Canto Único

 

 

talhada a cinzel,
uma lua laranja vela o horizonte.
em tal aura, refugia-se a essência desnuda
e pressente-se a indelével partitura do cosmos.

no silêncio transformado em paz,
onde palavras são fábulas de paixão,
o aroma revela a melodia do profundo
que enleva a água-marinha aos nenúfares
e insufla em ternura nuvens prateadas.

noites azuis,
pepitas de ouro.
como orquídeas suspensas em lagos,
estrelas pendem serenas.
nesses rastos brotam sonhos.
pelo voo do beija-flor
que solta as harpas do encanto
do jasmim insubmisso.

é em pleno desprendimento que recordo.
quando sou intermitência da consciência antiga.
e semeio-me, breve, no campo da noite,
às pétalas de marfim, às gotas de luz
do orvalho banhado em raios de água pura.
mimo da mãe terra.
porque as origens são cegas. somente atribuídas!

estremeço com o ritmo da tua frequência.
não por inânia, mas por rendição.
por retornar ao uno que fomos,
pelo resplendecer da íris exaltada,
pelo arquejar do corpo omnisciente
no resgate dos beijos de jade.

ah! os lábios de fogo anseiam pelo sabor
do teu travo de framboesa fresca,
que faz esse colar silvestre de esmeraldas
onde toda a lembrança se embala.
e vago, nos estilhaços das eras,
renascido em teu flamejar.

por fim, a alma do jardim da tranquilidade.
no casulo de seda que afaga as asas da luz,
em tempos do tempo sem tempo.
os tons de púrpura expandem-se
e a face límpida da liturgia cósmica emerge:
a densidade é o tecido do amor
o cântico a sua expressão.

encerro a tristeza em gomos de romã.
não para a esquecer, mas para a despojar.
pois as lágrimas de sangue são vida!
é por elas que a emoção é nutrida.
é por elas que suspiro na cripta sagrada do Ser.
pelas letras que fazem a poesia celeste,
nas névoas da água universal do reencontro.

descansarei,

verbo no Canto Único.

 

in Diálogos, Epístolas Inertes

11 responses

  1. Não sou capaz de dizer nada
    chegará dizer que é assim que sinto
    que tomara que algum dia consiga descrever um quarto da lindeza e da magia do que está escrito?

    beijinho

    Dezembro 6, 2008 às 22:59

  2. Espero que não te importes que tenha levado “emprestado” um poema daqui…

    A manhã do meu Domingo foi preenchida, mais uma vez, a ler-te. Fazem-me bem as tuas palavras.

    Um abraço e continuação de bom fim de semana😉

    Dezembro 7, 2008 às 12:10

  3. »Talhada a cinzel
    uma lua laranja vela o horizonte», ganho a leitura logo nos dois primeiros versos , e continuo ….
    Cordialmente_____________ JRMarto

    Dezembro 7, 2008 às 22:57

  4. Belíssima forma de te assumires como parte do cosmos. Não é o que todos somos? E como essa percepção muda a nossa perspectiva da vida… **

    Dezembro 8, 2008 às 19:23

  5. … tão belo como cristal azul
    num mar de silêncio perfumado!

    lindo!

    bjs

    Dezembro 8, 2008 às 20:03

  6. Verbo no Canto Único…
    Um poema com pétalas de marfim, gotas de luz do orvalho, um travo de framboesa fresca, gomos de romã… Gostei.
    Um abraço.

    Dezembro 8, 2008 às 20:13

  7. TV

    Por sua causa também descansarei no Canto Único.

    Belíssimo poema.

    Dezembro 12, 2008 às 23:12

  8. “a densidade é o tecido do amor
    o cântico a sua expressão.”

    O seu Verbo é fonte de amor. Acredite!

    Dezembro 16, 2008 às 16:30

  9. TV

    Este seu “Canto Único” faz-me descansar nas correntes do universo.

    É sempre um prazer rele-lo.
    Obrigado
    Teresa

    Março 7, 2009 às 22:59

  10. Conceição Carvalho

    (…) “ah! os lábios de fogo anseiam pelo sabor do teu travo de framboesa fresca”

    Tão lindo…

    Fevereiro 24, 2011 às 21:31

  11. EME

    Da experiência sensorial de sabores frutados, à experiência “in extremis” do sentir.

    Abril 8, 2011 às 00:21

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