Ana e os Sóis Interiores

dandelion blue, originally uploaded by Emily Quinton.

 

[para a minha filha Ana, que nasceu hoje! (18/Jan/2009)]

 

Deixei a vida de escravo para ir trabalhar para o campo.

Foi uma decisão tomada num impulso momentâneo. Que surpreendeu toda a gente! Era um dos que tinham capacidade produtiva, sendo, por isso, considerado valioso. Isto apesar de sempre ter sido sonhador. Apenas a minha mulher me apoiou.
         
Mas os sonhos concretizam-se quando a semente germina. E o futuro vinha aí. Uma filha aproximava-se!
         
Alguns amigos, bastante curiosos, perguntavam-me:
– Que vais fazer para o campo? Nada percebes de agricultura.          

E eu sempre respondia:
– Vou plantar dentes-de-leão azuis! Vou crescer vida! Vou ser feliz!
– Dentes-de-leão azuis!? – Retorquiam – Mas estás doido? Isso não existe! Ao menos, planta algo que te dê pão.

Mas eu não ouvi. Limitei-me a persistir.

Foi num pequeno planalto, protegido pelos braços dos montes e que logo pela manhã era acarinhado pelos raios de luz, que decidimos semear os nossos sonhos. E instalamo-nos numa pequena casinha de madeira.

Passados uns meses, as cegonhas cor-de-rosa chegaram. A Ana nasceu e a nossa família cresceu. Para agradecer a bênção recebida, plantamos uma romãzeira ao lado da casa. Aí, mais tarde, colocar-se-ia um baloiço para a nossa filha voar.

A chegada da Ana renovou a nossa esperança e reforçou o carinho com que tratávamos a terra.

A nossa filha foi crescendo e amava a terra. Tinha uma ligação especial com a romãzeira, que tratava por irmã. Deliciava-se com as nossas histórias e vibrava com os dentes-de-leão azuis.

Mas o tempo foi passando e nada de dentes-de-leão. Muito menos azuis.

Avizinhavam-se novas mudanças e decisões eram necessárias. Numa noite, após o jantar, disse à minha mulher:
– Querida, a nossa filha vai para a escola e necessitará de mais apoio e de material escolar. Até hoje mantivemos o terreno dos dentes-de-leão livre, mas se calhar chegou a hora de isso mudar. Que achas?

A Ana, que ouvia a conversa, agarrou-nos as mãos e, levando-nos até ao campo vazio, disse:
– Pai, Mãe, não desistam. Aqui haverá sóis interiores! – e libertou, sobre o lugar dos nossos sonhos, as lágrimas que tinha no rosto.

Comovidos, pegamos na nossa filha e, sem nada dizer, confortamo-la no nosso abraço e, fomos dormir.

Talvez fosse mero acaso, talvez fosse pelas lágrimas. Mas, no dia seguinte, os dentes-de-leão floriram azuis.

Ah! Eram qualquer coisa de fantástico. De noite, faziam a aurora sorrir. De dia, entoavam as melodias do vento.

Tinham características especiais. Pois nascidos do amor, quando colhidos com ternura, libertavam o pólen da luz e o calor da renovação. Eram, tal como a Ana havia dito, autênticos sóis interiores.

Em pouco tempo, éramos notícia internacional. E eram tantas, as pessoas que os queriam ver e comprar.
No entanto, a Ana dizia:
– Não são para vender. São para oferecer aos que necessitam de sonhos.

 

25 responses

  1. ADOREI estea leitura impregnada de VIDA, SENTIDO, AMOR e POESIA!!!

    Vibrei pela realização dos seus sonhos aqui descritos, é maravilhoso concretizá-los em companhia de quem amamos, de coração puro e vibrante.

    Confesso q o costumo ler e já me apeteceu comentar, contudo, hj foi a minha estreia aqui, neste texto fantástico.🙂

    Sejam felizes!

    Um abraço

    Janeiro 18, 2009 às 11:00

  2. Belíssimo texto,cheio de ternura e poesia. Um catalisador de sonhos. Parabéns e felicidades. **

    Janeiro 18, 2009 às 15:49

  3. Seu conto é lindíssimo, Vicente. Expressa amor, delicadeza, intensa esperança.

    Parabéns, Papai, pela vinda da filhinha! Benção divina, raio de Sol.

    Forte abraço,

    H.F.

    Janeiro 18, 2009 às 20:21

  4. josemarto

    Parabéns, muitos parabéns…
    releio-o um texto belíssimo, em estado de encantamento !
    abraço
    ___________ Jrmarto

    Janeiro 18, 2009 às 21:24

  5. Parabéns à Ana!
    Há mãe e ao pai da Ana!

    Que na Vida, a Ana seja quem oferece sonhos!

    beijinho

    Janeiro 18, 2009 às 22:10

  6. a ternura do PAI na pena do POETA

    parabéns aos dois

    .
    um beijo

    Janeiro 18, 2009 às 23:15

  7. Desejo as maiores venturas para o Ser que acaba de nascer nesta esfera de consciência-terra. A Ana, como Ser, é perfeita , luminosa e completa.Está em Graça.

    Felicidade psra os pais.
    beijinhos,

    mariah

    Janeiro 19, 2009 às 09:44

  8. Lisbete

    Parabéns.
    A minha sobrinha é linda.
    E o conto… adorei.
    Beijos

    Janeiro 19, 2009 às 10:49

  9. Felicidade na vossa travessia e na conquista do vosso sonho.

    Janeiro 19, 2009 às 12:13

  10. ladrilhador de cedofeita

    Apesar de proscrito, resolvi fazer uma visita pra comungar do sentimento geral de regozijo e dar largas à minha alegria!
    Como desta vez estou em consonância com este pessoal todo, espero que o comentário não seja banido…
    Parabéns ao Pai.

    Janeiro 19, 2009 às 15:54

  11. Pedro Silva

    É verdade, Vicente, por vezes os nossos filhos, mesmo que sem querer nos ensinam que para quem para que algo aconteça só temos que acreditar,acreditar a sério.
    Apartir de ontem a tua razão de viver será só uma e ontem, não foi só a tua filha que nasceu naquele quarto.
    Parabens e Abraço.

    Janeiro 19, 2009 às 23:15

  12. Um filho é uma resposta da vida.
    E quando se tem a ternura domonstrada neste conto, é porque foi feita a pergunta certa.
    Que frutifiquem os sóis interiores.

    PAZ e LUZ

    Janeiro 20, 2009 às 00:59

  13. oceanus

    … um sonho
    … um conto

    … e a felicidade que se instala nos corações de quem ama!

    mãe e pai parabéns

    …e, para a vossa pequenina Ana que encontre os verdadeiros “sóis interiores”

    Felicidades!

    bjnhos

    oceanus

    Janeiro 20, 2009 às 01:07

  14. o brotar da vida é e será sempre um momento maior.

    belíssimo o conto-revelação que aqui nos deixa,

    abraço fraterno
    Mel

    Janeiro 20, 2009 às 07:39

  15. Um texto sensível e comovente. Parabéns para a Ana.
    Um abraço.

    Janeiro 21, 2009 às 10:20

  16. Parabéns papá:)

    Felicidades aos três:)

    Serenos sorrisos

    Janeiro 21, 2009 às 14:26

  17. Parabéns. Estou certa de que será um grande pai.

    Beijos.

    Janeiro 22, 2009 às 00:28

  18. Lindo, Vicente!

    Ave, Ana. Bem vinda!

    Janeiro 23, 2009 às 22:58

  19. Isabel CL

    Vicente,

    este conto que escreveste para a tua ANA é enternecedor.

    Parabéns, pai babado!

    Fevereiro 5, 2009 às 03:31

  20. luísa

    eu tenho um sonho, azul! pode ser em forma de dente-de-leão, se for da ana, basta-me que seja azul…

    um abraço e felicidades

    faz de conta que sou fada
    e três desejos me pediram
    não quis saber de mais nada
    se as flores azuis floriram

    deixo em pós de fantasia
    saúde, felicidade, amor!
    para a ana, sem magia
    tudo ter com pouca dor

    Abril 2, 2009 às 20:11

  21. Sol

    É uma semente de luz este teu espaço, Azul em alma e florido em mil cores cósmicas.

    Claro …emoção é um estado de alma que precisa de evolução… e é sempre isto que busco entre sonhos e pessoas que trazem o bem querer.

    Felicidades a Ana! A todos que acreditam nos sonhos de luz.

    Setembro 20, 2009 às 03:29

  22. Antero

    Parabéns!
    Hajam sóis interiores para fazer crescer todos os sonhos em vida.
    A verdadeira busca passa por ver nascer e crescer algo onde mais ninguém vê,
    Abraço,
    Antero

    Setembro 20, 2009 às 20:25

  23. Margarida Dias

    Olá, Vicente

    Li o texto lindíssimo que escreveste sobre o sonho que se tornou realidade na Vossa Filha.
    Ligado a este, outros sonhos estão e estarão, pois penso que é na prossecução dos sonhos maiores que a nossa vida tem razão de ser.

    Um abraço para os pais da Ana e um xi do coração para a Ana

    Agosto 9, 2010 às 13:54

  24. Maria Antónia Moreira Anacleto Pereira Leite

    Eu necessitava de sonhos e a Ana apareceu para me oferecer. Passado mais de um ano só hoje vi. Que lindo. Isto é vida, isto é amor…A Ana é uma bêncão…
    Recordei o baloiço da minha infãncia numa nespereira e aquela sensação de querer voar. Eu tive uma infância feliz. O pai não plantou uma romãzeira mas uma nespereira. E eu aprendi a voar…

    Agosto 10, 2010 às 20:36

  25. Maria José Fabião

    Já tanto foi dito àcerca deste seu maravilhoso conto, que eu apenas tenho que lhe parabéns e pedir-lhe que continue a escrever…. Bjs.

    Setembro 14, 2011 às 23:18

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