Chamas Transparentes (para Herberto Hélder)

Herberto helder

(1930-2015)

falas de mulheres. de faces rosadas.

de mães e de gotas de água. de

batentes em semblantes sem tempo.

de fios umbilicais e de amor.

somente! sem nada por dentro.

 

falas de naturezas intrínsecas e

de imagens que alimentam. o informe!

de coisas mais altas. de pálpebras que

levitam em escafandros interiores. de

poços de petróleo invasores.

 

falas de orvalhos em flechas.

de pêlos sedosos e de ervas abertas. de

morte em pétalas puras. extasiadas.

de espinhos em cantos frios.

distantes e sozinhos. ou mudos!

 

falas de lembrança. em tudo!

de carne feroz em cítaras descidas. de

folhas inspiradoras como páginas brancas.

em estios enormes. recuados. inteiros.

em superlativos antigos.

 

falas de ausências deslocadas. de

sumptuosos vestidos em bailes sonhados.

de danças sem partitura. de breves

infâncias e titânicas investiduras.

de limalhas em artérias. absortas!

 

falas de pedregulhos púrpura. de

trevas escorregadias em idades sufocadas.

de uns tantos vivos em léxico. desnudos!

ao largo da fronteira da inspiração oca

curta. em luz de estações fluviais.

 

falas de meteoros.

(são belos os espasmos da criação!)

e também de cometas.

(são arados! que tratam do campo de estrelas.

resquícios do caos primordial, onde

apenas se manifesta autêntica liberdade).

 

falas de actos absolutos. mas

não existe absoluto. só evolução!

 

e falas de teorias.

todas o são. sem dúvida!

 

porém, a verdade é esta:

o universo nasceu para sucumbir!

toda a energia se esgota.

toda a vida deixa de o ser.

o milagre é a multiplicação das formas.

enquanto é. ou for. pois outra das certezas é

que o tempo não é humano.

só aqui reside a dádiva dos desígnios. maiores!

 

e no cânone?

apenas chamas transparentes.

realmente, a faca não corta o fogo.

só a mão que a empunha o faz!

 

eu?

falo-te dum simples abraço.

in Odes & Homenagens

18 responses

  1. Muito bom, Vicente.
    Gostei muito.
    Abração

    Março 3, 2009 às 17:24

  2. Uma bela homenagem!

    Março 3, 2009 às 19:55

  3. josemarto

    Absolutamente extraordinário, um grande , grande poema este , leio -o e releio ….
    Um abraço Poeta !
    __________ JRMARTO

    Março 3, 2009 às 22:14

  4. O equilíbrio das danças através das armadilhas.

    Março 4, 2009 às 13:11

  5. Sim, os abraços são melhores do que todas as palavras que possam ser ditas.

    Poema muito belo!

    Fa

    Março 4, 2009 às 23:15

  6. um belíssimo poema. na verdade, tu falas do essencial.
    beijos

    Março 5, 2009 às 22:04

  7. No repartir duma visão própria, uma grande homenagem.

    Excelente poema!

    Março 6, 2009 às 23:19

  8. Um abraço, no amor às palavras.

    Obrigado
    António

    Março 8, 2009 às 23:57

  9. chama

    viva

    [ondula
    dentro
    da voz]

    *abraço*

    Julho 26, 2009 às 19:33

  10. Maria Lessa

    Faz-me bem vir aqui e ler momentos de magia das tuas palavras…
    Um beijinho.

    Outubro 25, 2010 às 00:11

  11. Maria Antónia Moreira Anacleto Pereira Leite

    Que bom antes de adormecer ler este poema.As palavras esvaziam-se para comentar este abraço de alma-homenagem. Vicente poeta dos poetas, obrigada por seres, por existires…Leio e releio e sinto-me feliz.

    Outubro 25, 2010 às 01:05

  12. Pingback: Herberto Hélder (1930-2015) | TriploV Blog

  13. graça Pires

    Excelente homenagem a Herberto Hélder. Um poeta que fica para sempre em nosso coração.
    Beijo.

    Março 24, 2015 às 15:44

  14. A excelência da Poesia de Herberto Hélder dá para crescer num acto permanente de Homenagem. “[Falas de…]” Vida, muita vida. Porque não?

    Abraços

    SOL

    Março 24, 2015 às 16:11

  15. jhenifer

    triste perda a de herberto helder.

    Março 24, 2015 às 17:38

  16. Maria Antónia Anacleto

    “…Eu falo de um simples abraço!!!!” Lindo, Vicente. Obrigada. Os poetas nunca morrem….

    Março 24, 2015 às 18:01

  17. “- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.”

    Triste perda.

    Abraços.

    Paz e Luz

    Março 24, 2015 às 18:06

  18. Um excelente poema no abraço de outros poemas!
    Abraço, Vicente!

    Março 24, 2015 às 18:12

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