a distância entre a porta ajusta-se ao momento do destino.
tal como as escadas rolantes são ilhas,
onde as pernas se imobilizam,
duplicando um movimento que não se perpetua.
só num local
– indefinível, porque obscuro,
algures, porque discreto –
as acções são duais.
mas a transposição para esse lugar implica
a queda num buraco octogonal de espelhos cansados.
como o homem não pode conviver,
simultaneamente, com o passado e o futuro,
a queda requer faces vedadas aos segredos disponíveis
e deformados pela velocidade horizontal do salto na penumbra.
até que as correias electromagnéticas se façam sentir
a aceleração será uma constante e a fé será posta à prova
por um corpo abandonado ao seu próprio ónus,
ao sabor das gargantas profundas da gravidade.
não haverá pára-quedas.
são chuvas que libertam a torrente de memórias gastas.
e, em minúsculos pontos que brilham nas paredes do fosso,
ocorrem explosões de astros
puxando os dedos na direcção da entrada,
como um instinto que procura sobreviver à redenção do momento.
nada inverte o passo dado!
nem a espuma dos cometas diurnos
ou o trilho das bolhas de sabão suspensas o consegue.
tudo depende do sangue da fé!
e esta depende dos neurónios do desejo,
entregues ao mais perfeito êxtase,
siderados pela inclinação do sigma constelado.
relata-se um sonho gerador de pensamentos.
alguns sumptuosos, outros nem tanto,
que fixam os orbes oculares do rosto no véu da lamentação.
o aviso ainda ressoa inteiro
e apesar de esgotados em tentação, os olhos permanecem cerrados.
a sinopse da escolha é inevitável!
no movimento imóvel iniciado está presente o término
porque as ilhas são pontos selados,
e a certa altura os pés retomam o caminho,
na companhia prazenteira da paisagem,
bebendo em goles as cores congénitas da natureza.
estes ciclos ajudam a circulação da seiva encarnada,
criando ondas retemperadoras onde nada se vê.
todavia, a meio do percurso,
a amplitude do sentir transborda os limites do corpo
e a essência renovada acompanha os espelhos cansados
no entrelaçar à génese da raiz das árvores.
quando os movimentos encontram o ritmo do movimento
são necessárias fendas nos reflexos e feridas na epiderme,
pois é pelo rasgar que irrompe a beleza no uníssono.
e o peso do corpo torna-se avassalador.
mas, na dor que é origem, os gritos são silenciosos.
as formas informes ocupam o buraco horizontal
e a ígnea chama que sempre existiu brilha no azul da alma
porque o interior da natureza é índigo.
é aqui que o calor funde as existências
e o apelo ao abraço fresco do cosmos é recitado.
mas não haverá ventos estivais,
apenas um manancial em repouso
onde o impacto do corpo ressuscitará.
só no imo as preces de louvor são índole de carácter!
só a desfragmentação individual se unirá à unidade!
após a odisseia metamórfica no colectivo do coração
a distância entre a porta ajusta-se ao momento do destino.
é neste ínterim que a força do novo homem se transfigura.
regressado da dualidade, resgatado para a realidade.
em corpo presente!