“esculpo a sede: nenhum desígnio será a falência de um astro.
a vertebrar uma rosa tardia sob o corpo
há a distância inconfidente
desde o princípio do espanto
ao arquejo final de uma ave no país das chuvas.
há quem me diga que nascemos fora dos sonhos
e toda a largura do corpo
é o vazio integral onde nenhuma estrela pousa.
digo-lhes que ao corpo de uma lua
reserva-se a projecção das árvores e a multiplicação da luz.
o tempo
é uma fronteira improvável para deter as águas.
haverá sempre uma seiva de maré inconsentida
a redimir a sede: uma fonte nascendo
na jugular do silêncio.”

Luísa Henriques


Kozjak Slap, originally uploaded by Santi RF.

 

a obliquidade do olhar apaga-se.

no i_manifestado dos cruzamentos
os celeiros são amarelos!

e no acontecer
do deserto branco de coral,
trocam-se flores nos tabuleiros xadrezes.

só as torres de ébano tocam o Céu!

 

in Interlúdios da Certeza


Silver moon, originally uploaded by Spy to die 4.

 

depois do fragor do ruído
a memória da conquista é breve.

sobra a espuma nas conchas
em momento de nudez
                                                     luar.

ondas lisas em prata
no silêncio do mar.

nesse sonho repousa o búzio,
em teu nome,

murmúrio.

 

soubesse eu que eras ténue!
brisa dos cinco elementos.
formada no rompimento dos tecidos humanos
ou em desejos momentâneos.
já idos! em Março.

vislumbrei-te sem halo.
intacta!
como a lua despida ao Outono.
e aceitaste-me com um sorriso de estrelas.

foi no hausto do instante,
inebriado pela miríade dos sentires,
que me deixei,
despercebidamente, sucumbir.
o tempo foi-se, exausto.
e nem sequer, os teus lábios provei.

soubesse eu que eras ténue!
mas não soube.
e despojando-me das vestes artificiais,
fui pregar às areias do vento.

o voo das aves corria no fluir das lágrimas
ou na força vital que pulsa nas artérias,
e foi nas águas do deserto
que reencontrei a dupla hélice da vida.

a lembrança? deixou de estar corrompida.

falhei o teu breve partir.
mas sei-te ténue, sei-te minha.
no profundo das sequóias vermelhas.

  

in Comentários na face da Noite

Génesis

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça … – Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade… Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena (1919-1978)

 

O Eu
e o meu Eu,
findam com a morte.

Deles,
apenas fica a lembrança
que por si também é efémera.

Se os outros não recordarem,
até o reconhecimento do meu Eu,
                                                                        cessará!

 

in Metafísica [Poética]


Tree of Wisdom, originally uploaded by SESeskiz Art Studio.

 

observo no caos uma ordem irrepetível
que nenhuma tentativa consegue reproduzir.
aí reside o elemento criador,
que se recria numa contínua (r)evolução.
porque o que foi, foi-se
e o que é, somente o é enquanto for.

apenas o imutável é obscuro.

a luz acompanha o tempo
alimentando o renovar dos sorrisos das crianças que crescem.

realizam-se os enigmas previstos
sem qualquer manipulação.
só assim se percorre o trilho ancestral,
só assim se farão as respostas,
apesar das ilusões nas paredes humanas.

eis que se manifesta, continuamente, o antigo.
num diálogo interplanetário,
num renascimento que faz a força da essência na entidade universal.

e o saber encarna,

                                          em alguns de nós.

 

in Anima Temporis

Feliz Ano Novo!

 

(em Tolerância, Amor, Harmonia, Luz e Paz!)

 

 

 

May the light of the Creator shine upon you!


Sunbeams in the Forest, originally uploaded by algo.

 

Within the Forest of Mysteries,
crossing the corridors of light,
we contemplate the ice caves of the sun.

Such a place favours dreams
where, surrounded by a row of red fire veils,
surfaces the crystal castle.

Yet, I lost myself in time
wandering through sacred passages
searching the green void,
losing the tears of trees.

At the ample and silent edge, I ponder:
How profound is the deep?

And questions are creatures,
simple and quiet,
making the shallow core of the rain
inside yesterday’s breeze.

Perhaps the senses are returning to the cradle?

The obscurity is lit by blue torches.
But inside the white pearl collar
there’s no lifeblood or insignia.

Just a soul of unconscious being.

And I still am
                               my own orphan!

in SubstanceS

SOMBRAS DE SILÍCIO

 

“{comecemos por aqui}: a mesma sombra
esteve por baixo de muitos corpos, de suas
águas e urgências, algumas primitivas, que num
ápice atravessaram o subterrâneo
de todo o tempo. {e depois, porventura, alguém dirá}:
o mesmo sexo não produz o mesmo filho, bem
como a mesma frase não gera o mesmo amor.
e então talvez haja necessidade de falar por escrito,
dentre as sombras de carolinas a florir,
e escrever por exemplo isto:
não sei em que sombra te foste probabilizar. continuo
sentada sobre a memória náufraga e hirsuta
que ainda constrói
lugares distantes com aves de silício,
com corpos sem corpos que
afinal são arte, e sensações que partem
do seu epicentro
à procura de uma distância onde se possam medir.”

Sylvia Beirute

Spiral Ramp, Vatican Museum, Rome, originally uploaded by kpangel68.

o propósito da locomoção não é linear.

apenas o caminho é certeza para os pés,
autenticas bases movíveis que descrevem caprichos ondulares.

depois vem a dinâmica do equilíbrio,
onde, no entoar de diferentes ecos, os passos são a voz da idade.

é pelos pedais que se atingem as espirais paralelas das utopias etéreas,
os círculos constantes da rotação sagrada
                que perfaz o sustento profano da máquina.

e pedala-se a vida no semear das cruzes sombrias da tecnologia,
perpetuando o slogan alegremente subvertido:
a morte é uma bicicleta transfigurada.

mas nenhum pé se atreve a parar.

o propósito da locomoção não é linear.
é alucinação desprotegida!


Leaves & Sky, originally uploaded by stribs.
 

nunca acordo quando as brisas transcendem o sonho em amor.
relaxo, no embalo da cama de rede do êxtase sereno.
no sustento dos braços da amada queda-se a protecção da existência.
note-se a atracção mútua dos corpos!
mas as árvores continuam a desafiar a gravidade,
erguendo-se para o abraço dos céus.

há algo de deslumbrante
quando os dedos de anil transparente embalam as folhas em ternura.
é assim que os ramos hirsutos se renovam em verde vivo,
elevando-se como arquipélagos que abraçam a orla do mar celeste.

foi no principio que o verde se enamorou do azul!

desde então,
entrelaçam-se nas linhas do horizonte em afagos graciosos
que mergulham nos pomares laranjas do poente,
onde, no encurvar do sono, repousa a paixão.

nunca acordo quando as brisas transcendem o sonho em amor.
apenas me entrego ao assombro,

                                                                                 no espanto por ser!

 

in Anima Temporis

Sunset on Easter Island, originally uploaded by Leeuwtje.
 

toupeiras metálicas em trilhos despertos.
amarelos! como salamandras ao sol.
ou esculturas perenes,
ausentes da perspectiva visionária,
num sono eléctrico de nuvens estáticas.
onde se formam arquitecturas obliquas.

pendentes brilhantes fazem a época.
mas fractais? só para lá do horizonte,
das cordilheiras, dos ventos.
perguntas se existem imagens nas transparências?
apenas em todos os espelhos negros.

nas névoas constantes,
os mortos remexem a terra!
no sal da terra,
suores escavam rugas!

e solta-se o dragão flamejante dos sonhos.

há quem ouse,
e é verdadeiramente ousado, possuí-los.
os terceiros!
não os próprios. esses não são utopia!

procuram quereres magnéticos para a infância.
como árvores mudas de folhas em chamas.
se fossem azuis eram minhas!

em campos de flutuação frágil,
o grito é matriz solta.
vulnerabilidade perfeita, logo defeituosa!
mas as aparências regem o mundo. e as mães sofrem
enquanto os bastardos que decidem riem.
como se não fosse preciso pão.

condição da humanidade? as dúvidas!
em reminiscência. quais votos em branco.
e vencem qualquer concurso de variedades!
tu sabes. foste premiado.

não há comida grátis!
mas toda a abundância é publicitada.

 

in Diálogos em Epistolas Inertes


Cd Art (700+ faves), originally uploaded by Boab24.
 

U2
Aviação                    Música
Culto

 

Pop
    Arte                  Warhol
Museu

 

in Aforismos e Reflexões Poéticas

 

outrora foi contemplado
o momento para o qual fomos criados.

exultando,
correntes cósmicas reúnem-se
para o semear de cometas dourados.

tempos conjugam-se na linha em amor
e o azul amplia o horizonte,
onde safiras transparentes compõem as lágrimas das estrelas.

as constantes partiram em paz
e todos os corpos celestes rejubilam em silencio.

na pirâmide mística da evolução
o altar, decorado com pérolas flamejantes,
aguarda o consagrar dos votos.

Beijo em teu coração.
A noite virá mais serena.

Beijo em teu imenso ser.
O sol trará outro dia.

somos poesia dos deuses,
verbo da Luz.

 

 

(jamais seremos sós!)

 

ser poeta é ser tudo e nada.
é ser narrador e explorador.
é passar para além da entrada
e participar no mundo de dor e amor.

ser poeta é ser escultor
do que se vê, se sente e não se finge.
é ser eterno sonhador
e ansiar alcançar a pureza da Esfinge.

ser poeta é ser inventor.
é desejar que as palavras tenham vida.
é, por elas, ser criador
de esperança, na lembrança conseguida.

e também ser,
no todo que é nada
e no nada que é todo,
é ser poeta.

 

in Espelhos e Outras Faces

 

dei asas ao manto denso da noite.

para que o silêncio caísse nos braços da luz
e os véus não circunscrevessem os riachos.


sunset road, originally uploaded by hkvam.

 

Ao longo da existência
                                                 do Ser
debate-se,
na sua formação e evolução,
a oposição
                                                 do Eu exterior
                                                 ao Eu interior.

Social
ou individual?

Dizer o que se pensa
ou o que os Outros querem ouvir?

Sujeição da vontade pessoal?
Dilema da verdade existencial!

 

in Metafìsica [Poética]

 

o tempo,
sensorial e não só,
é uma dádiva porque provém do Ser e de ser existência.

talvez tudo derive da fonte hermética e todos os dias o universo se pense.
talvez a consciência (des)fragmentada na fluidez do movimento
aconteça no piscar dos sonhos,

onde somos água em evolução!

Homens com ambição
são políticos sem convicção.

Quer no governo,
quer na oposição,
o que dizem num momento, desdizem noutro,
consoante a posição que detêm:
governo ou oposição.

Fazem leis sem ciência!
Na urgência do instante,
sem consideração pelo futuro,
pelo voto sem consciência,
na protecção da imunidade.

Porque o partido não é individual
e o partido é a justificação total.
Sem ele, não são políticos!
Sem ele, são responsabilizados!

Políticos!
Sejam de esquerda,
sejam de direita,
tem preocupações comuns:

A demagogia,
pela qual obstruem e afundam a democracia.
E o bem-estar.
Os políticos preocupam-se com o bem-estar.

Com o deles!

 

in Aforismos e Reflexões [Poética]

sem nexo

“dos ébrios diálogos sem nexo
farei matéria-prima
para que não se oprima a minha sintaxe
ao ferro frio do que é aceito nos salões da elite
nos requerimentos e decretos
nos livros acadêmicos

terei talvez que me livrar da biblioteca
investir o tempo nos botecos
nos mercados populares
nos bancos das praças
nos braços das putas
no psy trance, no funk, no rap hip hop

ôôôôôôôôôôô

neste ponto o poema se interrompe
não ainda para configurar a ruptura
mas para evitar um final insosso
tentemos, então, uma feijoada
ou algo de igual sustança e alento
tentemos um copo de cachaça
uma roda de samba no morro
mas o final interrompido volta à tona
tal bosta que não tolera o fundo da latrina:

se eu sumir, não der notícia,
não me procurem
terei encontrado
mais que a sintaxe das ruas
as balas perdidas da policia
uma maca infecta no corredor do pronto-socorro
um empolgante tiroteio entre milícias
um traficante transtornado vestido de rambo
um rabo-de-saia que me armou uma cilada

ôôôôôôôôôôôô

três nós de dedos na madeira
toc-toc-toc
isola

é melhor não correr riscos
conformar-me à minha sintaxe oprimida
pedir outra dose de uísque on-the-rocks
ouvir uma valsa vienense
vestir um fraque alugado
ir a paris afundar no crediário
hipotecar a casa o gato o futuro
emitir três talões de cheques sem fundos
comer salada de chuchu tomate e alface
nem um grama de gordura
abaixo a picanha, o torresmo, o miolo de alcatra
olhe o seu colesterol

ôôôôôôôôôôôô

três nós de dedos na madeira
toc-toc-toc
isola

a vida não tem nexo, meu chapa

este poema…
ôôôôôôôôôôôô
é melhor não correr riscos.”

Fred Matos

The Shell, originally uploaded by G a r r y.

 

no embalo da voz interior,
a desnudez das palavras.

no dardejar do manto verde,
brisas azuis em lágrimas.

a luz em sombra submerge o moldar do abraço recíproco.
nesse poente,
nuvens de cardos ruborizados e papoilas púrpuras
soltam as flechas douradas do amor.

sim!
no embalo da voz interior,
a desnudez das palavras.

onde o toque aprofunda o sentir,
fazendo-nos na indelével cor do tempo.

tudo o que se vive é sempre o momento.

em entrega,
ao mar em sentimento!


Glass buildings, originally uploaded by (Erik).

 

Num acto anímico,
o abstracto exprime o inexprimível.
Mas criar vida é irrepetível.

Arte,
é expressão humana desprovida.
É a criação que é distracção.
É cultura e nascente de reflexão.
Mas não é verdadeira fonte.

Só o Homem é arte viva!

 

in Metafísica [Poética]

Tender fall, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

a distância entre a porta ajusta-se ao momento do destino.
tal como as escadas rolantes são ilhas,
onde as pernas se imobilizam,
duplicando um movimento que não se perpetua.

só num local
– indefinível, porque obscuro,
algures, porque discreto –
as acções são duais.

mas a transposição para esse lugar implica
a queda num buraco octogonal de espelhos cansados.

como o homem não pode conviver,
simultaneamente, com o passado e o futuro,
a queda requer faces vedadas aos segredos disponíveis
e deformados pela velocidade horizontal do salto na penumbra.

até que as correias electromagnéticas se façam sentir
a aceleração será uma constante e a fé será posta à prova
por um corpo abandonado ao seu próprio ónus,
ao sabor das gargantas profundas da gravidade.

não haverá pára-quedas.
são chuvas que libertam a torrente de memórias gastas.
e, em minúsculos pontos que brilham nas paredes do fosso,
ocorrem explosões de astros
puxando os dedos na direcção da entrada,
como um instinto que procura sobreviver à redenção do momento.

nada inverte o passo dado!
nem a espuma dos cometas diurnos
ou o trilho das bolhas de sabão suspensas o consegue.
tudo depende do sangue da fé!
e esta depende dos neurónios do desejo,
entregues ao mais perfeito êxtase,
siderados pela inclinação do sigma constelado.

relata-se um sonho gerador de pensamentos.
alguns sumptuosos, outros nem tanto,
que fixam os orbes oculares do rosto no véu da lamentação.
o aviso ainda ressoa inteiro
e apesar de esgotados em tentação, os olhos permanecem cerrados.
a sinopse da escolha é inevitável!

no movimento imóvel iniciado está presente o término
porque as ilhas são pontos selados,
e a certa altura os pés retomam o caminho,
na companhia prazenteira da paisagem,
bebendo em goles as cores congénitas da natureza.

estes ciclos ajudam a circulação da seiva encarnada,
criando ondas retemperadoras onde nada se vê.
todavia, a meio do percurso,
a amplitude do sentir transborda os limites do corpo
e a essência renovada acompanha os espelhos cansados
no entrelaçar à génese da raiz das árvores.

quando os movimentos encontram o ritmo do movimento
são necessárias fendas nos reflexos e feridas na epiderme,
pois é pelo rasgar que irrompe a beleza no uníssono.
e o peso do corpo torna-se avassalador.
mas, na dor que é origem, os gritos são silenciosos.

as formas informes ocupam o buraco horizontal
e a ígnea chama que sempre existiu brilha no azul da alma
porque o interior da natureza é índigo.
é aqui que o calor funde as existências
e o apelo ao abraço fresco do cosmos é recitado.

mas não haverá ventos estivais,
apenas um manancial em repouso
onde o impacto do corpo ressuscitará.
só no imo as preces de louvor são índole de carácter!
só a desfragmentação individual se unirá à unidade!

após a odisseia metamórfica no colectivo do coração
a distância entre a porta ajusta-se ao momento do destino.

é neste ínterim que a força do novo homem se transfigura.
regressado da dualidade, resgatado para a realidade.

em corpo presente!

 

i carry your heart with me

“i carry your heart with me (i carry it in my heart)
i am never without it (anywhere i go you go, my dear;
and whatever is done by only me is your doing, my darling).

i fear no fate (for you are my fate, my sweet)
i want no world (for beautiful you are my world, my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you.

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart.

i carry your heart (i carry it in my heart).”

e.e. cummings


This morning, originally uploaded by Andreas Reinhold.
 

existe uma flama perpétua na alma
que nos liga ao indivisível arquejar do sopro divino.

apesar do tecido poroso que se estende para lá das dobras,
a melodia da água pulsa,
nas ondas do incomensurável,
em ténues suspiros que nos chamam incessantemente.

nos estios dourados,
tristezas também fazem as magnólias em flor.

e o pólen beija as searas em chuva.


Wadi Rum Landscape, originally uploaded by bgladman.

 

Onde profetas falaram!
Onde fortalezas cresceram!
Onde viajantes se refugiaram!
Onde heróis se fizeram!

Em, Wadi Rum,
o tempo permanece uno.

E a Voz, ainda, ecoa.

 

in Geografia e Outras Circunstâncias

 

Blue flames,
scurries souls.

Sandstorms and blights,
lamb’s wool and movies sounds.

Yet opulent,
every fundamental notion is drained.
Ruby mountains are no more!

Gone with the rain,
nothing remains in celluloid.

Drifts of green soil?
Desert lakes.

Irrelevant pieces of desire!

 

in Substance(S)


Cold Green Peak, originally uploaded by fear of light.

 

barragens de luz irrompem das membranas da terra,
anunciando a pálpebra do dia.
e a penumbra desce à limpidez do leito lunar,
no dardejar do passado escondido.

atendendo às brisas dos jardins inocentes,
as pedras são poros que ascendem serenos.
mas há pedidos irrecusáveis!
tão poderosos como o ar que se respira.
e na transição,
aguarda um vento agridoce que alisa o eclodir das carótidas,
suavizando o dispersar da seiva existencial
e amainando o pulsar que vibra nos espelhos.

é nesta ligação que se formam os arquipélagos de nuvens,
a última camada doce que anuncia a orla da densa imensidão.

ocres, verdes, azuis e negras,
as camadas são membranas em si.
um ciclo elegante,
onde se rompe a noite e se rasga a luz,
na enunciação do tempo imemorial.

e acontecem músculos cansados.
exauridos pelo drenar da brandura íntima
na cedência do veio de energia aos lábios do desejo.

só assim se liberta o grito púrpura do horizonte
e se arejam as convulsões encerradas nos quartos antigos.
é então que as labaredas insuflam o crescente
e o abraço magnético devolve a gravidade às pedras
enquanto as crepitações ressoam no eco das arenas vazias.

a oclusão dos caminhos emerge na linha da raiz
formando a força da áscua terrena,
renegando a inexistência causal dos elementos,
libertando as sementes em chama ao abraço da criação.

terra, ar, fogo e água!
mantos puros que dão vida,
vestes de luz que envolvem o atravessar do destino.
mas só nas ondas de menta fresca se elevam os portais.

no mar,
vive a alma feminina.
a água é a sua expressão.

o desejo é uma orla onde se colhem os sonhos!

o meu é ser na face dourada onde se renovam túnicas de aljôfar,
pela lágrima nos tempos, utopia em luz.

Sao Pedro 06 534, originally uploaded by vfswa.
 

PARA ALÉM DO HORIZONTE, ESTÁ O MULTIVERSO!

~ The Outer Limits, originally uploaded by Mackeson.
 

Limites de duas
faces. Vêem-se de dentro e
de fora. Nada coincide.
Só os inversos das
perspectivas paralelamente
opostas, nos recônditos
refugios da ilusão.

Foram-se os momentos
perdidos. Resta a fronteira.

 

in Da Natureza e Afins

 

a face de Deus!
ou corpos que se enrolam no chamar.

leves jóias nos pincéis.
reimpressões dispersas em mel,
crinas amarelas nos corcéis.

desintegro-me na densidade do pleno.
qual breve instante consubstanciado,
no tempo atroz das dúvidas persistentes.

e contemplo a dança viva da cores
na magnitude da desordem criada.

sou submisso do prazer!
no encantamento das flautas douradas.

Shimmering Substance,
liberdade reunida em essência.

*** *** *** *** ***

the face of God!
or bodies that roll in summon.

concise jewels in the brushes.
dispersed reprintings in honey.
yellow locks in the steeds.

I disintegrate myself in the density of the whole.
as a brief consubstantiate instant,
in the atrocious time of the persistent doubts.

and I contemplate the living dance of the colors
in the magnitude of the created chaos.

I am a servant of pleasure!
in the charm of the golden flutes.

Shimmering Substance,
freedom congregated in essence.

 

in Odes & Homenagens


White Light, originally uploaded by Philippe Sainte-Laudy.

 

Nós não conhecemos o ser das coisas.
Deciframos o mecanismo
mas ignoramos a razão.

Nós não nos conhecemos!

Então,
deveremos ousar
desvendar
os criptogramas
do infinitamente grande
e do infinitamente pequeno?

Não é verdade
que ainda nos desconhecemos?
Não é verdade
que ainda desconhecemos
o ser das coisas?

Sem conhecer, seremos infinito?

 

in Metafísica [Poética]


Tempo…fermo, originally uploaded by mareluna_99.
 

marca-se o tempo da existência
na existência em tempo.

mas o tempo tem uma existência
diferente da existência no tempo.

do Tempo brotam os tempos em vida,
da Existência surgem as existências em Ser.

Tempo?
Existência?
águas no mesmo lago de luz.

e, no fluir do In-finito, tudo é passagem!

talvez seja mais um tempo para a consciência intemporal?

talvez seja aniversário?

 


UNIVERSO EM REVOLUÇÃO, originally uploaded by Robson Valichieri.
 

um manto profundo envolve o pulsar
que anima o centro nu da essência.

talvez a tremura seja um arquejar da mudança
que tece a malha quântica?
mas os olhos das estrelas é génese das pérolas azuis.

nós?
universos em silêncio,
somos o fundir dos corpos astrais

na contemplação do esquecimento.

M64, originally uploaded by WolverinesDen.

 
 

abraços em luz
descaem à fusão da origem,
na convulsão da vida.

 

e o silêncio é um beijo em criação,

num (e)terno instante de entrega.

Pawnee Celestial Pondering, originally uploaded by Fort Photo.

 

“Ser Homem é tender a ser Deus”
                                                                        Jean-Paul Sartre

Só quem foi mortal
poderá ser mais.
Mas tal possibilidade
é impraticável na mesma viagem.

Apenas pelo ritual
                                     da passagem
a transcendência acontece.

Sempre em tempos diferentes.
Sempre na esperança de recordar.

Tudo pelo desejo de ser
                                             livre.
Ilimitadamente
                                Livre.

 

in Metafísica [Poética]


energycreationbelly – monad, originally uploaded by sanchezdot.
 

Os sonhos são
a mais profunda aspiração.
Privados,
intrínsecos,
únicos ou comuns,
positivos ou negativos,
e, até, partilhados,
os sonhos
são momentos
que permitem voar,
pois conseguem libertar
os mais ansiados pensamentos.

Os sonhos só são sonhos
enquanto os deixarmos ser.

Está ao nosso alcance fazer
com que passem a ser
o que, por eles, desejamos ter.

Os sonhos só serão sonhos
se assim os quisermos manter.

 

in Letras, Palavras e Linhas: gestos pela diferença

preenchi-o, em tempos idos.
nalguns dias o fiz.
noutros não, por serem vis.
mas todos os momentos foram vividos.

as páginas do diário!
nelas estão presas as linhas preenchidas
e o espaço branco de alguns dias.
fragmentos de um calendário.

o que nem aos espelhos confesso
são, nessas folhas, palavras despidas.
diálogos de amor e de ódio.

perdi-o numa viagem sem regresso.
dele restam memórias perdidas
e uns breves retratos de ócio.

 

in Pensamentos e Reflexões Poéticas

lágrimas,
no oceano da humanidade,
moldam ondas sensoriais
em ventos de luz.

diáfanos plasmas fluem
nos alicerces do centro do ser

palavras inaudíveis,
são beijos trocados
na ternura do permanecer.

mera intermitência,
entrego-me,
incondicionalmente,
à tua pertença.

Mulher!
Mãe!
Futuro!

 

in √81 = IX ?

Penso que penso que não penso.

Penso no grito. Meu! Mudo!

Penso que não existo só quando penso
porque existo quando não penso.
Penso que não importo
porque não importa o que penso.
Penso no sonho
porque sonho o que penso.
Penso que sou o que não sou
porque o que sou não penso.
Penso que conheço
porque desconheço o que penso.
Penso no que não digo
porque digo o que penso.
Penso no mundo
porque o mundo não é o que penso.

Penso que não penso o que penso.

Penso no que continua mudo.
A vida! O futuro!

Penso no que não ouso.

Viver?
Sobreviver!
Eis o que penso!

in Pensamentos e Reflexões Poéticas

 

Sempre,
que tenho o prazer
de com a natureza te alegrar,
pelo mesmo motivo,
fico triste
e contente.

 

Não interessa onde vá procurar!

 

Tenho a certeza
que nunca irei encontrar
uma flor,
tão bela como tu.

 

 

in 30 Mensagens de Amor e Uma Recordação

não há calor.
e partículas orgânicas descem da profundidade.

bactérias bio-luminescentes
fazem as manchas na extremidades dos membros.
só a escuridão as revela.
num chamar que é sobreviver
em competição feroz.
mas o instinto honra a existência.

na densidade taciturna,
todo o engodo é precioso.
nada pode parar.
necrófagos imóveis serão restos pútridos.

ocasionalmente,
surge uma abundância inesperada.
até que a ossada seja nua.
tudo se transforma … em energia.

o tempo fará o esperado onde a neve marinha
alimenta os ténues rastos nos sedimentos pressionados.

neste limiar gélido
desenvolvem-se diferentes entidades.
minerais dissolvidos emergem das fissuras antigas
que ligam ao interior incandescente da terra.
para que a vida prospere,
as águas sobreaquecidas são fonte.

mas a opulência propicia o ócio e o desdém pelo essencial.
e dádivas são desperdiçadas levianamente.

nos antípodas,
há momentos tristes nos olhares do dia.

faces inexpressivas desenvolvem-se humanas,
apoiadas na paleta da maquilhagem,
animando as almas voluntárias que rondam os jardins.

nos cruzamentos maquinais dos seres,
a ausência aumenta o fosso do contacto
exaurindo a chama da comunidade na filáucia individual.

aqui há calor.
não há é valor, por existir.

 

in da Natureza e Afins

A CASA

“A minha irmã a trouxe: a foto da casa onde nasci,
como se fora uma gaivota de névoa.
Agora, a casa respira a meias com o longe
que nos separa da infância. As suas raízes
sobrevoam, tão cúmplices, tão subtis,
os nossos corações atordoados de menina.
Do fundo da tarde adivinhamos, sei lá,
o sótão pintado de pretéritas inocências,
a janelinha por onde as bolas de sabão
nos levavam, em estado de sonho,
por lugares que só o imaginário sabe.
Onde está o retrato do medo,
que sabíamos de cor, mesmo sem o olhar?
Onde está a outra menina
que connosco partilhava os frutos
de todas as estações e a quem,
também, chamávamos irmã?
Em vão, esperar a mais perfeita lágrima
para, em nome da sua ausência,
reconstruirmos a casa.”

GRAÇA PIRES


Idéias isoladas, originally uploaded by dpadua.

 

A faísca aprisionada
brilha na lâmpada da ilusão perene.
Resignada,
existe ao sabor do interceptor
numa amplitude cristalizada.

O artificial fê-la,
o fortuito suporta-a.

Queima a carne e alimenta o espírito.
Não o seu. Mas, talvez também.

Monopólios?
Só partículas e estilhaços.

Nunca em liberdade.

O do Inatingível e outros Cosmos celebra o primeiro aniversário.
Como festejo, aqui estão alguns dos dados e curiosidades que fazem esta data:

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Soubesse eu que eras ténue
Fragmentos
Canto Único
Chamas Transparentes (para Herberto Hélder)
Peregrinação
Aspiração
Absence
Águas do Verbo (para mariah)
Gratidão
Tempo de Viver

Agradeço a todos que por aqui passaram e todos os Cosmos que me mostraram.
UM PASSO NOVO NA VIDA É UM NOVO UNIVERSO NO TEMPO.

Bem hajam!

“… Raramente sabemos do que somos capazes até nos depararmos com as situações …”
VIRGÍLIO, poeta latino (70-19 a. C.)

 

Na altura de enfrentar a situação
oxalá me seja permitido ver,
uma cabeça erguida
na face lisa do espelho
                                             reflectida.

E que a postura vista
não seja ao orgulho devida.

 

in Espelhos e Outras Faces

 

chove

no corpo
em passagem

o sonho
para o futuro.

 

(inspirado em Suave Coisa)

Recebi da Adelaide Amorim – Umbigo do Sonho e Inscrições – o prémio Arte y Pico, que humildemente agradeço.

 

arte_y_pico1

Este prémio que foi criado com o objectivo de premiar a criatividada, desenho, qualidade material e contribuição para com a comunidade da blogosfera, independentemente da sua origem e língua.

O blogue que receber o Arte y Pico deverá, por sua vez, atribuí-lo em acordo com as seguintes regras:

1. Escolher cinco blogues que considerar merecedores deste prêmio e dos seus objectivos;
2. A referência aos cinco blogues escolhidos deve ser feita pelo nome do(a) autor(a) e do respectivo link de maneira a que os mesmos possam ser visitados pelos leitores;
3. Cada escolhido deve exibir a imagem do prémio e indicar o nome e o link do blogue que o seleccionou;
4. Todos os beneficiários deste prêmio devem incluir um link para o Arte y Pico para informar os leitores sobre a origem deste prêmio.

Eis as minhas escolhas:

Elena Soto
Gabriela Rocha Martins
Graça Pires
Hercília Fernandes
o’sanji

Bem hajam todos!

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