Peregrinação

 

dispersei o meu ser no desprender das folhas
às suplicas do solstício. talvez assim também fosse
na essência dos verbos da noite. mas fui levado
para as terras inertes da lembrança cega.
não procurava as palavras revestidas.
e julguei-me perdido nas aparências das sombras.

por estas partes,
o desfiar do destino era ausente. assim, esperei
que as orlas enrugassem para me soltar, agora, no desconhecido
e reunir-me nas escarpas suspensas da luz.

foi o facho do farol da saudade que indicou o sentido.
a ânsia do regresso animou-me
e senti os lábios da esperança. até que, escorrido,
nos campos das framboesas laranjas,
o meu alvéolo finito se enxugou.

e, apesar de mortalmente ferido,
permaneço nas avenidas ocres do poente.

ressuscitarei.
                                   uma e outra vez.

sim. ressuscitarei!
                                               uma.
                                                               e outra vez.

pelo som da mão que molda os gestos da criação.
pela escrita da voz que forma as letras primevas do cosmos.

qualquer dia.
um dia!

in Diálogos, Epístolas Inertes

12 responses

  1. Vagner Heleno

    ótimo, zeitgeist.
    mortalmente belo.

    Fevereiro 20, 2009 às 05:18

  2. Arménia

    Muito belo…e a imagem muito bem escolhida.
    bjs

    Fevereiro 20, 2009 às 12:35

  3. Lindo Vicente
    apesar de pensar que a saudade é, exactamente, a inversa.

    beijinho

    Fevereiro 20, 2009 às 22:25

  4. Ressuscitarás sempre Poeta!
    Belíssimo o teu poema. Um que enche a alma…

    Mil beijos

    Fevereiro 20, 2009 às 22:36

  5. Mais uma magnífica expressão de poesia.

    Jorge

    Fevereiro 21, 2009 às 18:59

  6. Todo este poema é fantástico, mas retenho estes versos:
    “dispersei o meu ser no desprender das folhas
    às suplicas do solstício.”

    Obrigado.
    Paulo

    Fevereiro 22, 2009 às 23:27

  7. Os verbos da noite a moldarem os gestos da criação. Muito belo.
    Um abraço.

    Fevereiro 23, 2009 às 12:32

  8. Belo poema. Parabéns. Você conhece Herberto Helder, poeta português? Seu poema me lembrou os dele, que adoro.

    Obigada pela visita e pelo comentário.

    Helena

    Fevereiro 23, 2009 às 16:31

  9. Caro Poeta,

    “sim. ressuscitarei!
    uma. e outra vez.

    pelo som da mão que molda os gestos da criação.
    pela escrita da voz que forma as letras primevas do cosmos.”

    Somos nós que ressuscitamos!

    Cumprimentos
    Rocha

    Fevereiro 23, 2009 às 19:56

  10. Belo, Vicente.

    Aprecio muito a sua poesia, especialmente pela fusão espiritualidade-filosofia.

    Forte abraço,

    Hercília.

    Fevereiro 23, 2009 às 22:38

  11. Reafirmo o que já disse.

    Você é um dos melhores Poetas que já li.

    Agradeço-lhe os poemas que aqui coloca.
    Obrigado

    Tiago Carlos

    Fevereiro 25, 2009 às 14:02

  12. Obrigada por sua visita!
    estive fora por algum tempo, mas retorno a este vibrante mundo virtual que me tem oferecido a descoberta de boa poesia e bons amigos.
    Também eu tenho a aflição do infinito e esta sede de Deus.
    grande abraço,
    Ana Cecília

    Fevereiro 28, 2009 às 14:15

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