphotos.

.

Dobrei a esquina.
Apesar de consciente da etapa, uma inconsciência serena fez-me durante o dia,
onde o tempo não decorreu. Sentiu-se!
E os afetos perfumaram as horas, criando uma poderosa espiral de carinho.

Dobrei a esquina.
A falsidade foi-se, deixando a sombra da recordação.
Não há que questionar. A diferença é fundamental ao esclarecimento.

Dobrei a esquina,
grato pelo desconhecimento do futuro.
Se sei o que é o amor?
Não!
O Amor não se sabe.
Presente-se, sente-se ou vive-se.
Só assim o fragmento é elo do todo e qualquer rasgar dá lágrimas.

E as lágrimas são o néctar do presente,
intemporal.

Dobrei a esquina.
E encontrei-te!


Sabores


Shadow Body, originally uploaded by Jayfer24.
.

talvez devesse estranhar o estranho acontecer da dinâmica no contorno dos pensamentos. talvez? mas, na essência, apenas se está a manifestar a fluência da estrutura da mente, pois é da sua natureza sustentar a perspectiva hermética do universo. porém, simultaneamente, noutras pausas, fluem os espasmos sensoriais do corpo, num estranho alfabeto que se afirma singular e que nos entranha no sentimento do sentir. são outras forças que se revelam e que aquecem o ânimo da carne para o tempo do futuro. talvez a formatação seja dual. talvez? contudo, este fluir de fluxos distintos, esta fluência comunicativa ininterrupta é a ligação que nos identifica com as vibrações do diapasão cósmico, a ponte que nos faz pó da terra e pó de estrelas e que alimenta o horizonte da esperança.
será estranho estranhar que o ser humano possa ser uma pedra de roseta? talvez. contudo, se assim o for, ainda não foi totalmente decifrada. logo, antes de tudo, somos curvas que derivam em expressão.

in Livro dos Pensares e das Tormentas, 155, 7 de Julho de 1998


E Eu Sonho!


LOVE IS….., originally uploaded by jade2k.

 

nem sendo rasgada a impossibilidade esmaece.
apesar da ilusão da condição humana,
sonhar é um imperativo.

e eu sonho!
sonho porque já vivi,
já senti,
já beijei um sonho.

não importam as esquinas
nem as montanhas do céu.
jamais serás uma brisa
jamais serás esquecimento.

quanto a mim?
entrego-me às vagas do poente.
sim, do poente!
para retornar às raizes do tempo,
para obter a clemência do coração.

haverá, porém, caminhos sem obstáculos?
ou algo que ninguém observa?
existe um quarto sem janelas onde impera a tentação da fantasia.
mas não desejo universos contidos.
aceito a liberdade da existência.

repito. sonhar é um imperativo!

é assim que no sentir da esperança
ouso uma frágil prece

e persisto no Teu sonho.

 

in √81 = IX ?


Dia de Aniversário


Prairie Winds…, originally uploaded by The Nature of Things.

 

nada de espelhos. nada!

não renego reflexos.
até colecciono fragmentos.

mas prefiro as cúpulas celestes
ou as asas do profano humano
que chora o sonho.

porquê?
porque ouso,
apesar das marcas das passagens,
persistir no caminho do in-finito.

ao longe,
incólume,
o tempo assiste ao fluir do vento.

e, mais uma vez, o ritual é comungado.

obrigado…


Brevidade / Briefness

open arms, originally uploaded by xgray.

 

a metodologia profana é o desvendar dos dedos.
frágil meio que versa a comunhão do Ser
sem perceber que a coexistência
é um labirinto de vaidades rendilhadas,
albergando breves compassos
plenos de momentos individualizados.

vozes são erigidas diariamente para a subsistência das duas esculturas,
mas é semanalmente que se contraem os voos.

planicies são ilusão.
não há cornucópias na dobra do horizonte.
e, no regaço do declive, os estios serão sempre sazonais.

=====

the profane methodology is the unveiling of fingers.
frail medium about the fellowship of being
unaware that coexistence is a maze of laced vanities,
harboring brief compasses
filled with individual moments.

daily voices are raised to the livelihoods of the two sculptures,
but it’s weekly that flights are constricted.

plains are illusions.
there’re no cornucopias on the horizon bends.
and, in the slope’s lap, summers will always be seasonal.


Futuro(s)

VFS_1686, originally uploaded by vfsphotos.
 

no embalo das águas
renovam-se as memórias do tempo,
passado,
na contemplação
que se funde presente.

haja o sonho. haja!

e o futuro realizar-se-á.


Não mais

VFS_2117, originally uploaded by vfsphotos.

 

Se estivesses ao meu lado,
abraçar-te-ia.
Encostar-me-ia a ti,
para escutar o teu coração.

E,
nas praias desertas,
as ondas não mais seriam orfãs.

 

in Sentir


espelho


VIC_2104, originally uploaded by vfsphotos.

 

nasci velho.
toda a vida recordei.

ainda o faço.

mas jamais tive a ilusão do chão ser imóvel!

 


Ómega

The Temple of Poseidon, originally uploaded by photogon.

 

 

penso no princípio.
na chave em voz. no quarto que origina a vontade.
penso no principio porque não sei se o escrevi.
tantas são as certezas como as loucuras.
e rio no quarto. sozinho. no embalo do eco
onde se desfralda a língua do silêncio.

mas há vozes audíveis!
rompidas pelos desertos em concepção
na alegoria do quarto já percorrido,
quase preenchido em vazio,
que por um acaso – triste, alguns dirão –
é ocupado pelo choro dum bebé recém-nascido,
no desfragmento do desejo.

talvez o tempo seja sustido por um suspiro. talvez?
no entanto, propago-me.
e acontecem incógnitas sensoriais nas equações espaciais,
vibrações que moldam deltas em fluxo ritmado,
numa sinfonia de sossegos compassados.

ah! trapezistas audazes.
que se abraçam no etéreo, solto,
na vigilância da harpa indomável.
também quero um desfragmento inteiro.
também quero voar num espaço sem rede.
talvez assim consiga recriar o instante.
ou sair pelo caminho mais curto.

mas as paredes continuam caladas
e a linguagem não exprime o sentir.
como queria retornar ao local do encontro!
mas o quarto não é um talvez,
nem esconde deliberadamente a fechadura.
sem escrita não há memória.
sem voz, que haverá?

e eu penso no princípio.
penso no princípio porque desejo o futuro!

 

in Diálogos, Epístolas Inertes


Perguntas

Silouette, originally uploaded by Bruehl, Holly.

 

 

Olhava para ti
rendido,
quando após um suspiro,
sentido,
perguntaste:
Que queres de mim?

Explorar – Respondi.
Quero explorar
a tua presença,
a tua amizade,
as tuas palavras,
o teu sorriso…
Quero o universo do teu ser,
conhecer.

Para assim,
com uma pequena parte de mim,
o preencher.

 

in 30 Poemas de Amor e Um de Recordação
Especial Dia dos Namorados


Night wishes / Desejos nocturnos


Night @ SeaSide, originally uploaded by ristozz.

 

night wishes that torment me
do not make hopeful days.

wishes! nevertheless.
wishes for recognition,
… for freedom and daring voice.

as in me sound is constant,
cradle of clouds, needed thunder
for the claim of my human condition.

but, coming from time, the horizon question
when thou shalt be whole?
when thou shalt be uno?

if you want to know the difference
dark days are mandatory.
no switch can be touched
only a journey must be fullfilled

and I finally realize:
I am my fate’s creator.
only I can be change.

==========

desejos nocturnos que me atormentam
não fazem dias esperançosos.

desejos, no entanto!
desejos de reconhecimento,
… de liberdade e voz audaz

porque me mim o som é constante,
berço das nuvens, trovão necessário,
para a afirmação da condição humana.

vinda do tempo,
a voz do horizonte pergunta:
quando serás inteiro?
quando serás uno?

se queres conhecer a diferença
dias escuros são obrigatórios.
nenhum atalho pode haver.
apenas a viagem deve ser preenchida!

e finalmente compreendo:
crio o meu destino
só eu posso ser mudança.

 

in Substance(S)


Suicidam-se as aves?


DSC_2528, originally uploaded by vfsphotos.

 

suicidam-se as aves?

ou procuram a navegação no passado?

algumas entregam-se ao despojo das cinzas,
num mitológico retrato do futuro,
que eleva o exemplo ao inalcançável.

mas, suicidam-se as aves?

 

porque não voamos?


Quis


Aurora Boreal – NASA, originally uploaded by flaviocarmo.

 

ser asas em noite azul
ou beijo desprendido ao acaso

e não mais esquecer.

 


Fluência


Big Bang Fractal, originally uploaded by James Willmott.

 

o grito é um quadro mudo, uma boca acesa ao espanto
entregue à agudeza do declive esmagador,
onde brotam as palas orais do deserto.
quando acontece o convívio do silêncio extenua-se
a linha do monólogo pensante, num multiplicar inomeável
que reforça os membros do tempo.

o espectro não é linear nem obedece aos sons do destino.

desenrola-se.
como um desvelo de prazer egoísta,
omnipresente e justo.

assim se atinge o óbvio.
sem possibilidade de arbítrio,
mas na possibilidade do abraço
aos humores da rotação.

o trilho é uma ruptura vadia.
nada sangra. apenas cessa o verbo!

in Sons Urbanos


Reflexos

 

espelhos de água,
almas antigas.

veios tubulares suspensos
aguardam o ascender das lágrimas tombadas.
sonhos que regressam ao céu,
pelos cachos em profundo azul.

retornam os cruzamentos passados
como coroas em silêncio resplendoroso,
ou rubis incrustados em imagens
na escultura que procura o coração.

mãos despojadas sucumbem!
ao ardor da visão desejada,
lamentando o desnudar do esquecimento.
e o sangue é origem.
é o sangue que dá vida!

no mármore arrefecido,
em todos os instantes da criação,
ainda brilha a auréola primordial.
faces renovam-se.
hipóteses multiplicam-se
só a espécie permanece indiferente!

água em espelhos,
almas perdidas.

 

in Diálogos, Epistolas Inertes


verbo azul

Manuela Salema – Livro plantado – 2007

 

uma pena solta.
um ramo suspenso.
uma página aberta ao futuro.

Deusa do jardim das safiras,
levitas no lago etéreo do desejo,
na amalgama das eras,
entre as encostas do meu peito
e mares em índigos sonhados.

floresce uma rosa, qual semente no coração.

marcas do tempo subsistem,

mas o Verbo da criação
é o livro azul da origem,

onde somos In-finito!


outro momento


the time machine., originally uploaded by shaman..

 

e se te disser que a terra é curva?
que o planeta é plano?

rasgarás os dias?
desfolharás o calendário?

só os números se sucedem sucedâneos,
entregues a uma contagem condicionada,
onde,
solto da gravidade,
se sente o fio da existência.

havendo medidas,
terá sempre que se desfraldar um recomeço.

nas espirais do tempo rege a ilusão das metas, mas nada deixa de fluir.

um passo termina,
outro momento acontece.

e festeja-se!


Estrela-do-mar

 

só os corpos sofridos atingem a redenção das águas.

vida sem dor é existência ser ardor
e os rasgos fazem pulsar o coração

onde gotas vermelhas contam o tempo
que mede o horizonte da iris.

a oscilação do desejo depende
do sussurro que chora pelo azul.

todavia, a palpitação dos grãos é real!

 

 


Acontece Poesia


Beyond The Sea, originally uploaded by Bill Adams.

 

Acontece poesia em ti
sempre que olhas,
afirmando uma vida pulsante,
magnífica,
como
o cintilar das Estrelas no céu,
o resplendor brilhante do Sol
nos teus doces
e meigos olhos.

Acontece poesia em ti
sempre que ris,
criando umas curvas no rosto,
sensuais,
como
os campos de searas ao vento,
as ondas nas águas de um lago
ao sabor da quente
e harmoniosa aragem do Verão.
 
Acontece poesia em ti
sempre que andas,
alimentando o nascer de sentimentos,
sinceros,
como
o delicado desabrochar de uma flor,
o despontar do amanhecer da vida
no enternecido ser
do meu coração.

Assim,
quando
eternamente te penso,
te sinto,
te vivo,
por fim
acontece também
poesia em mim.

in 30 Mensagens de Amor e 1 Recordação


Atitude

. 
Mirror Image, originally uploaded by siskokid 

 

“… Raramente sabemos do que somos capazes até nos depararmos com as situações …”
VIRGÍLIO, poeta latino (70-19 a. C.)

Na altura de enfrentar a situação
oxalá me seja permitido ver,
uma cabeça erguida
na face lisa do espelho
                                             reflectida.

E que a postura vista
não seja ao orgulho devida.

 

in Espelhos e Outras Faces

 


Sina


The Low Road, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

todo o percurso é um rascunho
que se executa na sensação do decorrer,
uma tentativa em exultação.

é normal o acontecer das camadas,
o renovar da tez,
no desperdício dos instantes.

só a mão cria o vazio do além,
num suspiro transpirado
que cede à sede do apelo:
irás descansar!

mas caminhamos a desejar o inverso do sentido,
num sentido que se versa aos pés.

e o véu lúgubre não é ilusão.
é a promessa do renascer.

eis porque o sonambulismo inflama a chama do que se fez!
eis porque se aguarda o paraíso!

 


Subtilezas


Imagine…, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

formações incompletas
e outras maravilhas,
subtilezas pequeníssimas,
entregam-se ao soalheiro do vento desconhecido.
unem-se para viajar ao uno!

só o impuro será puro!
em ervas altas e savanas douradas.
depois do amadurecer prateado,
em luas suspensas ou em fios purificados,
pela peregrinação no florescer da vida.

há entidades soltas,
auto-criadas em si
e constantes na omnipresença.
há veias inspiradoras,
simples elos que fazem o verde.
só assim se multiplicam os camaleões da natureza.
e são tantos! distintos.
com cores em tempos diferentes.

na neve a brancura é imaculada.
nada a invade. até o calor é devolvido,
depois de arrefecido em névoas intactas,
num beijo rejuvenescido,
profundamente sentido,
numa etapa que se refaz em amor,
pois tudo tem um papel determinado.

manifestações traduzidas em plural,
as subtilezas pequeníssimas são imensas!
todo o conjunto é singular.
e conjugável!
em si e entre si,
para que a diversidade se suceda.
assim,
não há mundo. há mundos!
não há vidas. há vida!

e o inverso também se verifica.
o todo é um ciclo evolutivo.
de vida e morte. de continua existência.
a que qualquer entidade se submete e se renova.
e acontecem minutos para a morte
como já anteriormente os houve em ser.

as lembranças permanecem o condão.
aguardando o reencontro com o espírito
no confronto da pressão e do tempo.
vislumbra-se aí o quão profunda é a eternidade.
e nada está fechado,
pois quando o corpo sucumbir abrir-se-á ao pleno
e será subtil e pequeno.
como deve ser! para ser em luz, em beleza, em pureza

por isso,
as ondas vibratórias na harmonia do cosmos
são subtilezas pequeníssimas.
permanentes demonstrações de louvor.
percebe-se que o princípio criador do todo é a desigualdade.
nenhuma vida é igual!
logo, qualquer uma é especial.

e o amor é o elo vital que nos une
no respeito por outras vidas.
e o amor que temos por algumas é superior.

sem vida não há amor e sem amor não há respeito à vida.

ser! amor! vida!
pela expressão de pequenas subtilezas.

 

in Diálogos, Epístolas Inertes


… e Outras Faces


unfolding the rose, originally uploaded by hkvam.

 

Sou como Sou!

 

Os outros,
                           são como são.

 

E nunca como eu gostaria que fossem.

 

in Espelhos e Outras Faces


Espelhos …

 

Ditas,
sentidas
ou escritas,

                  as palavras reflectem o homem.

 

in Espelhos e Outras Faces


O infinito precisa de dois

Infinite Moment

Infinite Moment, originally uploaded by Accretion Point

 

no ondular da brisa
moldam-se as curvas das dunas.

frescuras diárias.
breves afagos.
verbos soltos.

e assim escorre o relógio da vida.

o infinito precisa de dois.

 

in √81 = IX ?


Renascimento – 13º Jogo das palavras


Deep blue, originally uploaded by futhark.

 

tudo o que desejamos é COMUNGAR no IMENSO,

sentir o vento AVASSALADOR do querer,
impedir que alguma vez a alma seja AMORTECIDA.

ah! mas o suceder é um caminho imperioso.

na vida há sempre um FAROL ERODIDO,
um DISTANCIAMENTO do sonho,
uma TEMPESTADE de incertezas.

todavia, o horizonte deve ser alcançado.

entrega-te ao MAR e ao CÉU!
sê na FUSÃO do AZUL,

e serás no campo de estrelas cadentes do Ser.

 


Máscaras

the gloaming

the gloaming by Ileana Cozanziana

 

ah! o imenso da possibilidade.

quantas rotas em tormentas?
quantas máscaras desejadas?

sucumbes à pressão dos momentos.

nada se transfigura nos espelhos,
e todos os dias és
mais do que a soma das tuas partes.

às vezes, os mares da realidade assim obrigam.

é nessas águas que também somos humanos.

 

in Interlúdios da Certeza

 

 


Fracturas

 

Cortes imperceptíveis
proclamam avisos sonoros,
éditos de constância inócua:

tudo deve ser igual
porque a mudança é irreal.

e joga-se o germe na saliva
quando a campainha vibra.

estranho destino futuro,
a genética manipulada.

ainda somos primatas?
ou simples reflexo descondicionado?

 

in Da Natureza e Afins


Perfeição

 

 

A perfeição?

Todos a querem!
Todos a desejam!
Todos a almejam!
Todos a cobiçam!

Para alcançar,
vencer,
ultrapassar.

Sem algum motivo
ou qualquer outra razão
Ganhar, é esse o objectivo.
Para tal,
mentem,
espezinham,
roubam,
matam.

Nunca irão aprender a lição.
Pois não lhes é perceptível
que ser Criador e Criação
não é possível!

A perfeição é a prerrogativa de Deus.
A imperfeição é o cativeiro do homem.

 

in Deuses, Homens e o Universo

 


De Férias


Sao Pedro 1135, originally uploaded by vfswa.
 
 
Na harmonia do Multiverso!
 

Primordial


Wish You Were Here, originally uploaded by Stuck in Customs.

 

deuses sorriem ao longe enquanto
vida acontece.

mas nós
a vivemos.
nós
somos essência

no lago da humanidade.

 


No Corpo de Gaia

circled, originally uploaded by hkvam.

 

desejos latentes no etéreo
abrem-se paradoxalmente ao templo que se encerra.
as pálpebras das estrelas permitem brilho
às fendas escuras do horizonte,
sinalizando o trilho para o destino das almas.

há algo triste na tarde que se entrega,
mas toda a energia é panorâmica
e deixa um leque de sangue nas vestes amarelas.
nem o vento que arrefece as savanas
afronta essa dádiva onde pulsa carne divina.

espíritos animam os seios de Gaia
podando as auréolas dos cumes sagrados.
e chamas são erigidas nos altares,
louvando o corpo que soçobra em choque.

no limite da exaustão,
as danças produzem melancolias piroclásticas
que envolvem os membros despidos,
invocam sete palmos de água descendente,
refrescando os fragmentos ígneos da raiz da terra.

o movimento da miriápode celebração
igualmente avoca a presença dos druidas.
diversas fracturas são infligidas no Ânima.
e a ara fixa-se no pulmão da sutura,
velando pelo oxigenar das sementes de fogo:
quando o novo amanhecer acontecer,
aqui reflorirá o cântico do equinócio.

tenro é o período das ondas de renovação
mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser.
e o corpo desenterra-se da erosão imemorial do tempo,
anunciando o aligeirar do afélio interior.
vagarosamente, a trindade cêntrica estremece
despertando o poder da potencialidade absurda:
Energia, Espírito e Alma vibram para a plenitude.

ocorrem avisos anamórficos da auto-regulação
cuja amplitude devia chegar aos inquilinos desrespeitadores.
mas a atitude hodierna prevalece intocável
e não há consideração pelo que nos foi oferecido.

num provir isócrono que se gera por si só,
reavivados sussurros soltam o teleológico antigo
demonstrando a existência da ecosfera primária.

soam as horas atrozes do crepúsculo púrpura!
o tronco materno ruge sereno:
as águas sobem e os ventos ventam estranhamente,
desfraldando as abas do éter interior da cosmogonia holística.

o ente imenso recria-se para sobreviver ao impacto humano
e convulsões orgânicas surgem abruptamente desta cisão.
mas a semente da luz aguarda no ventre da Mãe terra.
uma nova dignidade emergirá e novas mãos a seguirão

nova era de esperança no respeito da lembrança.
em união omnisciente, no corpo de Gaia.


Encantamento


clouder, originally uploaded by Ash ..

 

a existência não é garante de dignidade quando o semelhante estremece.
mesmo em dias soalheiros há atitudes levianas.
olhos negam o viver da vida ou a comunhão em sociedade.
e no lar o tempo da paciência é escasso.
a distancia entre os elos aprofunda-se e os filhos chamam nas sombras.
o metal rege!
é conscientemente que se multiplicam as trintas.

perguntas o que é a poesia perante isto?

talvez seja um canto lúgubre?
ou um calendário para meditar o passado?

o todo perfaz o caminho do ser.
mas só nos revemos nos tempos áureos, onde fomos pujança gratuita.
até as lágrimas serão desperdiçadas.
é por isso que os lenços acompanham o futuro.
é por isso que a angústia é a grilheta dos que ficam.

como o tempo se sucede, nenhum espelho é uma superfície plana.
no entanto, existe um sereno aguardar:
a transfiguração do selo do presente

só aí o jogo lúdico da vida estará concluído.
e não haverá revelação. apenas alegria.


Sou Amor

 

 

Resplandeces no meu coração.

És carinho,
                       ternura
                                         e humanidade.
E eu,
tocado por ti,
sou.

Sou ser e querer.

Sou amor!

 

in √81 = IX ?


Conceito

 

poesia,

é sentir um desejo impossível de conter.
é transmitir o que à alma se vai beber.
é repartir o meu e o teu viver.
é expandir o interminável a um só pertencer.

é unir o divino ao ser.

é, simplesmente,
agradecer

um suspiro nas lágrimas do tempo.


Angkor


Sunrise at Angkor Wat, originally uploaded by kees straver.

 

O esplendor de milénios de civilização,
no correr do tempo,
esvaneceu.
E a natureza reclamou o que era seu!

No silêncio, o espírito descansou.
Os deuses e a essência em si reuniu
e na imensidão,
um novo coração fundiu.

Ressurgido da pureza,
com um renovado fulgor voltou.
E de novo,
a beleza
brilhou!

 

in Geografia e Outras Circunstâncias


Ternura Azul


Silver moon, originally uploaded by Spy to die 4.

 

depois do fragor do ruído
a memória da conquista é breve.

sobra a espuma nas conchas
em momento de nudez
                                                     luar.

ondas lisas em prata
no silêncio do mar.

nesse sonho repousa o búzio,
em teu nome,

murmúrio.