No Corpo de Gaia

circled, originally uploaded by hkvam.

 

desejos latentes no etéreo
abrem-se paradoxalmente ao templo que se encerra.
as pálpebras das estrelas permitem brilho
às fendas escuras do horizonte,
sinalizando o trilho para o destino das almas.

há algo triste na tarde que se entrega,
mas toda a energia é panorâmica
e deixa um leque de sangue nas vestes amarelas.
nem o vento que arrefece as savanas
afronta essa dádiva onde pulsa carne divina.

espíritos animam os seios de Gaia
podando as auréolas dos cumes sagrados.
e chamas são erigidas nos altares,
louvando o corpo que soçobra em choque.

no limite da exaustão,
as danças produzem melancolias piroclásticas
que envolvem os membros despidos,
invocam sete palmos de água descendente,
refrescando os fragmentos ígneos da raiz da terra.

o movimento da miriápode celebração
igualmente avoca a presença dos druidas.
diversas fracturas são infligidas no Ânima.
e a ara fixa-se no pulmão da sutura,
velando pelo oxigenar das sementes de fogo:
quando o novo amanhecer acontecer,
aqui reflorirá o cântico do equinócio.

tenro é o período das ondas de renovação
mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser.
e o corpo desenterra-se da erosão imemorial do tempo,
anunciando o aligeirar do afélio interior.
vagarosamente, a trindade cêntrica estremece
despertando o poder da potencialidade absurda:
Energia, Espírito e Alma vibram para a plenitude.

ocorrem avisos anamórficos da auto-regulação
cuja amplitude devia chegar aos inquilinos desrespeitadores.
mas a atitude hodierna prevalece intocável
e não há consideração pelo que nos foi oferecido.

num provir isócrono que se gera por si só,
reavivados sussurros soltam o teleológico antigo
demonstrando a existência da ecosfera primária.

soam as horas atrozes do crepúsculo púrpura!
o tronco materno ruge sereno:
as águas sobem e os ventos ventam estranhamente,
desfraldando as abas do éter interior da cosmogonia holística.

o ente imenso recria-se para sobreviver ao impacto humano
e convulsões orgânicas surgem abruptamente desta cisão.
mas a semente da luz aguarda no ventre da Mãe terra.
uma nova dignidade emergirá e novas mãos a seguirão

nova era de esperança no respeito da lembrança.
em união omnisciente, no corpo de Gaia.

7 responses

  1. Um poema que extasia, ora pela realidade, ora pela beleza da escrita poética.

    A imagem muito bem escolhida percorre em sangue e seiva cada verso.

    Só posso dizer: Vicente, você ´LUZ!

    Parabéns, poeta!

    Beijos

    Mirze

    Maio 5, 2010 às 16:36

  2. De cortar a respiração.
    Parabéns.

    Maio 5, 2010 às 18:34

  3. EF

    “o ente imenso recria-se para sobreviver ao impacto humano
    e convulsões orgânicas surgem abruptamente desta cisão.
    mas a semente da luz aguarda no ventre da Mãe terra.
    uma nova dignidade emergirá e novas mãos a seguirão

    nova era de esperança no respeito da lembrança.
    em união omnisciente, no corpo de Gaia.”

    Esperemos que assim seja. Não há dúvida que a Terra está a reagir.

    EF

    Maio 7, 2010 às 17:46

  4. Caro Vicente,

    não fico indiferente à sua poesia.
    Você consegue reflexões profundas através da escrita.

    Obrigado
    Pedro

    Maio 7, 2010 às 17:47

  5. TV

    “tenro é o período das ondas de renovação
    mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser.
    e o corpo desenterra-se da erosão imemorial do tempo,
    anunciando o aligeirar do afélio interior.
    vagarosamente, a trindade cêntrica estremece
    despertando o poder da potencialidade absurda:
    Energia, Espírito e Alma vibram para a plenitude.”

    Fantástico!

    Maio 9, 2010 às 23:06

  6. Conceição Carvalho

    …”tenro é o período das ondas de renovação
    mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser”.
    Fabuloso! Pelo conteúdo e pela sua bela escrita. Parabéns, Poeta!

    Maio 22, 2011 às 07:48

  7. Conceição Carvalho

    …”tenro é o período das ondas de renovação
    mas sangue terá que correr para que outra seiva possa ser”.
    Fabuloso! As palavras do poeta encantam… entram no mais profundo sentir de qualquer humano. Parabéns, Poeta!

    Maio 22, 2011 às 07:50

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