Abismo(s)

não há calor.
e partículas orgânicas descem da profundidade.

bactérias bio-luminescentes
fazem as manchas na extremidades dos membros.
só a escuridão as revela.
num chamar que é sobreviver
em competição feroz.
mas o instinto honra a existência.

na densidade taciturna,
todo o engodo é precioso.
nada pode parar.
necrófagos imóveis serão restos pútridos.

ocasionalmente,
surge uma abundância inesperada.
até que a ossada seja nua.
tudo se transforma … em energia.

o tempo fará o esperado onde a neve marinha
alimenta os ténues rastos nos sedimentos pressionados.

neste limiar gélido
desenvolvem-se diferentes entidades.
minerais dissolvidos emergem das fissuras antigas
que ligam ao interior incandescente da terra.
para que a vida prospere,
as águas sobreaquecidas são fonte.

mas a opulência propicia o ócio e o desdém pelo essencial.
e dádivas são desperdiçadas levianamente.

nos antípodas,
há momentos tristes nos olhares do dia.

faces inexpressivas desenvolvem-se humanas,
apoiadas na paleta da maquilhagem,
animando as almas voluntárias que rondam os jardins.

nos cruzamentos maquinais dos seres,
a ausência aumenta o fosso do contacto
exaurindo a chama da comunidade na filáucia individual.

aqui há calor.
não há é valor, por existir.

in Diálogos, Epístolas Inertes

10 responses

  1. “Tudo se transfigura em energia” quando a poesia nos circula no sangue. E ateia o fogo. E maneja as palavras livremente.
    Um abraço.

    Maio 11, 2009 às 13:37

  2. AD

    Inteiramente.

    Por todo o lado há abismos.
    Principalmente nas relações humanas.

    António

    Maio 12, 2009 às 00:23

  3. Queiroz

    Vidas desperdiçadas,
    tempos consumidos.

    Belo poema!

    Maio 12, 2009 às 00:25

  4. ~pi

    não há tempo

    pas_sagem

    ( leve, leve,

    ~

    Maio 12, 2009 às 20:12

  5. Sim, “Tudo se transforma… em energia” – e o poema é uma expressão disso. Abraço amigo, Vicente.

    Maio 13, 2009 às 03:56

  6. “(…) e dádivas são desperdiçadas levianamente.”

    quantas? e quantas!

    Paulo

    Maio 13, 2009 às 15:33

  7. Abismos existenciais.
    Ou talvez não.

    Maio 14, 2009 às 11:43

  8. Kakais

    Um ABISMO de palavras recortadas e sem sentido. Quase um dicionário.

    Maio 20, 2009 às 14:07

  9. Na escrita utilizam-se “instrumentos” como metáforas e/ou metonímias, mas cabe ao leitor descodificar os sinais que o criador emite ou omite.
    Este seu poema é um acto de revelação que culmina nos dois últimos versos. É uma autêntica dádiva em criação poética.
    Muito obrigado,
    Alberto

    Maio 20, 2009 às 22:54

  10. Pelo estrato gráfico, há um despertar para um poema quase diametralmente oposto.

    Onde tudo vira energia, sai o fulgor vital do abismo.

    Mas o final: “Aqui há calor e não há valor para existir, confirma o “Abismo” em que nos encontramos.

    Parabéns, grande poeta!

    Belíssimo!

    Beijos

    Mirse

    Junho 2, 2009 às 02:07

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